Algumas pessoas tinham destaque no bairro do Itaim. Eram pessoas que trabalhavam, não só em seus ramos de trabalho como também desenvolviam trabalhos em prol de seus semelhantes sem nada pedir em troca.
Assim era seu Mimi
Um apelido apenas, pois jamais eu soube seu nome de batismo. O conhecia desde pequeno. Era pai do Milton meu colega de escola. Tinha também outros filhos e filhas. Não sei qual era a profissão do seu Mimi. Só sei que ele era o massagista. Autodidata do pessoal do bairro. Torceu o pé? Vai na casa do seu Mimi, que ele coloca no lugar. Era o que todo mundo dizia. Não era só do Itaim que iam pessoas. A fama do homem correu toda a adjacência do Itaim. Sabe lá se não vinha gente de longínquos rincões. Ele sabia o que estava fazendo e era um homem de grande formação. Educado, fala mansa. Respeitoso principalmente com mulheres, quando a massagem tinha que percorrer pernas, femininas. Na Rua Clodomiro Amazonas número quatrocentos e alguma coisa, era uma “casa de todo mundo”, pois diariamente tinha mais de uma pessoa querendo se livrar da dor. Seu Mimi nunca aceitou um vintém de alguém.
Doutor Roberto Gouveia Paulini
Dentista, morava também na Rua Clodomiro Amazonas, 456, vizinho do seu Mimi. Este era outro que marcou muito no Itaim. Era funcionário publico lotado na prefeitura de São Bernardo, e tinha consultório inicialmente na Rua Quatá, e depois foi para sua casa. Era uma pessoa que nunca disse não a quem o fosse procurar. Mesmo sendo a qualquer hora da noite, ou mesmo domingo. Estando ele em casa, era consulta na certa que deixou muita gente voltar para casa livre da dor de dente. Durante muitos anos fui seu cliente. Ou, melhor amigo. Embora amigo de grandes papos o chamava de doutor, coisa que ele com um sorriso rejeitava. Não precisa me chamar de doutor. Era corinthiano, adorava conversar sobre futebol, futebol e, de suas viagens a Casa Branca sua cidade natal. Eu ia sempre á noite e fazia questão de ir mais tarde para ser o último. Durante a consulta era mais conversa do que serviço. O tratamento de um canal durava muitos dias. O papo era tão descontraído que era preciso que a esposa dele fosse lá alertar que estávamos perto da meia noite. Depois que o longo tratamento terminou, fiquei sem vê-lo inclusive no Barateiro da Clodomiro, local onde sempre nos encontrávamos aos sábados. Passei um dia de fronte sua casa e vi luzes apagadas. Um ambiente calmo. Fiquei meio desconfiado que algo tivesse acontecido. Na certa tinha desistido de consultar em sua casa, ou então optou por ficar somente no serviço público. Um dia resolvi ir em sua casa, para fazer-lhe uma visita. Sua esposa me atendeu, mandou entrar, e foi falando sobre várias coisas e o doutor Roberto não aparecia. Daí a conversa partiu para a dura realidade. Doutor Roberto tinha se sentido mal ligou para seu irmão, doutor Floriano, que era médico e contou que estava com uma dor de cabeça. Recebeu ordem para tomar uma aspirina. Como não passou, ligou novamente dizendo que estava sentindo um ardor nos braços. O irmão disse: então vou aí o mais rápido possível. Chegando lá em poucos minutos foram para o carro, ao abrir a porta ele não conseguiu entrar tombou ali mesmo. Levado ao hospital mais próximo no início da Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, chegou morto. Senti como se tivesse perdido um irmão. Achei que uma pessoa como aquela merecia seu nome na placa de uma rua. Por minha iniciativa em 1982, a câmara dos vereadores aprovou o nome dele numa rua da zona norte. Era tempo de eleição momento propicio para pedir favor aos políticos. Um belo dia sua esposa apareceu em minha casa, e fui presenteado com o guia da cidade de São Paulo, contendo a rua com o nome do meu amigo doutor Roberto. Em Santana alguém já deve ter passado na rua Dr. Roberto Golveia Paulini.
Anastácio.
