Tomei a liberdade e também a coragem para escrever algumas linhas sobre o que entendo ter sido o melhor período de minha vida. Sou paulistano e fui criado na Zona Norte, mais precisamente na Vila Bancária Munhoz. Fui para lá ainda de colo, pois havia nascido em Santa Cecília e meus pais, muito a contragosto dos meus avós, conseguiram comprar uma casinha (que existe até hoje).
A referência para quem não conhece o bairro, fica entre a Igreja de Itaberaba e a Igreja de Zinco do Jô, no Jardim Maracanã, após o cruzamento da Avenida João Paulo I e a Avenida Itaberaba.
Sou do tempo em que essa avenida João Paulo não existia e o que prevalecia no lugar de chão batido era um rio. Nas margens deste rio existia uma escola feita de madeira e, quando chovia era tomada pelas águas.
A rua onde eu morava, a Mirante do Paranapanema, era de terra e a molecada se divertia com as brincadeiras do nosso tempo. Estudei até o quarto ano primário no Grupo Escolar Prof. Plinio Damasco Penna e, em seguida, fui para o Ginásio Estadual Cacilda Becker, hoje Joaninha Grassi Fagundes.
Foram tempos maravilhosos. Muitos novos colegas e descobertas: namoradinhas, futebol, bailinhos, etc. No futebol, comecei a jogar na rua mesmo e depois fui levado para o extinto Parentes Unidos FC de Itaberaba. Era uma turma boa, Tonhão, Jair, Jacó, Paulão Goleiro, Marquinhos, Netinho e outros, com 13 para 14 anos.
Existiam os campos do CIFA, do União e do Itaberaba, onde hoje fica próximo o Hospital e PS João Paulo I. Depois foi a vez de tentar a sorte (e acabou dando certo) no Nacional AC da Comendador de Souza. Mas continuava a bater uma bolinha na várzea, agora jogando pela AR Sobrados de Itaberaba, onde passei anos muitos bons momentos.
Tempos de Boi, Jiló, Zelão, Canelinha, Silas, Nambu, Moisés, Dengo, Ivã, Marcondes, Quinha e tantos outros. Nosso local de encontro aos domingos era no Bar do Fumão, que ficava em frente ao antigo ponto final do CMTC, que fazia a linha Itaberaba/Paissandu.
De lá íamos de caminhão ou carro para os jogos. Maior barato! Foram tempos em que não havia esse “mi mi mi” de hoje e você não tinha problema quando chamava um camarada de negão, de gordo ou de anão.
Independentemente de qualquer coisa éramos amigos. Isso bastava. Não se media amizade por cor de pele, grana, altura ou barriga. Era amigo(a) e pronto. Aliás, sempre prevaleceu a maioria negra no meu convívio, principalmente no futebol.
Éramos felizes pra caramba e não tinha frescura. Tempos dos salões de baile, Blandino, XI Garoto do Piqueri, Tiro ao Pombo, da Discoteca Royale Space, da antiga quadra do Rosas de Ouro e do cinema na Brasilândia. Dos bailinhos nas casas dos camaradas, aquela velha lona e o jogo de luzes para agarrar a menininha e tentar dançar uma lenta.
Esta coragem só chegava depois de tomar uma cuba, um fogo paulista ou uma menta. Foi o início do soul no país com Toni Tornado, Tim Maia, Cassiano e Cia. Só alegria. Casei por aí duas vezes (estou no terceiro), meus três filhos nasceram em Sampa, tenho netos, mãe, irmão e meu filho mais velho que ainda moram no mesmo local.
O tempo passou, atualmente vivo no interior e pouco vou a São Paulo, que insiste em ficar diferente a cada chegada. A saudade existe para que de vez em quando a gente possa avaliar nossa passagem por este mundo. Não tenho o que reclamar. Sou um privilegiado pelo Homão lá de cima. Abraços a todos.
Vicente