Rua Augusta, 291, meados de 1940, moleque de 7 anos com fixação por “gibis”: Superhomem, Capitão Marvel, Capital Marvel Jr., Flash Gordon…
Hoje as figuras idolatradas seriam outras, seriam bonecos disformes, de origem nipônica, seriam máquinas que se transformam e outras coisas abstratas de somenos importância.
Mas nada de divagações, voltemos ao tema principal.<br>A casa tinha um corredor que ía do hall de entrada até a cozinha, terminando na porta que dava acesso (ou seria saída?) para a escada que lateralmente levava ao quintal.
Na continuidade imaginária desse corredor, abaixo de seu nível e atravessando a mureta de anteparo, estava instalado o tanque de lavar roupas, que pela quantidade das pessoas residentes na casa estava sempre ocupado.
Pois bem, numa manhã calma, sem nada especial, nosso herói acabando de ler seu gibi, olha para os lados na procura de algo interessante, vê pendurada no cabide atrás da porta do quarto uma linda toalha de banho. Retira-a do cabide, coloca-a nas costas fazendo um belo laço no seu pescoço. Certifica-se de que sua “capa” esvoaça com suas deslocações, sai do quarto que era a primeira dependência do referido corredor, olha para frente e vê que a porta da cozinha, como acontecia normalmente, está totalmente aberta, posiciona-se no centro do corredor, toma impulso e sai em desenfreada carreira. Percorre toda a extensão do corredor, chega à mureta de anteparo, sobe nela e se atira ao ar, certo de que sairia voando pelos ares. Tchibum! Seu corpo cai verticalmente dentro do tanque que, por sorte sua, estava cheio de água e roupas de molho. Mãe e tia do tresloucado garoto acorrem ao ouvir seu grito desesperado. Retiram-no de dentro do tanque, certificam-se de que ele está inteirinho e sem qualquer avaria.
Então, já livre das roupas totalmente molhadas, da sua “capa voadora” e moralmente abatido, vejo minha mão se aproximar com uma velha cinta de couro e não tenho coragem de correr e me esconder.
Mais uma das minhas peraltices, mais uma das minhas surras, diga-se de passagem, bem merecida.
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