Esse era o nome dele. Mingúem sabia seu nome completo. Era um anão, com oitenta centímetros de altura. Não era um anão normal, desses que correm, fazem traquinagem e fazem muita gente rir. Tinha um grande defeito físico. Não tinha os dois braços, e na borda do ombro alguns dedinhos que somente ficavam como “enfeites”. Anastácio trabalhava de apontador do jogo do bicho, escrevia e muito bem com os pés. Tinha uma caligrafia invejável. Minha irmã Teresa que tinha cinco anos mais que eu era a encarregada de levar o papel para ele fazer o jogo do bicho do meu pai. Ela ficava encantada com a letra linda que ele tinha. Exclamava: veja pai a letra dele, que escreve com o pé!
Era pouco falante, andava por todo o bairro, era por demais conhecido. Tomava ônibus normalmente, subia no degrau na base do pulo. Quando ia descer tinha sempre alguém querendo ajudá-lo, não rejeitava, mas se tivesse que descer sozinho sabia como fazer.
Certa vez ao descer no Anhangabaú ônibus 52 – Itaim várias pessoas foram até ele oferecer dinheiro como esmola, ele não aceitou. Dizia que não tinha ido à cidade para pedir esmola. Eu trabalho, disse ele a várias pessoas que se aglomeravam por curiosidade.
(aliás, ele causava muita curiosidade). Diante de pessoas espantadas por dizer que trabalhava, e respondendo uma pergunta, em que ele trabalhava sendo daquele jeito ele dizia. Pegue esse bloco de papel no meu bolso. Coloque esse lápis (uma ponta de lápis) no dedo de meu pé. Feito isso ele dizia quem quer fazer uma fezinha no jogo do bicho, e se divertia. Gente que nunca tinha jogado arriscou a sorte só para vê-lo escrever com o pé direito. Anastácio não foi uma figura muito lembrada. O que para mim foi uma grande injustiça. Na certa ele vivo não é. E eu não tive noticia de sua morte.
Miguel Ferrador
Os anos 1940-50 era uma época em que tinha muitos carroceiros. Pouca gente tinha carro naquela época. Os carros eram todos importados e nem se sonhava em ter no Brasil uma indústria genuinamente nacional.
Carroça quase todos tinham. Principalmente na zona norte da cidade. No Itaim também tinha muitas carroças e carroceiros. Para os carros tinha a loja de pneus Pneuac, o já famoso 477, da Barão de Limeira, assim dizia a propaganda do rádio.
Para as carroças, tinha o aro de ferro que calçavam as rodas de madeira. Mas, e os calçados, para os cavalos?
Bem, aí tinha Miguel ferrador. O craque em ferraduras. Nós crianças ficávamos por muitos minutos vendo aquela fornalha jogando fogo para todos os lados, Miguel todo vermelho, parecia que estava se queimando com o fogo que a forja mandava.
Que nada, ele já estava era acostumado com a quentura do fogo, e as ferraduras saiam em grande forma, ainda vermelhas de fogo eram batidas com um martelo esquisito que ele tinha. Aquelas batidas eram a forma artesanal de se fabricar ferraduras, para o jóquei, para os carroceiros e até encomendas para pessoas que nunca tiveram cavalos, mas queriam uma ferradura para colocar atrás da porta de entrada da casa.
Um costume que muita gente tinha na tentativa de ter mais sorte na vida, porque alguém achou que a ferradura era um objeto que dava sorte. Mas tinha que ser ferradura com sete furos, que era para dar sorte. Era comum as pessoas que encomendavam ferraduras para sua casa alertarem o Miguel: olha, não esquece os sete furos, eim?!
Alfredo Cunha
Seu Alfredo era um homem já de meia idade, tinha várias atividades. A principal era a de professor do grupo escolar Aristides de Castro. Mas fora isso era também delegado do distrito policial do Itaim Bibi que ficava entre a casa Pais e o rinque de patinação.
