Sim, era isso mesmo que acontecia na escola SENAI, Roberto Simonsen do Brás. Um prédio pomposo nos dois primeiros andares escola profissionalizante, e nos de cima de teoria. Lá se aprendia torneiro mecânico, marcenaria, tapeçaria, eletricidade e ourives.
Na parte da manhã era oficina e a tarde teoria. E tinha o reverso. Quando pela manhã tinha os que estudavam nas oficinas as salas de aula eram ocupadas por outras turmas.
O que a escola preservava muito eras as horas de lazer. No almoço, latões de alumínio eram os recipientes aonde vinham o arroz e o feijão. Depois tinha o da mistura, a cesta do pão e a banana. Os que serviam a comida não pagavam. Advinha como eu estava nessa.
Eram duas horas de almoço. Portanto dava para fazer a digestão e ter uma boa hora de lazer. Tinha campeonato de Bola ao Cesto, naqueles anos 1954-55-56, se dizia assim. Hoje se diz Basquete. No salão enorme tinha o serviço de alto falantes que tocava muita música. Havia também aquela mania de oferecer música para fulano ou ciclana.
Uma maneira de os tímidos se aproximarem de uma moça. Só que tinha 50 moças (meninotas em sua maioria), 15 a 17 anos. Poucos com idade superior a 18 anos. Do lado dos rapazes, também a idade era essa. As meninas eram severamente vigiadas por dona Alaíde, contratada para esse fim. Pois aquele pequeno número de pessoas do sexo feminino em meio a milhares de rapazes, na certa uma “fessaria” podia ocorrer.
E um dia realmente ocorreu. Em meio aquelas poucas moçoilas, tinha uma loirinha, a Marlene, que gostava de se destacar, era muito volúvel, risonha. E, exibicionista.
E nas rodas masculinas era chamada de biscate. Um dia ela chegou atrasada na volta do almoço. A primeira fila a entrar era a fila das moças. E quando ela chegou a fila já estava subindo a escada. E no corredor que não era muito largo, estava passando a fila da turma da T-9, a que tinha já os alunos mais adultos (aqueles velhos repetentes).
Foi uma festa. Passaram a mão por toda parte da menina, até na calçinha chegaram a colocar a mão. Deu um rebu danado, a sala toda foi suspensa dois dias.
Todas as sextas feiras tinha show. Eu fazia parte do grupo teatral. Escrevia esquetes, e também representava. Como não tinha microfone no palco para as apresentações de teatro tínhamos que falar alto para que todos pudessem ouvir. No retorno de voz, devido o eco, percebi que tinha voz de taquara rachada e resolvi só escrever, coisa que sempre foi o meu gosto, embora de português sofrível.
No dia dos professores era o dia inteiro de festa. Então o show era mais caprichado. Veio-me a cabeça fazer um programa do tipo da PRK-30, em que Lauro Borges e Castro Barbosa faziam o Brasil inteiro rir. Para tanto teria eu que fazer uma paródia saindo fora de um possível plágio. Ou seja, pegando somente o esquema. Tínhamos um rapaz o Roberto que tocava muito bem gaita de boca (quem nos anos 40-50 não tinha uma gaitinha), um conjunto musical de cinco rapazes que cantavam músicas de Adoniran Barbosa, e era uma espécie de clone dos Demônios da Garoa. Um humorista de nome Valter Negrini, que não ficava devendo nada aos grandes humoristas do radio naquela época. Era do tipo que não ria no palco, motivo de provocar risos em demasia da platéia. Montamos o show. Eu e o Walter Reis, éramos os locutores.
Roberto tocou na gaita Cerejeira Rosa. Música que estava várias semanas em primeiro lugar na parada de sucesso da rádio nacional, com Alcides Gerardi. O conjunto para não cantar Saudosa Maloca, música que já era muito ralada no rádio, cantou Iracema.
