Destino: 25 de janeiro de 1954

Como já relatei em outro conto neste site, 25 de julho de 1998 foi o dia mais feliz que tive na vida. Esta é a data de nascimento da minha amada filha Letícia. Hoje a pequena está com nove anos e cada vez mais linda. Pai coruja, vocês sabem, né?
Bem, como todo progenitor que se preocupa com a educação de sua prole costumo acompanhar todos os trabalhos, lições de casa e disciplinas aplicadas a ela. É comum eu chegar em casa, após o trabalho, e Letícia vir correndo me cobrar ajuda nas tarefas escolares. Com paciência e dedicação eu ajudo de maneira prazerosa, pois quero o melhor para minha pequerrucha. Abaixo segue o relato de uma tarefa que fizemos juntos e que ao mesmo tempo foi uma viagem fantástica ao passado. Espero que gostem, pois para mim foi sensacional.
– Pai, a professora de geografia pediu para levarmos dois cartões postais com a foto de um mesmo lugar.
Disse ela vindo correndo em minha direção.
– Tá bom, vamos ver do que se trata, mas primeiro: cadê o abraço do papai?
Ela se atirou no meu colo e me deu um beijo caloroso que me recobrou as forças após um dia cansativo de trabalho.
– Ela quer fotos de um mesmo lugar? Como assim? Me explica melhor.
Disse sentando com ela no sofá.
– É, pai. Nós vamos fazer um exercício comparativo. Analisar as mudanças que ocorreram ao longo do tempo. Tem que ser uma foto antiga e outra recente de um mesmo lugar. Entendeu agora, pai?
Falou, com ar inquisidor.
– Ah, ficou fácil. Duas fotos de um mesmo lugar para você comparar como ele mudou ao longo dos anos. E tem que ser aqui do bairro?
Perguntei, já que moramos na Móoca, zona leste de São Paulo.
– Não. Ela falou que pode ser de qualquer lugar da cidade.
Disse isso pegando a agenda escolar, me mostrando o recado da professora.
– Tá o.k. Vou comprar estas fotos amanhã, pois agora já está tarde.
No dia seguinte, logo cedo, percorri algumas bancas de jornais e papelarias do bairro em busca dos cartões. Para meu desespero não encontrei nenhum. Mas uma senhora muito simpática disse que eu acharia os cartões na Praça da Sé. E me pus a caminho do centro da cidade. Desci do metrô e solicitei a uma jornaleiro que me mostrasse os cartões que ele tinha. Já que estava na Sé comprei dois postais que mostravam a Praça, um recente e outro do dia da inauguração da Catedral de São Paulo, no longínquo 25 de janeiro de 1954. Que ótimo, tinha dois belos cartões postais e a certeza de que Letícia iria gostar. Naquela noite lhe mostrei as fotos e para estimular sua imaginação propus um exercício.
– Que tal fazermos de conta que estamos na Praça da Sé nesse dia?
Perguntei animado para ela.
– Como assim, pai? Ficou doido?
Me respondeu.
– Não, amor. Se você usar a imaginação vai ser bem legal. Vamos tentar?
Falei.
– Tudo bem.
– Então, vamos lá. Um, dois, três, vuuuummmm. De repente estamos no meio da Praça da Sé no dia 25 de janeiro de 1954. Uma multidão se aglomera em frente à Catedral que está sendo inaugurada, afinal de contas é um dia festivo. São Paulo está comemorando seu Quarto Centenário e há diversas atividades acontecendo.
A primeira coisa que chama a atenção de Letícia é o fato da Catedral estar inacabada. Explico que as obras foram iniciadas em 1913 sendo o projeto de autoria do arquiteto e professor da Escola Politécnica Maximiliano Hehl. Adotando um estilo neogótico e a inclusão da cúpula de concreto sobre o cruzeiro, característica academicamente classificada como pertencendo à arquitetura religiosa renascentista. Com 111 metros de comprimento, o edifício abriga várias curiosidades que muitas vezes escapam ao olhar do visitante. Apesar do estilo europeu, a Catedral tem elementos bem brasileiros, como os altares com pedras verde-amarelas e os capitéis das colunas, com animais e plantas da fauna e da flora nacionais. O prédio só ganhou seu formato definitivo em 2002, depois de uma restauração que aproveitou para completar o projeto original, adicionando catorze torreões, algumas obras menores e o vitral da fachada da igreja, com sete rosáceas. Mas ainda falta recuperar o órgão de 12 mil tubos.
Naquele 25 de janeiro Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, arcebispo de São Paulo, oficiou a missa inaugural da Catedral. Na ocasião leu uma mensagem de benção do Papa Pio XII. Hoje a Praça da Sé é ladeada por inúmeras árvores que incorporadas à beleza da Catedral dão um colorido especial num cenário magnífico.
Minha filha gostou da viagem, anotou tudo e recebeu uma nota dez da professora. Agora só falta levá-la para passear na Praça da Sé num passeio real. O que vai acontecer nos próximos dias.

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