Na verdade ele se intitulava delegado. Lá dava cartas e jogava de mão. Seu Alfredo não era um homem bem quisto por muita gente. Era um homem assim tipo prepotente, se metia em tudo, queria ditar cátedra. Era udenista e achava que todos tinham que votar no Brigadeiro Eduardo Gomes, na eleição de 1950, pois se Getulio viesse a ganhar poderíamos ter uma nova ditadura. Acontece que o Itaim composto de maioria operária era mais para Getulio. E as encrencas políticas eram uma rotina na Rua do Porto e adjacências, posto que ele morava na Rua Heloisa bem na beira do córrego do sapateiro e por lá ele não tinha muito motivo para tal conversa, pois na Rua do Porto morava dona Laura, seu Antonio, meu pai e seu salvador, todos getulistas, que adoravam encher o saco do seu Alfredo por uma vitória antecipada de Getulio: “vocês são uns ignorantes. É por isso que o Brasil não vai para frente. Onde já se viu votar num homem que governou o país com mão de ferro, mandou Olga Benario ainda grávida para a Alemanha para morrer na câmara de gás?”
Um dia como delegado passou pela esquina da rua do porto com a travessa do Porto no portão da casa de dona Izolina, onde seu filho, o Dudu, e outros moleques jogavam baralho. Ele parou, olhou, e disse: “vocês não sabem embaralhar as cartas.” Pegou o baralho como se fosse ensinar, colocou no bolso e foi embora. Não sem antes dizer: “Se quiserem o baralho de volta, mandem seu pai ir buscar na delegacia.”
Seu Alfredo se orgulhava em ter um filho artista de rádio, era Geraldo Cunha, que era rádio-novelista da Rádio São Paulo, uma rádio que tinha novelas o dia inteiro. Orgulhava-se também de Tite, outro filho que estava prestes a receber a batina, mas preferiu abandonar ficando como bacharel de direito, se aproveitando dos estudos do seminário.
Seu Páis.
Este era outro que todos conheciam como seu Páis. Ele era dono da casa comercial mais famosa do Itaim, ficava na Rua Joaquim Floriano bem em frente ao grupo escolar Aristides de Castro. Em seu estabelecimento tinha seus filhos por de trás do balcão trabalhando duro junto do pai. Seu Páis era um homem calmo, tipo bonachão. Torcedor fervoroso da Portuguesa de Desportos. Não é que um dia (1960) o encontrei no Canindé, campo da Portuguesa, que era chamada de Ilha da madeira, pelo fato de toda a arquibancada ser feita em madeira. Nesse dia fui ver o melhor time do mundo da época, o Santos F. C., de Dorval, Coutinho, Pagão, Pele e Pepe, ganhar da Portuguesa por 6×2. Para a tristeza do seu Páis. Mas mesmo assim ele não saiu do sério. Veio calmamente falando do jogo. Foi a ultima vez que eu o vi.
Dona Dulce Borges Barreiros.
Essa foi uma mulher que marcou muito no Itaim. Uma mulher rica, dona do Cine Itaim, na esquina da Rua Joaquim Floriano com a Rua Tapera. Era o chamado pulgueiro do bairro. Era uma construção que tinha cara de tudo, menos de cinema. Duas portas de ferro mais parecendo um armazém de secos e molhados. Telhado em duas águas, e duas portas grandes laterais para a saída dos espectadores. E que servia também como porta de emergência.
Mas a má fama do seu Cine Itaim foi-se embora quando ele terminou seu prédio na esquina da Rua Joaquim Floriano com a Rua Bibi. E no térreo fez o cine Star. Esse sim um senhor cinema, que por muitos anos teve esse nome, e que mais tarde ficou sendo chamado de Lumiére, em homenagem aos irmãos inventores do cinema.
Dona Dulce sempre foi metida com política. Era Ademarista roxa. Para ela era Deus no céu e Adhemar na terra. Era sempre derrotada nas eleições. Se me lembro bem acho que ela foi eleita uma vez (se é que foi) vereadora. Para deputada estadual ela jamais ganhou. O povo não gostava muito dela pela empáfia que diziam ela ter. Mas devo dizer que ela foi um nome marcante no bairro do Itaim Bibi.
