Mosteiro de São Bento. Foto: Jose Cordeiro/SPTuris

São Paulo 470 anos – Saudade e gratidão

Às vezes um tsunami de saudade assola meu peito.

Da velha e pacata Itaberaba ao italianíssimo Brás; da cosmopolita Lapa aos ordenados e floridos Jardins América e Europa; do longínquo São João Clímaco ao burburinho incessante do centro, São Paulo, velha e querida São Paulo passeia bela e formosa em minhas lembranças.

Mas não é a saudade que me move; gratidão, sim.

O que me move mais firme e forte é um manto azul que tenho comigo envolve meu corpo e minh’alma, o manto sagrado da gratidão.

Gratidão pelas ruas de terra, casas modestas, vizinhos sempre presentes em Itaberaba. Das primeiras letras, das primeiras estripulias na rua, dos joelhos ralados, do recato da casa, dos programas de rádio, novelas da rádio São Paulo, o Tom Tom Tom do Mosteiro de São Bento na rádio Piratininga, nos gols do meu time na Panamericana.

Ouvia-se rádio, respirava-se rádio e nada mais. Casa simples, de mesa farta, e compras fiado na vendinha e contas acertadas pela caderneta em cada começo de semana com as gorjetas que meu pai ganhava em seu trabalho de garçom.

Daí para a Lapa, um pulo. Meu pai deixa de ser empregado e compra um bar. Era um bar e restaurante na rua Guaicurus, em frente ao entreposto de carne do Exército. Trabalho duro e a gratidão por ter aprendido a varrer o chão, encher a geladeira de bebidas. A Lapa pujante, no rádio, anúncios de assuntos médicos, radioscopia (o que era isso?).

Lapa das ruas com nomes de imponentes como Caio Graco, Faustolo, Duílio, e outros romanos menos votados. Lapa dos ônibus 35 e 36, que nos deixavam na Praça do Patriarca, no coração da cidade.

Gratidão por tudo que aprendi no centro da cidade. Pagar as concessionárias de luz e água nos seus respectivos prédios. Ai aprendi a andar de ônibus, a esperar a minha vez, a pagar as contas devidas e conviver na cidade grande. Ambulantes vendendo milagres, milagreiros fugindo dos fiscais, coletores de jogo do bicho fugindo da polícia e, de camarote, aprendendo tudo. O que fazer e o que não fazer.

Vez  ou outra, vínhamos todos à cidade comer um pedaço de pizza na Ayrosa, ou uma lasanha no Papai, um sorvete no Pelicano.

Gratidão pelo Brás, nas andanças na Jairo Góis, na antiga Adega do Brás, no ainda presente Castelões. Nas discussões de futebol entre meu tio e seus amigos, Corintianos e Palmeirense vendo o seu lado, e meu lado eram as sardelas, e petiscos que recheavam meu pão italiano (pois quase sempre eu estava junto). Das balas futebol na rua do Gasômetro. Ver todas as figurinhas do álbum que nunca conseguia encher. As missas na igreja de São José do Brás e os natais e anos novos que passamos sempre por lá.

Para finalizar e antes que o site corte meu texto, deixo por último os Jardim América e Europa. Propositadamente deixo por último, pois fica aos Jardins minha gratidão maior.

A pequena mercearia do meu pai servia em domicílio. Os fregueses telefonavam, faziam seus pedidos, meu pai os preparava e então algum empregado ou eu iríamos entregar.

Nessas entregas conheci e aprendi muito com tanta gente: o alemão fugido da guerra me mostrou o sofrimento que passara; o israelita que partilhou seus costumes, o paulista quatrocentão, suas tradições. Dos motoristas engomados, das babás e governantas uniformizadas, dos políticos, autoridades, artistas e personalidades. E eu, mísero e mirrado garoto a fazer entregas e encantar com meu trabalho e dedicação.(mal sabiam eles que eu preferia estar jogando bola ou taco, mas precisava ajudar).

A casa mais gostosa de visitar era Av. Europa, 21. Desde entrar pelo portão até chegar à cozinha e ser atendido pela governanta ou pelo mordomo era um passeio enorme de bicicleta. A casa, esta ainda está lá. O aprendizado levo para toda vida.

Mas o melhor dos Jardins chega agora. É que entre brincadeiras de esconde-esconde, queimada, barra manteiga, tinha uma menininha de sete anos que se encantou comigo e disse com todas as letras: ”Vou casar com você”. Eu, no alto dos meus 10 anos, pensei um pouco no assunto. Bem, na verdade eu tive que pensar, bem e mais, sim, pois com gratidão e amor estou com essa menininha até hoje, com quatro filhos e sete netos. Daquele dia a hoje já se vão quase setenta (Ave Maria!) anos.

São Paulo está mudada. A “mãezona” envelheceu, criou suas rugas, suas dores, mas é e será a mesma acolhedora de sempre.

A ela enfim dedico este despretensioso texto na comemoração dos seus quatrocentos e setenta anos. Os quatrocentos eu vi, a comemoração dos quinhentos seguramente não verei. Mas vou encarregar um dos meus netos para que em 2054 erga um brinde à minha São Paulo. (eu da nuvem que me for destinada lá em cima estarei comemorando.)

Faltou alguma coisa? Sim, seguramente faltou mas, logo nos encontraremos outra vez…

Porque… bem, como dizia Julio Gouveia: “Essa é uma outra história e fica para uma outra vez.”