São Paulo é uma das maiores cidades do planeta. A metrópole de onze milhões de habitantes parece andar, literalmente, sobre rodas. Além dos milhares de ônibus que percorrem a capital diariamente, uma frota de quase seis milhões de automóveis toma conta das ruas e avenidas, gerando grandes engarrafamentos e um teste de paciência para todos aqueles que têm de enfrentar a “selva” de combustível, aço e borracha todos os dias.
Domingo parece ser o dia da redenção. Alguns saem, outros dedicam o tempo livre ao lazer – nos parques da cidade – e outros ainda ficam em casa recarregando as energias. Porém, para o antigomobilista, esse é o dia de botar o clássico na rua e ter a satisfação de dar um passeio pela cidade, chamando atenção por onde passa.
O ritual começa bem cedinho, lá pelas sete e pouco da manhã. Ao acordar e se deparar com os primeiros raios de sol, o dia já começa de forma positiva. Um café coado rapidamente e um pãozinho com manteiga engolido às pressas já bastam. Ninguém quer perder tempo.
Hora de encontrar o “possante”. Primeiro, a chave é tirada da gaveta, como um objeto de desejo. Depois, é só descer as escadas – ou elevador – ansiosamente e se deparar com a máquina, que permanece tinindo, brilhando depois da última lavagem.
Ao abrir a porta, o aroma do estofamento – de tecido ou couro – já pode ser sentido e a acomodação no banco parece ideal. O painel encara o motorista, com seus manômetros e instrumentos diversos. E logo você pensa: “Um dia perfeito”.
O próximo passo é técnico. Duas bombadas no acelerador para injetar a gasolina depois de uma semana parado. Pronto, é só colocar a chave no contato. Lá fora, um ou outro pássaro se arrisca a interromper esse momento único entre homem e máquina. A partida dá vida ao antigo propulsor. Os pistões sobem e descem, num movimento preciso. O ronco toma conta do ambiente: boxer, seis em linha, V8 ou dois tempos. O carro agradece o cuidado do dono com o funcionamento “redondo” e, alguns, com um leve balanço de carroceria. Hora de sair.
O passeio por São Paulo começa pela Avenida Vinte e Três de Maio, praticamente vazia, com o sol vindo de frente, ainda tímido. Andando devagar e sentindo o carro, dá pra notar os outros motoristas que passam olhando, curiosos. Com mais satisfação e, talvez, o som de um velho toca-fitas Roadstar ou TKR, o passeio segue adiante.
A subida da Rua Estela exige um pouco mais do motor, que não mostra sinais de cansaço. Dois quarteirões após o Colégio Bandeirantes, é hora de virar à esquerda e entrar na avenida mais famosa da cidade: a Paulista. Inaugurada em 1891, é um dos cartões-postais da capital, com seus prédios de escritórios e alguns casarões que fizeram história. O clássico passa em frente ao número 37, onde está localizada a Casa das Rosas, projetada nos anos 30 por Ramos de Azevedo e efervescente centro cultural. Os arranha-céus e a monumental sede da FIESP são refletidos pela carroceria brilhante. No MASP, a feirinha já está prestes a começar.
O retorno é feito após a passagem defronte à igreja São Luís e à Rua Haddock Lobo. O passeio continua e é hora de entrar na Augusta, famoso point dos playboys paulistanos durante as décadas de 50 e 60. Mas, calma, não vamos descê-la a “120 por hora”, como diz a canção. O paralelepípedo deu lugar ao asfalto há muitos anos, mas ela ainda tem o seu charme.
Aliás, essa é uma grande rua que tem três nomes. Depois de Augusta, chama-se Colômbia e, adiante, Europa. Essa variedade toda vai descortinando aos olhos do motorista o bairro dos Jardins, com suas mansões e concessionárias de marcas famosas, como a Porsche e a Ferrari. O motor do antigo ronca forte. Será que ele já passou por aqui? Talvez seu primeiro dono tenha vivido numa grande casa, tomada pelas plantas e poeira com a passagem dos anos.
Já próximo da Faria Lima, uma parada em frente ao edifício Dacon, construído no início da década de 80 e conhecido por todos que gostam de automóvel. Quem sabe não tem um mini-Dacon ou um vistoso SP-2 preto ainda no estoque? O tempo passa, mas as memórias permanecem intactas.
As marchas são trocadas e a cidade vai mostrando seu encanto. A Avenida Faria Lima, conhecida por concentrar barzinhos e casas noturnas, parece dormir profundamente na manhã de sol, como alguém que só quer descansar depois de uma noite agitada.
O arborizado bairro de Moema, lar de vários carros antigos, nos recebe sorridente. Os raios de sol insistem em passar pelas copas das árvores e acabam por formar um belo caminho no asfalto. Alguns semáforos e rotatórias depois, o veterano chega novamente à sua casa.
Guardado com todo carinho na garagem, ficará mais uma semana descansando. Se chover, até duas. De qualquer modo, todos devem concordar que Domingo é dia de passear de carro antigo. Então, nos vemos por aí, em alguma esquina da cidade.
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