Renato é meu sobrinho, tinha nove anos por ai, quando seu coração começou a fraquejar.<br>Foi um tratamento intenso, exames e mais exames e cada vez mais preocupação.<br>O tratamento foi até onde deu. E ai chegou-se à conclusão que a saída era somente uma operação. Se bem que estávamos no início dos anos 1990, portanto com a medicina já avançada nesse negócio de coração, mas sempre preocupa quando se trata de uma operação tão delicada e em se tratando do coração, talvez o órgão mais delicado para se mexer. Era uma operação de risco, e os médicos do hospital Matarazzo, que já vinham fazendo o tratamento do menino, estavam otimistas.<br>Vai dar tudo certo, diziam eles para minha cunhada. Aqueles médicos eram muito bons, Renato ia sobreviver.<br>Mas era o hospital que já estava agonizando, já não era muita certeza continuar vivo. De todos os blocos de assistência que tinha naquele enorme terreno, que já era visado pela especulação imobiliária, somente aqueles em que estavam crianças internadas resistia.<br>Se a vida do hospital estava por um fio, a de Renato tinha fios a mais de sobrevivência. Ele tinha saído da mesa de operação e era só otimismo dos médicos, verdadeiros leões da resistência da vida de seres humanos e de um imóvel, que, quieto, não podia fazer outra coisa a não ser esperar o seu destino, que estava nas mãos do INPS, dos possíveis condôminos que faziam parte da administração do hospital, dos interessados em construir edifícios e da justiça que ia dar seu veredicto final.<br>Quando Renato saiu da UTI, e já podia receber visitas, deixei a coisa acalmar para fazer uma visita ao garoto. E foi num domingo de sol, lindo, depois do almoço, que lá fui. Ao entrar fiquei me lembrando de uns trinta anos antes, quando lá estive para fazer uma consulta, e de outra vez que fui numa emergência. Sabe, pobre sempre vai onde é de graça!<br>Foi por causa de uma gripe ou algo que me afetava que lá fui. O medico deu um remédio e mandou voltar sem falta. Acho que ele viu alguma coisa diferente na minha carcaça.<br>E lá fui eu depois de tomar um xarope e fazer um refluxo de buchinhas na água morna. Coisa chata que saia sangue do nariz. Acho que era para combater sinusite, sei lá, já faz tempo. Voltando lá, o médico quis saber quais eram minhas atividades. Então eu disse que trabalhava de segunda a sexta, nove horas diárias. Sábado e domingo, jogava bola quatro vezes. Sem contar que enchia a cara, e ia numas quebradas da boca do lixo.<br>- Menino você esta precisando de cálcio, e reduzir um pouco essas atividades. – Disse o médico, com cara de preocupação – cuidado com doenças venéreas – aconselhou ele.<br>Ai receitou-me Doce Ful Cálcio, um negócio ruim de tomar. Me lembro do gosto até hoje.<br>A segunda vez que lá estive foi em 1956, pouco tempo depois da primeira.<br>Tinha levado uma chifrada de um bode. O bicho estava quieto. Quis dar uma de toureiro e fui vencido pelo boi, digo bode. E lá foi uma injeção dolorida aplicada nas nádegas, contra o tétano.<br>Tudo isso aqui relatado pensei em poucos minutos. Da entrada pelo portão até o quarto do Renato. Lá chegando, já fui falando alto: e aí garoto, vamos jogar bola? Algumas piadas, muitas bobagens, alguns palavrões. Sabe, criança gosta de uma “sacanagem”. Renato ria pra chuchu. Ate que a mãe dele falou: bem, vamos parar, se não ele acaba tendo alguma coisa no coração de tanto rir. Dei uma saída e fui por aquele largo e enorme corredor, com piso de mármore, já bastante desgastado pelo uso em demasia. Era a mostra do descaso das autoridades, que estavam se fazendo de cegas e perdendo um belo e grande hospital, que foi o orgulho de uma família de imigrantes que se deu bem no Brasil e que quis retribuir a nação, dando ao povo saúde, como do povo que sempre foi grato ao atendimento que recebia por parte dos médicos e atendentes. Tudo fazia crer que o Hospital Matarazzo estava no fim da picada. Justo ali, em que muitas picadas foram dadas para salvar vidas. Era a tacada da especulação imobiliária que dava de ombros a quem dele necessitasse. <br>Depois de ir e voltar por aquele enorme corredor comecei a entrar em vários quartos. Sempre tenho essa mania de quando vou a um hospital não ir somente no quarto onde vou fazer a visita, mas em outros tantos. E em cada quarto uma criança acompanhada por sua mãe ou pai e outros parentes.<br>- Oi, tudo bem. Como se chama, É corintiano? – Coisas de um abelhudo, que não tem muito o que falar, mas gosta de estar. Até que entrei num quarto onde estava um menino de uns doze ou treze anos. Era o mais velho de quantos tinha visto. Estava sozinho no quarto. Abriu um sorriso maior do que o do Silvio Santos quando ninguém acerta e ele não tem que pagar nada. Fiquei acabrunhado por vê-lo sozinho:<br>- Sua mãe já foi embora?<br>- Não. Eu não tenho mãe. – Disse ele.<br>- E o seu pai?<br>- Também não tenho pai – completou.<br>A enfermeira, que já tinha entrado com o remédio dele na mão, disse que aquele menino não tinha ninguém na vida e que morava no hospital por que seu tratamento ia durar anos, então ficava por ali mesmo.<br>Ai vem a reflexão: muita gente chora por pouca coisa, e outro ri tendo muita coisa por cima de si.<br>Voltando para o largo corredor, comecei a perceber quantas e quantas pessoas por ali já deviam ter passado em busca de sobrevivência. E mais: aquele não era um hospital publico, era um hospital particular que estava nas mãos do INPS, é verdade, mas que sempre recebeu pessoas sem perguntar se tinha ou não recolhimento de IAPS. Pelo menos de mim quando lá estive não exigiram nada. Bom tempo aquele que vivíamos na época.<br>Olha gente, quando forem a um hospital visitar um ente querido, não deixem de ir a outros quartos, ali sempre tem portas abertas para receber alguém. E sempre tem alguém esperando por você. O ser humano pode ter sido qualquer coisa na vida, mas quando ele está no leito de um hospital ele é igual a todos os outros, necessita de carinho e atenção.<br>Tempos depois passei pela Rua Itapeva, onde se localizava o hospital Matarazzo. O prédio ainda estava de pé, mas praticamente apodrecido, com seu terreno cercado por madeirit, a espera de uma ação da justiça, que ia dar o veredicto final, de quem ficaria com o imóvel.<br>O hospital morreu. Renato, não. Hoje ele está com seus vinte e oito anos, um metro e noventa de altura, já foi jogador de basquete e está vendendo saúde.<br><br>e-mail do autor: [email protected]