Meados dos anos 50, São Paulo estava, ainda, na transição de cidade provinciana para a megalópole de hoje.
Eu já me considerava “homem formado”, mas não dispensava, de forma alguma, uma bagunça, fosse ela programada ou não.
A Rua Augusta não apresentava a decadência de hoje; a Praça Franklin Roosevelt ainda não fora hiper descaracterizada, ainda apresentava-se aos paulistanos em terreno de chão batido (posteriormente asfaltado) um tanto abaixo do nível carroçável das ruas laterais. Para disfarçar esse desnível, as suas laterais tinham sido transformadas em pequenos declives devidamente gramados.
A Igreja da Consolação, majestosa naquele ambiente, apresentava, ainda, na sua lateral esquerda, a sede dos Congregados Marianos, das Cruzadas Infantis, das Zeladoras de Fé e o pátio com a quadra poliesportiva. Seu muro traseiro ainda mantinha os mesmos buracos onde outrora, no início desses anos, eu e meus camaradas escondíamos os maços de cigarros (Elmo, Fulgor, Aspásia, Negritos, Pulmam, Everest e outras marcas) comprados para nossa migração do talo de mamona para o bastonete de fumo.
Lembro-me que os tais maços de cigarros depois eram juntados a outros coletados pelas ruas para que num trabalho bastante artesanal se transformasse em cintas femininas com que presenteávamos tias, professoras e meninas que nos agradassem a vista.
A Avenida Ipiranga se apresentava soberana da região, e em toda a sua extensão abrigava, lá no início, a sede social do São Paulo Futebol Clube no mesmo prédio em que funcionava no subsolo o Restaurante Atlântico (anos depois, ponto de encontro de bailarinos, prostitutas de nível e fregueses do sexo).
Um pouco mais para frente quem se destacava era o Avenida Danças onde os amantes da dança de salão iam matar sua vontade picotando cartões das bailarinas e pagando caro na hora da saída.
Na esquina de cruzamento com a Avenida Rio Branco estava instalada a agencia da Viação Cometa (naquela época não existiam ainda os terminais rodoviários).
Mais para cima, depois do cruzamento com a Avenida Rio Branco, do lado esquerdo de quem a subia, estava instalada a loja do Expresso de Luxo, que oferecia aos seus usuários transporte para a Baixada Santista, feito em carros de luxo, e serviços de malotes para empresas e pessoas físicas. Um pouco além ficava a loja da agência do Expresso Brasileiro.
Em cima dessa agência, como já tive oportunidade de registrar em outros textos, no primeiro andar, estava instalado um clube de nome Centro Social Brasileiro, não sei qual sua origem ou finalidade social, sei apenas que aos domingos abria seu salão social para jovens praticarem a digna e deliciosa arte da dança de salão.
Ao som de Pick-up e Sus Negritos, nós, os jovens daquela época, nos esbaldávamos dançando boleros de Gregório Barrios, Lucho Gatica, Trio Los Panchos, Fernando Albuerne ou com os Fox, Swings e Rocks gravados por Glenn Miller, Thomy Dorsey, Sylvio Mazzuca, Bing Crosby, Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Doris Day e outros astros do cenário discográfico da época.
Minha memória, às vezes falha, mas ainda me permitiu esse instantâneo daqueles anos realmente Dourados. Se outros relances de memória me surgirem, mais textos quero produzir. Aguardemos!
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