Feito isso falei para os colegas de produção. Meus… A platéia vendo que o Roberto e o conjunto cantaram certinhos, na certa vai imaginar o Valter Negrini também, e aí é que vamos pegá-los no pulo. Anunciamos em seguida Valter Negrini tocando em solo de Corneta (piston) o tango La-Comparcita. Houve aquele silêncio na platéia. Valter entrou com o piston, deu o primeiro assopro não saiu nada. Virou o bocal para si, olhou bem tentou novamente e não saia nada. Tirou uma peça do instrumento, tirou outra, depois virou o bocal novamente frente ao rosto e ai é que viu que estava entupido com pedaço de jornal. Tirou o jornal, colocou na boca e só saia vento desta vez. Então colocou o instrumento junto aos dois joelhos, tirou uma banana do bolso e começou a comer. Tudo isso sem dar um sorriso. E ainda fez o grande favor de me oferecer um pedaço. Eu que me esquiatava de rir, colocando os papéis que tinha na mão em frente ao rosto. Walter Reis, então, foi rir por de trás das cortinas. A platéia morria de rir.
Posteriormente apresentamos um Pitoniso. Ou, seja um “adivinhão”. Aquele que com os olhos vendados sabia tudo o que estava acontecendo e o que as pessoas tinham nas mãos. Era um negócio de encantar. Uma moça da produção pegava algo da mão de uma pessoa da platéia e ele acertava tudo. Todos aplaudiam com bastante fé de que ele realmente era um telepata, ou coisa que o valha.
Acontece que eu coloquei ao lado dele uma mesa não muito grande que tinha uma toalha que vinha ao chão, e um buraco que dava, para pelo menos o, olho de alguém debaixo da mesa ver o que a moça pegava para dizer ao grande “Pitoniso”. E o pessoal aplaudia muito. Ao final todos se ergueram aplaudindo de pé.
Foi quando quem estava debaixo da mesa saiu e reclamou que somente ele, o adivinhão era aplaudido e quem estava lá debaixo dando a dica não. Aí a frustração foi muito grande. Mas logo em seguida houve aplausos. Imagino que foi para a produção que conseguiu enganá-los.
Foi um sucesso. E foi mesmo porque a direção da escola encomendou-nos outro programa para o dia da formatura do terceiro grau, que sempre ocorria no mês de dezembro. Então começamos a bolar outras coisas. Somente o conjunto e o gaitista seriam os mesmos, mas com outra música. Roberto optou por Beijinho Doce, outro grande sucesso daquele ano de 1955. Penso que novamente com Alcides Gerardi.
Já o conjunto estava propenso a cantar o Samba do Arnesto ou a Saudosa Maloca.
Sugeri que cantasse outra música. Pois essas duas já estavam muito batidas. E na certa a platéia cantaria junto tirando a beleza da apresentação deles. Aceita a sugestão, mostrei a eles uma letra que tinha uma dualidade de imaginação. As Mariposas.
“As mariposas quando chega o frio, fica dando vorta, em vorta, da lampida pra si isquentá. Elas roda, roda, roda, e despois si senta, em cima du pratu, da lampida, só pra si isquentá.”
Ai vinha à parte declamada.
“- Bánoite lampida.
– Boa noite, Mariposa.
– Posso arolarme as alfaceas em você?
– Pode sim, mas anda depressa, se senão, eles me apagam.”
A seguir para, pa-pa, para pa-pa, e por ai.
Eis que vem dona Alaíde a responsável pelas “meninas”. Ela era uma espécie de censora. Tinha que preservar a moral e os bons costumes. Assistia ao ensaio.
Estava esfuziante diante da boa conduta do conjunto. Mas quando chegou à parte declamada, em que a Mariposa queria arolar as alfaceas. Ela deu um pulo da cadeira e gritou. Não! Isso não!
– Isso não o que, dona Alaíde? Indagamos todos nós.
– O que vocês estão fazendo é apologia da prostituição.
E não houve Cristo que a fizesse voltar atrás.
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