Acostumados a jogar bola e brincar de diversas maneiras, a nossa turminha foi chegando aos 14 anos de idade. Todos giravam nessa média. Sendo assim todos tinham que trabalhar. Naquela época, início dos anos 1950, podia-se iniciar no trabalho aos 14 de idade. Meu pai me levou a fábrica de móveis Artesanal, Rua Arnaldo (Hoje Urussui), no Itaim Bibi. O Gordinho (Cláudio) foi trabalhar na Casa da Bóia, Rua Florêncio de Abreu, e levou meu irmão José. O Ciniro foi trabalhar de padeiro e depois passou a entregar pão de forma Wikibold. O Zeca foi trabalhar na Florença Artes e Decorações, como aprendiz de tapeçaria, Rua Cardoso de Mello Vila, Olímpia. O César foi trabalhar na fábrica de calçados Scattamachia, no Bixiga, visinho do TBC. O Álvaro filho de português foi lidar com pão. Como não gostou de botar a mão na massa, foi ser somente entregador. O Valter também filho de tintureiro, ajudava seu pai, entregando roupas. Seu Manoel tinha uma modesta tinturaria nos fundos da casa, na Rua Marques de Cascais, Brooklin Novo. E o Valter ia de bicicleta com aquele varal no suporte carregando vários cabides levando ternos, Camisas ou, vestidos.
Éramos todos iniciantes nesse inédito negócio de ter que trabalhar. Era tão bom ficar vagabundeando, jogando bola, brincando, de Mocinho, Pula Sela, Mãe da Rua, Pegador, jogar Bafinha, Palitinho e pegar égua barranqueira. Também, ficar contando piadas que todos ouviam dos pais.
Piadas que os homens adoravam em contar e, que as mulheres, ficavam vermelhas ao ouvir algumas.
Me lembro que meu pai e seu Antonio Tavares contavam piadas bíblicas.
Meu pai era quem começava: Certa ocasião, Jesus andando com seus apóstolos, passando perto de um morro bastante alto, mandou todos parar. Ordenou que eles pegassem uma pedra e a levassem ao alto do morro.
Todos os apóstolos pegaram uma pedra, tamanho normal, digamos de uns 30 centímetros. Apenas Pedro não quis nem saber. Pegou uma pedrinha… Assim como pouco maior que um pedregulho para não ter que carregar peso. Chegando lá em cima, Jesus disse a todos: Colocai as pedras no chão. As Benzeu e as pedras viraram pão. Todos comeram seus pães com satisfação. Jesus ordenou a quem estivesse satisfeito, que as deixassem para aves e bichos famintos. Pedro nem teve como saborear seu pão, de tão pequeno que era. Uma semana depois, novamente Jesus foi para outra caminhada e passou pelo mesmo morro. Mandou que todos pegassem novamente uma pedra e levassem ao topo do morro. Todos pegaram pedras do mesmo tamanho anterior. Pedro não. Ele pegou um granito de um metro e com tamanho sacrifício chegou ao topo do morro, suando em bicas. Enquanto os demais carregavam as suas normalmente. Chegando lá, Jesus disse: Coloquem todos suas pedras ao chão. Pedro teve dificuldade em colocar a sua. Ai, Jesus disse: Agora sentai-vos em cima delas. Resumo, da “opera”, segundo meu pai, Pedro se mostrou o mais malicioso de todos, por isso ficou com a chave do céu. Já seu Antonio, contou uma pouco diferente. Jesus estava caminhando por uma rua quando viu uma placa escrita: O REI dos REIS! Jesus e seus seguidores foram até lá. Era um ferreiro, com a forja fervente de tanto carvão em chamas. Jesus perguntou ao ferreiro: O senhor permite usar sua forja? Pois não disse o ferreiro, esteja à vontade.
Jesus pegou a namorada de Pedro, colocou em meio aquele fogaréu, e com uma barra de ferro malhava a moça. Depois retirou a moça que era muito feia, trazendo ela com vida bastante bonita. Agradeceu, e todos foram embora. O ferreiro ficou abismado, e pensou. Se esse cara vem aqui e transforma uma moça de feia a bonita, porque eu não hei de fazer o mesmo?
Ele tinha olhado bem o que Jesus fazia, e no seu pensamento achava que era “bico” fazer aquilo. Pegou sua mãe que era velhinha, jogou no fogo e malhou. Depois tirou ela morta e toda desfigurada. Ficou louco de raiva. Correu atrás de Jesus e disse o que tinha acontecido. Jesus voltou lá e colocou a mãe dele novamente na forja malhou e a tirou com vida. Porém do mesmo jeito que ela era. Em seguida disse ao ferreiro: Amigo, tire aquela placa de o Rei dos Reis. Ninguém é mais do que ninguém.
