Lembro-me de que certa vez fui a passeio à cidade de São Paulo, tomado pelas saudades da cidade, trazidas no tempo em que aí residi.
Foram tantas as dificuldades morando sozinho, sem a companhia dos familiares. Nós sempre muito ligados uns aos outros por laços de parentesco tanto maternos como paternos.
Meus pais são oriundos de famílias numerosas, cada um somando 11 irmãos entre homens e mulheres. Alguns irmãos maternos se casavam com irmãos da família paterna. Alguns eram irmãos gêmeos. Do cruzamento tínhamos primos que eram primos irmãos, isto é, dois irmãos casados com duas irmãs e tinham os casais contrários. Minha tia, irmã de meu pai casou-se com o irmão de minha mãe. Deu pra entender? Assim eram nossas famílias, de descendentes italianos; não tinham muita escolha, ou a escolha era proposital devido aos laços de parentesco como já citei.
Nesta viagem que fiz me servi de uma carona na cabine de um caminhão de transporte de cargas. O motorista, Sr. Osni, era vizinho de minha sogra, caminhoneiro e proprietário do veiculo. Transportava madeira para as indústrias de São Paulo e trazia a carga de açúcar do porto de Santos. Muito boa pessoa, seu Osni não se importava com minha companhia, até penso apreciava, pois, viajava acompanhado.
Claro que quem ditava as regras era ele e também os locais de parada. Cada um com suas despesas pessoais, afinal eu estava a passeio, e em gozo de férias para rever a cidade que outrora me adotara e de que eu gostava. Os locais visitados por mim já foram comentados nas histórias que contei, então não é necessário repeti-las. Ficamos nesta viagem exata uma semana, contanto os dias da ida e da volta enquanto esperávamos a carga, para não retornar ao destino de origem com o caminhão vazio. Seu Osni, acostumado ao tráfico de vez em quando na estrada federal deixava o caminhão na boléia. Foi assim que compreendi a letra da música do cantor Roberto Carlos, o caminhoneiro.
Difícil mesmo era trafegar pela cidade de São Paulo, mas com a experiência que possuía o seu Osni, escolhendo as vias certas, não tivemos nenhum problema. Foi para mim uma experiência bem rica e deliciosa e também diferente, pois me deu a oportunidade de ter saído de minha rotina diária.
Ouvia empresários, donos de estabelecimentos comerciais, que se queixavam da vida, dizendo que a cidade havia sido invadida por nordestinos, que a cidade virara um caos pelo número de migrantes vindos do Nordeste brasileiro. Ouvia a queixa deles com atenção e observava ao mesmo tempo os mesmos moradores da cidade ocupando o trabalho em postos de serviços, sendo a maioria de trabalhos braçais, muitos deles atuando em bares e restaurantes da capital. Como fui migrante, também me sentia um tanto ofendido pela discriminação sofrida por eles, os lojistas, atribuindo aos “invasores” o insucesso das vendas, as crises de violência e a bagunça e a deterioração dos lugares públicos e centrais, por conta da invasão nordestina. Parecia a mim um ódio enraizado no pensamento daquele paulistano, por conta da ocupação indesejada. Até hoje não sei ao certo se a ida deles atrapalhou a vida dos moradores de São Paulo. O ramo de negócio de um dos queixosos era o comércio de jóias, relojoaria e ótica.
O tempo passou muito rápido. Comprei alguns presentes para os meus familiares queridos e retornei com seu Osni, e nunca mais usei este veículo de carga como meu transporte pessoal, pois as oportunidades não mais surgiram. Lembro de outra viagem feita antes desta experiência e também de caminhão, mas foi apenas de volta de São Paulo para o sul do país, aproveitando a viagem de um conhecido de meu colega de quarto, o Naroldo Gomes. Viemos juntos na ocasião, eu para passear em casa dos meus pais e ele, o motorista, para transportar um material chamado de “fiorita” que se utilizava ou se utiliza na fabricação de vidros. A descoberta desta matéria prima havia se tornado um verdadeiro “boom” no mercado e com o produto bem valorizado quem tivesse a sorte de encontrá-lo poderia considerar-se rico, e realmente ficava.
Assim é o nosso país. Uma mescla de pessoas nascidas em lugares diferentes, mas todas com o mesmo propósito. Sobrevivência para muitos e colaborando ao mesmo tempo com a riqueza alheia, do Estado e da cidade de São Paulo, de maneira tão incompreendida por aquele dono de loja da cidade paulistana.
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