Obrigada São Paulo

São Paulo 18 de setembro 2007
Morava em um vilarejo de 1000 habitantes, um mundinho que eu achava que era todo meu, ruas sem endereço, casas sem números, na verdade nem precisava, todo mundo era conhecido por ali. Imaginem vocês qual foi meu espanto quando conheci a terra da garoa. Meu principal motivo era fazer uma plástica, em uma enorme cicatriz abaixo do meu pescoço.
Cheguei em São Paulo em 1963, com 15 anos de idade, trazida por meu pai, homem simples, de mãos calejadas pelas labutas nas roças, cuja pobreza era de dar dó. Pegamos uma carona até a cidade de Londrina para embarcar à São Paulo. Foram 16 horas de viagem em um trem de segunda classe, felizmente depois das curvas, subidas e descidas, balanços e barulho do velho trem, descemos famintos e cansados na estação da Luz. Era um sábado ensolarado do mês de dezembro. Qual foi meu espanto quando vi um pedacinho de São Paulo pela primeira vez. Gente e carros por todos os lados, parecia um formigueiro, seus gigantescos arranha céus, mal podia acreditar como se podia fazer algo assim tão alto. Uma loucura ou um sonho meu? Não entendia a realidade das coisas, quantas novidades em poucos minutos. Agarrei fortemente os braços de meu pai, morrendo de medo de me perder no meio daquela multidão. Pegamos do fundo do bolso da calça de meu papi um pedaço de papel amarrotado e mal escrito na ânsia de encontrar o endereço de um conterrâneo, para que pudéssemos ficar hospedados em sua casa por alguns dias ou enquanto estivéssemos em Sampa. E por aqui fiquei por oito meses, sem a companhia de meu pai, pois este tinha além de mim mais nove filhos e a roça não podia esperar, havia colheita para fazer. Antes de retornar à minha minúscula cidadezinha do norte do Paraná, conheci por aqui um rapaz muito simpático, namoramos por alguns meses, depois que fui embora continuamos a nos corresponder. Nos casamos em 1966 e em Sampa eu estava de volta, desta vez em definitivo. Tivemos cincos filhos, uma vida muito simples. Mesmo assim proporcionamos aos nossos filhos umas das melhores escolas da zona norte. Minha filha mais velha, ao fazer vestibular, passou em cinco faculdade de medicina, todas particulares. Apesar da situação financeira não ser das melhores a matriculamos na faculdade do ABC. Tudo parecia estar sobre controle, até que um dia meu marido foi acometido por um tumor maligno, vindo a falecer um ano depois. Fiquei sozinha com cinco filhos, alguns deles menores de idade. Tive que trabalhar para manter o mesmo padrão de vida, digo, para não tirar meus filhos da escola particular. Minhas economias não deram para sustentar por completo minha filha no curso de medicina. Mas graças à orientação do diretor da faculdade conseguimos crédito educativo para ela não interromper seu curso. Hoje é uma grande médica do hospital São Paulo e maternidade Santa Joana. Além dela meus outros quatro filhos se formaram em publicidade, jornalismo, direito e educação física. Desde que perdi meu marido continuo no mesmo emprego, há vinte anos. Com o tempo que me sobra resolvi pensar em mim e no meu sonho. Tentarei vestibular ainda este ano para Direito, apesar dos meus quase 60 anos de idade. Esta é minha história, dou graças a Deus não poder terminá-la, por me encontrar viva. Quem sabe um dia alguém termine por mim, dizendo assim: "Tereza, uma cidadã interiorana do Brasil, foi grande mulher, formou-se em direito depois de criar sozinha cinco filhos. Seu lema era aproveitar ao máxima a vida e as oportunidade que São Paulo lhe oferecia. Dizia sempre que era mineira de nascimento, paranaense por amor e paulista por paixão". Obrigada mesmo São Paulo, conte sempre comigo.

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