Memórias de mezinhas caseiras

Para que não haja qualquer tipo de dúvida, vou tratar hoje de mezinhas (remédios caseiros), muito utilizados em priscas por nossos avós. Eram chás infalíveis, poções mágicas, ungüentos fantásticos que emergiam das cozinhas, diretamente dos fogões à lenha ou carvão para o adoentado familiar.
Eu fui um que muitas vezes tive ministradas essas mezinhas e não posso me queixar, aqui estou com 67 anos de vida e, me parece, ainda, podendo receber como se dizia na época, uma boa “meia sola”.
Falando sobre o assunto, me lembro de uma ocasião nos meados dos anos 40, em que meu irmão tinha sido acometido por uma forte gripe que, e que por descuidos dele mesmo se transformara em princípio de pneumonia, doença que na época pela raridade de antibióticos podia ser fatal.
Os remédios receitados pelo médico da família eram ministrados com toda regularidade e acompanhados por mezinhas caseiras.
Com a persistência da tosse que se rebelava e não cedia aos medicamentos, minha tia Neide em conluio com minha mãe resolveu aplicar uma mezinha antiga, usada por minha avó e que tinha resultados infalíveis.
Era a famigerada “cataplasma de linhaça”. Uma papa feita com farinha de linhaça que aplicada em altas temperaturas produzia um calor benéfico que, por sua vez, acelerava o restabelecimento do doente.
Decisão tomada, panela ao fogo e mingau de linhaça sendo preparado, paralelamente, meu irmão, na época com uns 6 anos de idade, foi deitado de bruços em sua cama e sobre suas costas foi colocada uma densa toalha de banho, dobrada várias vezes.
Mais ou menos seguro por familiares, eu entre eles, o Carlinhos estava preparado para receber o remédio, e lá veio minha tia com a panela fumegante e a colher de pau. “Pimba”, começou a colocar o tal mingau sobre a toalha que, por sua vez, estava sobre o doente.
A quentura do mingau no início suportável depois de alguns minutos foi se tornando demasiada e, num momento de descuido, o nosso doente tenta escapulir do suplicio e, não deu outra, solta um grito lacerante. Se levanta livrando-se de todas as mãos que tentavam segurá-lo e gritando desesperadamente mostra suas costas que estavam horrivelmente queimadas.
Não me recordo se a mezinha teve efeito benéfico, lembro apenas que o Carlinhos sarou da pneumonia, mas teve que ficar de cama, em tratamento pela terrível queimadura, por várias semanas.
Esta foi aplicação desastrosa de uma mesinha dos “laboratórios Chammas” em suas instalações na Rua Augusta 29l…

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