A espera

Em 1942 meu irmão mais velho saiu de Florianópolis e foi morar em São Paulo. Primeiramente na Vila Olímpia, depois num espaço pequeno chamado de "Vila Maria Zélia" que ficava entre a Celso Garcia e a marginal do Tietê na altura da Vila Maria. Ali havia uma condomínio de sobrados com muitos imigrantes italianos, circundado com um alto muro, com uma entrada de portão de ferro. Eram pessoas simples, o lugar era arborizado bastante bucólico. Uma das famílias tinha quatro filhos que foram para a guerra. Contava meu irmão que quando a guerra acabou, começou a expectativa da família, pois com as dificuldades de comunicação na época, só era possível saber da existência da pessoa com seu retorno. O clima de expectativa da família contagiou toda a vila que passou a viver o drama da espera. Depois de um longo tempo, a vila festejava a chegada do primeiro filho, porém ainda faltavam três. Mas, um certo dia, chegou o segundo filho que foi motivo de grande alegria para todos. Mas o tempo foi passando, e agora já toda a vila, não tinha notícias dos outros dois. A expectativa era grande, e o clima já era quase de perda quando apareceu o terceiro filho. Foi mais uma terceira e grande festa e já com a certeza de uma quarta. Foram dias sofridos para a família e para quem absorveu seus sentimentos vividos naquele pequeno lugar, retrato ampliado de um paraíso, para quem retornava do inferno. O tempo passou e a tristeza foi moldando o rosto da mãe de desesperança. Nenhuma notícia, pois o espaço de tempo do último retorno já era muito grande. Agora era só aguardar o último filho, seu nome era procurado em todos os noticiários, jornais, etc. Todos estavam voltando, exceto seu filho mais novo. A tristeza da casa foi tomando espaço e se expandindo por toda a vila. Após algum tempo, toda a vila mergulhava no mais completo luto, quando um dia, naquele portão de ferro, surge a silhueta esguia e maltratada do último filho já dado como perdido. Aquele dia teve a maior festa para um filho que acabava de renascer. Sempre que passava em frente aquele portão, lembrava dessa história com uma certa emoção.

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