Um Ginásio Inesquecível

A década era a de 40 e eu fazia o ginasial no Acadêmico São Paulo, onde convivi com pessoas que jamais apagarei de minha memória: o Bira (Ubirajara Silva Alves), meu melhor amigo; o Arthur Murad, excelente cantor lírico; o Dino, ótimo jogador de basquete apesar da baixa estatura; o Jomar Pereira da Silva um gentleman que poderia muito bem seguir a carreira diplomática; o Helio Malpica, O Walter da Penha; os irmãos Heitor e Lupércio além, naturalmente, da encantadora Sarah, de rosto meigo, sorriso puro e lindos olhos negros, por quem me apaixonei perdidamente na pureza dos nossos 14 anos.
Demorei algo como 10 meses ensaiando as palavras que deveria usar para saber se ela aceitava namorar comigo, em dúvida se o sentimento era recíproco. Um dia, depois da última aula e a caminho do ponto de bonde, me enchi de coragem e fiz a grande pergunta, a mais importante de minha vida até aquele momento. Rosto corado de emoção e o chão sumindo aos meus pés, aguardei a resposta com a cabeça num turbilhão.
Sarah respondeu que aceitava sem mesmo pedir tempo para pensar, que era o jeito como as garotas conduziam o tema naquela época. E o ano chegou ao fim sem que eu tivesse sequer tocado em suas mãos no único encontro que tivemos fora da escola. Acho que foi amor platônico porque, em nenhum momento, me ocorreu pensar em Sarah pelo lado sexual. Ela foi para sempre um maravilhoso símbolo de pureza.
O Diretor do Acadêmico era o Sr. Argemiro, uma pessoa austera e, na minha memória, justo em suas decisões. Lembro do Arthur Luponi, o excelente professor de português que um dia foi acusado de anti-semitismo e virou notícia sensacionalista nos jornais da capital. Mesmo não entendendo muito do assunto nunca acreditei que ele fosse racista ou anti-semita, mas apenas um tremendo gozador que escolheu como alvo o grande contingente de judeus que cursava o Acadêmico. Teve também o Synésio, extraordinário mestre de matemática a quem devo muito o pouco que aprendei de álgebra. Um dia o Synésio surpreendeu todo mundo ao virar notícia de imprensa pela revelação que era bígamo. Inacreditável, um escândalo para os padrões morais da época. Lembro também do Leonildo, professor de Latim, que não simpatizava comigo só porque eu abominava a matéria dele. Ah, se pudesse voltar no tempo hoje eu pediria perdão de joelhos.
Dias atrás, na esperança de poder resgatar um pouco daquele passado maravilhoso fui até a Rua Oriente. Eu queria rever o prédio, o auditório, a quadra de basquete e, quem sabe, até minha sala de aula, mas o sonho acabou ao encontrar outro cenário. O edifício do tradicional ginásio é hoje ocupado por uma imensa loja de confecções assim como toda a Rua Oriente. Nem sei se o Acadêmico São Paulo ainda existe em algum outro local.
Mesmo assim, a forma como um dia existiu continuará viva em minha memória. Bem como a esperança de rever Sarah e alguns daqueles companheiros que jamais esquecerei. Quem sabe eu ainda possa ter a ventura de realizar esse sonho.

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