Estrume

O Parque da Água Branca se preenche de lembranças nestes sábados de manhã. Os trinta anos que me separaram de seus detalhes e cores agora se abrem num espetáculo leve e que faz que suportemos o inexorável espaço entre os sóis.

O cheiro dos cavalos no estábulo me tatuou a memória numa certa vez que Noé me levou para ver os patos. Não queria ver patos, queria ver cavalos e touros em sua rusticidade e braveza. Havia saído da fase Vila Sésamo e já adentrava o período western com os tiroteios dos cara-pálidas sobre as aldeias dos pele-vermelhas e os escalpos destes aplicados naqueles. Já vira também uma porção de pessoas pular do edifício em chamas e as enchentes do Tietê afogar uma família inteira. Lembro-me da carinhosidade que nossos pais nos dirigia sem saber que lá, nas reentrâncias de nossa alma, já estávamos sendo moldados pela espátula do ambiente carbônico da cidade com seus labirintos e espelhos.

O Parque da Água Branca era uma simulação bem feita de uma terra escura que ficara pelos lados do Mato Grosso, cortada por um rio sem nome cheio de troncos de árvores, barro e felicidade de menino que se encantava com o sino no pescoço dos bodes.

O cheiro do estábulo, dos cavalos e dos bois na Água Branca me fizeram perguntar ao pai com uma falsa inocência: "Pai… todos nós vamos virar estrume?". Ele se assustava com minhas perguntas e desconversava com uma resposta que me colocava em meu devido lugar de criança: "Eu não sei o que você vai ser quando crescer, moleque".

O velho pé de ipê roxo está no mesmo lugar, mais alto, mais belo e mais vivo, distribuindo cores para quem ainda pode vê-las. Aqueles jovens atletas hoje sentam-se no banco de mármore e lêem o jornal ou jogam dominó com seus colegas aposentados, e suas companheiras caminham lentamente entre as sombras das árvores postergando a lei que decreta sulcos no rosto.

O menino clarinho cacimba d'água dá seus primeiros passos na picada de pedriscos, escoltado pela mãe protetora; a fotossíntese bolina os átomos das folhas, o cantar do sabiá embeleza o instante, um vento de quatro estações encaracola os cabelos e eu… a pensar no estrume das plantas no Parque da Água Branca.