Em 1958, como em todos os anos, o padre Jeremias, pároco da igreja do Divino Salvador, Rua Casa do Ator, Vila Olímpia, fazia quermesse para angariar fundos. Aquele dinheiro seria investido na construção do prédio que abrigaria um teatro, cinema e também festas do calendário católico e outras.<br><br>Em um dos sorteios da quermesse ganhei um livro com as páginas todas com linhas sem nada escrito. Era um livro para colocar poesias, pensamentos ou algo mais.<br><br>Um livro com a ilustração de uma caravela na capa dura. Aliás, o tenho guardado até hoje — está na minha frente no momento em que escrevo esse texto.<br><br>Era 15 de agosto, quando se comemorava o dia de Assumpção de Nossa Senhora da Conceição, segundo o calendário da igreja católica. Um dia de muito respeito para os religiosos e que era feriado nacional, suprimido depois pelo governo Castelo Branco, em 1964. <br><br>De posse do livro, achei por bem solicitar aos amigos que escrevessem o que bem entendessem. E isso foi feito. A primeira pessoa que escreveu foi a Norma Bortoni. Eis o texto: <br><br>— Da minha casa a sua tem distância de cobra. Espero um dia chamar sua mãe de sogra.<br><br>Então fiquei sabendo que a irmã do colega de congregação e de futebol era uma pretendente a chamar minha mãe de sogra. E que pretendente… <br>Logo a seguir veio outra pretensa pretendente. <br><br>— Se tua amas a Deus, que morreu por tanta gente, porque não amas a mim, que morro por ti somente?<br><br>Flavio Laranjo já veio filosofando: <br><br>- Para que orgulho se o futuro é a morte!<br><br>Meu pai, seu Ângelo Lopomo, não ficou atrás. Também filosofou: <br><br>— Pai é pai, filho é filho. Mas o dever do filho é sempre respeitar a todos os que estima. (A.A. Lopomo) <br><br>A grande perola dos "escribas" veio do meu irmão José. <br><br>— " na TV a imagem. Na câmara o prefeito. No coração o amor. Nas urnas os votos. Em santos o mar. Quem é o maior ladrão? É o senhor Adhemar! (J.L)<br><br>Já minha irmã Teresa, achou que as pessoas escreviam poucas palavras, e desandou a escrever. <br><br>— " vê-la partir não foi tão triste amigo. Foi mais triste, depois, quando, sozinho, eu passei soluçando, no caminho, onde sorrindo ela passou comigo. Era alegre e festivo o seu caminho, e festivo e risonho o meu abrigo. E quando ela partiu, levou consigo toda ternura do meu doce ninho. Já nem me lembro como foi a historia, nem como foi que esse amargor imenso, veio a queimar meu sonho azul de gloria. Mas toda tarde, quando a sós debruço, meu triste olhar sobre o caminho extenso. Me lembro dela e, sem querer soluço. Terezinha Lopomo.<br><br>Meu pai gostou tanto de escrever no livro que voltou com outra frase. <br><br>— "Sou catedrático, mas ganhar que é bom, neca".<br><br>O que ele quis dizer é que como turfista ele sabia muito, mas ganhava nada. Alguém que não assinou, escreveu: <br><br>— Ninguém tem o direito de quebrar o galho de uma roseira simplesmente porque um espinho lhe feriu o dedo ou rompeu-lhe a manga do paletó.<br><br>Anos depois em 25 de setembro de 1966 minha namorada escreveu: <br><br>O dia que te conheci / foi minha felicidade / Só espero que não seja apenas fatalidade. / Desde o momento que te olhei / meu coração suspirou / Mas forte bateu quando você falou / Pois naquele momento / Eu estava tão triste / nem sequer sonhava / que a felicidade existi-se / Só quero que o nosso amor seja pura verdade / para toda nossa vida / uma grande tranqüilidade. Marieta Araujo da Silva. <br><br>Essa namorada esta comigo até hoje. E em maio faremos 40 anos de casados.<br><br>e-mail do autor: [email protected]<br>