Poeta
Esse era negro, calvo e tinha estatura média. Seu nome ninguém sabia, e jamais foi dito por ele. Também acho que ninguém perguntou. Sim, como se dizia na época, poeta é poeta, não tem nome próprio. Seu nome é poeta. Um sujeito educado, media as palavras, nunca foi visto dizendo palavras de baixo calão. Era uma figura carismática, de poucas palavras. Mas que gostava de fazer versos. Era só ver uma mulher que a inspiração vinha à flor da sua pele. Fazia seus versos muitas vezes sem nexo. Muitas mulheres ao vê-lo até mudavam o rumo se suas passagens, mudando de calçada ou se desviando por outra rua. Era, por assim dizer, um cara chato. Gozado que quando ele se encontrava com meu pai e minha mãe, punha-se a compor seus versos para ela, e meu pai com uma paciência, que ele não tinha, ouvia quieto sem dizer nada, por mais incrível que possa parecer. Que sorte tinha esse poeta.
Seu Nenê.
Esse era o nosso barbeiro. Ficava na Rua da Ponte (atual Clodomiro Amazonas). Em uma portinha em que mal cabiam duas cadeiras. Seu Nenê era um cara alto, mais parecia um alemão. Era ele quem cortava o cabelo meu e de meu irmão. Era uma pessoa de uma educação a toda prova. Ficaram por ali, muitos anos. Mais tarde aquela portinha foi ocupada por outra figura muito querida no bairro, Miguel Ritter, torneiro mecânico, especialista em recondicionar rodas de ferro dos fuscas, dar aquele passe para a troca de lonas do breque. Miguel tinha um sonho que conseguiu realizar depois de muitos anos de trabalho: construiu uma casa do mesmo formato que a casa branca, palácio e moradia dos presidentes norte americanos.
Fiori Cavalo.
Não. Não é um xingamento. É o nome próprio do nosso grande sapateiro da Rua do Porto que muito dignificou os moradores do bairro do Itaim Bibi. Que eu saiba ele sempre trabalhou em sua casa, o que seria a sala com a porta bem próxima ao portão. Com ele trabalhava seu filho até então estudante de medicina da USP, o que glorificava seu Fiori e dona Carmem, a elegante esposa e mãe de Tito. Até que, completo o curso, lá se foi Tito para os Estados Unidos. Já não era mais um médico, não que ele tenha renunciado à carreira de medicina, agora era o senhor Tito, um grande cientista radicado nos Estados Unidos. Coisa que seu Fiori falava de boca cheia, para o largo sorriso de dona Carmem, nas vezes que lá ia esse intruso filar um café e bater papo para saber de coisas novas do Itaim, já que eu era um veterano na Vila Olímpia. Como era gostoso conversar com aquelas pessoas dos anos 1940-50. Conversas gostosas, frutíferas, culturais. Um pouco de fofoca também. Afinal ninguém é de ferro.
Dona Carmem, sei que faleceu. Seu Fiori deu detalhes do acontecido.
Seu Fiori ficará para sempre marcado na mente de muitas pessoas, que quando tinha algo para falar ou ouvir, comparecia a sua sapataria e ficava sentado na terceira cadeira. Aquela reservada aos visitantes.
Aos visitantes porque clientes ficavam de pé. Porque quem vai buscar os sapatos está sempre com pressa.
Frei Bento
Outro grande personagem do nosso bairro. Foi durante muitos anos pároco da igreja de Santa Teresa, com quem fiz minha primeira comunhão.
Alegre, irradiava bons fluidos aos que o procurava. E quem o procurava não eram somente sofredor, ou depressivo, que necessitava de uma palavra de conforto. Muita gente gostava de conversar e ouvir coisas e casos, vindos de sua mente. Muita gente aparecia nas horas em que a igreja estava no silêncio da tarde, para apenas conversar.
E frei Bento não falava apenas de religião, falava de tudo. Era versátil. Tinha sempre algo que fazia com que pessoas saíssem do encontro com excesso de sorriso nos lábios. Frei Bento ainda é vivo. Segundo frei Goularte, titular nos dias de hoje, da igreja de Santa Teresa. Frei Bento está oferecendo seus trabalhos para o povo carioca. Penso que deve estar beirando os cem anos de idade. É uma das pessoas que não sai da mente de quem no Itaim morou nos anos 1950.
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