Mas, voltemos ao trabalho: nem todos ficaram em seus empregos iniciais. Eu saí da fábrica de móveis Artesanal. Digo melhor. Fui mandado embora junto com outros nove garotos todos pegos em flagrante roubando mexerica na casa do vizinho na hora do almoço. E cada mexerica viu.
Fui para a firma Henrique Liberal, Avenida Imperial (hoje Horacio Lafer, Itaim Bibi). Seu Joaquim Fragano, o gerente, me mandou para o SENAI. Na prova de seleção tirei nota 53, o que causou uma bronca dele, me chamando de burro. Bem, mas fui aprovado. Raspando mas, fui.
Meu irmão José saiu da casa da Bóia e foi trabalhar de marceneiro na fábrica de móveis Lungarno, Avenida Dr. Cardoso de Mello 1200, Vila Olímpia. Mas o Gordinho continuou lá na Casa da Bóia.
Zeca saiu da Florença e foi trabalhar na Plavinil, no fundão da chácara Santo Antonio, aonde chegou a chefe do horário noturno. Uma boa desculpa para de vez em quando dar boas puladas de cerca.
César continuou na fábrica de calçados Scattamachia, já era prespontador e dos bons. De todos era o único namorando firme, e apaixonado pela mina.
Dilú pulava de galho em galho. Digo de serviço. De biscateiro foi ser chofer particular. Carteava na Vila Olímpia, dizendo que era o colored das madames do Jardim Paulista. Valter continuava a entregar roupas no varal que ficava no suporte da bicicleta, e quando não estava rua, passava roupas, já com ferro elétrico. O que antes era feito com ferro a brasa devido ao racionamento de energia pela Ligth.
Ciniro de padeiro e entregador de pão Wikibold, foi ser motorista de caminhão. Seu pai, Antonio Banzatto, comprou um caminhão usado. Chevrolet Gigante, com carroçaria já meio estourada. Em uma semana Ciniro deitou um poste da Ligth, na Avenida Santo Amaro, perto do nosocômio Santa Paula. Teve que pagar o estrago, três mil cruzeiros. Álvaro continuava entregando pães, com seu Prefect Cicle, que andava a 40 por hora, e olhe lá. Entregava pão italiano da padaria Bazilicata do Bixiga.. E pão francês da padaria Mondego, da Rua Casa do Ator, Vila Olímpia. Às vezes eu ia ajudá-lo nas entregas. Ele mandava contar os pães, e colocar de três a cinco pães a menos. Quando dava zebra à bronca vinha pra cima de mim como desonesto.
Quando estávamos a quatro anos do término da vagabundagem, era o tempo de servir o exército. Todos estavam na faixa dos dezoito anos.
Meu irmão, Ciniro e o Gordinho foram para Quitauna, Osasco que ainda era um bairro da cidade de São Paulo 1958, César e Dilú foram para o segundo esquadrão no Ibirapuera, Rua Manoel de Nóbrega. Eu fui para o 2º BS, (batalhão de saúde) Avenida Independência no Cambuci.
Servir o exército era um saco. Quem mais se importunava com isso eram os nossos pais, pois iam ficar sem nossos salários durante um ano. Quando se juntavam depois de uma baralhada, ficavam falando. Já pensou nossos filhos no exército varrendo aquelas ruelas do exército, pintando as guias com cal, desmontando e montando aqueles jipes ridículos o ano inteiro?
Seu Osvaldo acalmou todos eles. Fiquem frios. Tem um capitão que mora na Rua Guarará, ali perto da Brigadeiro que quebra o galho.
Todos ficaram assanhados. – É mesmo? Quanto ele cobra?
– Quatro mil cruzeiros…
– Quem é ele?
– É o Capitão Azambuja… Dizem que ele já sifú, uma vez, mas continua ainda quebrando galhos. Disse o vizinho.
Mas o sargento que fazia uma entrevista comigo no segundo batalhão de saúde dizia outra coisa. Em termos de permanência no exército.
Acho que ele foi com minha cara quando soube que eu trabalhava com estofamentos de móveis: Você servindo aqui, vai ser meu ordenança. Vai reformar todos os meus móveis. Vai ser uma bába.
Levou-me até sua casa num daqueles Jipes Cor Verde Musgo.
Chegando lá, nem prestei muita atenção nos móveis que ele tinha e, sim na sua empregada. Bonita e gostosa. Que morenaça!
Só sei que a ordem que recebi era não se apresentar no exército, e sim ir dois meses depois na Praça Charles Miller, jurar a bandeira. Um amigo meu que se apresentou. Juntamente comigo torcia para ver seu nome na lista dos que estavam no excesso de contingência. O nome dele não apareceu. E me disse: Que sorte a sua. Foi o penúltimo nome a ser lido.
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