11 de abril, e você já tem um ano, amigo

A tarde avançava preguiçosamente, teimando em se arrastar, para desespero da noite que ansiava em chegar para ficar conosco.

Na cozinha, a mãe e a avó se esmeravam naquele fabuloso lanche de sempre. Na sala, já meio extenuados por tantas brincadeiras, meu neto e eu sucumbíamos ante um belo e reconfortante sono. Claro, depois de tantas cabeçadas e dores fingidas, amenas mordidas (favor não confundir com menos mordidas), risos e gargalhadas, só nos restava cair no sono, e assim, nós dois nos enroscamos, em brinquedos, lençóis e xales e, como dizíamos antigamente, "capotamos".

Somos dotados de um dom maior, e através do sonho e da imaginação viajamos no tempo e no espaço, rompemos barreiras e nos tornamos senhores únicos de tudo o que acontece à nossa volta, e naquele sonho liguei minha super nave e alcei vôo, em que piloto e co-piloto – cérebro e coração – tomaram assento, e fomos os dois, o neto e eu, entre os brancos flocos de nuvens, dar uma pequena volta, pois queria lhe mostrar coisas, ensinar-lhe algo…

E fomos. Ele tinha muito mais que seus onze meses de agora, talvez cinco, seis, sete anos, sei lá, falava e perguntava como todos as crianças dessa idade que são movidos a comos e porquês. Eu o levava às costas, como super herói presente e inteiramente respondante.

Saímos da sua casa e a primeira parada foi Interlagos. Mostrei do alto o Autódromo, descrevi o traçado velho, voamos pelo Laranjinha, pela Ferradura, pelo bico do pato e o coloquei no podium, lá no alto. Não teve champanhe, nem hino, mas teve um ar de vitória com umas três ou quatro voltas na frente do segundo colocado.

Saímos rapidamente, Avenida Interlagos, Marginal Pinheiros, cruzamos a Bandeirantes e eis o Ibirapuera. Falei da festa do IV Centenário, do parque de diversões que existia, do lago onde eu e sua avó andávamos de barco. Não acredita? Seu porcalhão, andávamos sim e tinha um restaurante na beira do lago. Aquilo redondo é o Planetário, um dia vou te levar para você ver o universo, o céu, as estrelas e você vai ver quantas estrelas existem no céu. Quantos sorvetes Carioca nós tomávamos no quiosque em frente. Não, cara, aquele outro redondo é o Ginásio do Ibirapuera, não é o Planetário de gente grande. Ali se joga basquete, vôlei, futebol de salão, tinha show do Holiday On Ice – tá bom, você não entendeu – rolidei on aice -, vai perguntar pra tua mãe que tem mais tempo.

Ali é a Avenida Brigadeiro Luiz Antonio, vai até a Avenida Paulista, que é a parte mais alta da cidade. Agora aqui só tem prédios e todos os bancos trabalham por aqui, mas há muito tempo aqui só tinha casas. Eu joguei bola ali na esquina da Paulista com a Augusta. Não tinha perigo, não era em cima do prédio, ali era o colégio Paes Leme, um casarão grande, não um prédio. Em frente tem o Conjunto Nacional, que é um lugar bem legal para se passear, ainda, mesmo sem o Cine Astor ou o Cine Rio.

Cine é onde passam filmes. Não, amigo, DVD é outra coisa. Mas tem a Livraria Cultura que ajuda bastante.

Tá cansado? Não? Sabia, vamos em frente.

Na Rua Augusta só tinha ônibus elétrico. Sua avó falava que eles usavam suspensórios. Não sabe o que é ônibus elétrico? Ah, suspensórios. Bem suspensórios são…, vamos andando cara.

Ali é o Pacaembu, onde a gente assistia jogo de futebol. Era mais bonito que agora, tinha uma certa arte e eu vinha com meu pai quase todo domingo. Às vezes vinha feliz e voltava feliz, às vezes nem tanto, afinal eu comecei a vir aqui em 1960, e desde esse ano até 1977 eu li e ouvi coisas não muito legais não. Por quê? Porque sim, amigo, pede pro teu pai que ele te conta. Foi no Pacaembu que eu aprendi uma porção de coisas bonitas e a falar nome feio.

Por aqui a gente chega no centro da cidade. Aquela ponte enorme não é uma ponte, é um elevado que todos chamam de Minhocão. Passamos na Avenida São João e chegamos na Praça da Sé. Por que chama Praça da Sé? Vai ver que erraram o nome e queriam homenagear teu avô e chamar de Praça do Zé, mas alguém errou a grafia e ficou por isso mesmo.

Ali naquela igrejinha pequena é que nasceu a cidade. Chama Pátio do Colégio. Você nota que as ruas são estreitas como uma cidade do interior. São Paulo também foi pequena, foi crescendo, crescendo e hoje é como está hoje. Lembra que eu falei quando a gente passou pela Avenida Paulista? Aqui era o centro financeiro da cidade. Nesta rua, Boa Vista, e naquela, XV de Novembro, ficavam os bancos, e sempre que a gente tinha que pagar contas vinha pra cá.

Aqui é o Mosteiro de São Bento, algum dia eu te trago para a gente ver uma missa, você vai ver que linda. Aquele é o Viaduto Santa Efigênia. Todo ele feito em ferro, e, cruzando, o Vale do Anhangabaú.

Está vendo aquele outro ali adiante? É o Viaduto do Chá. Tem esse nome porque tinha uma plantação de chá, oras. Aqui embaixo passava o Rio Anhangabaú, e de vez em quando, quando chove muito, ele enche e enche a gente também (ainda). Ali é a igreja Santa Efigênia. Puxa, quanta igreja junta, você vai me perguntar? É que o pessoal era bem mais católico que agora. Agora só tem outro tipo de igreja. Aqui é o Largo do Paissandu, e tome outra igreja.

Aqui na Conselheiro Crispiniano ficava o quartel do exército, onde este teu avô cismou um dia, por volta de 65/66, de enfrentar alguns soldados e descobrir que eles corriam mais que a gente e batiam sem dó. Passamos no Viaduto do Chá que eu já mostrei, e olha o Santa Efigênia lá adiante, lembra?

Esta é a Rua Direita. Tá bom, eu sei o que você vai perguntar, mas nem pergunte, eu também não sei.

Ah, veja que interessante, ali é o Largo do Café, café, Café… café. Sonho e realidade se confundem e a Silvia me acorda para o café. Acordei, levantei e fui. Não sem antes dar uma olhada pro meu neto espalhado, largado, braços abertos, dormindo um tranquilo e abençoado sono.

Pudera, com tanto que voamos, com tanta informação, com tantos e perguntantes porquês, só podia dar nesse cansaço só.

Tomando café, me deparei olhando o vazio. E me vi, um dia, como um intruso carona, carregando uma doce inveja ou amarga lembrança, imaginando meu neto, assim como meu avô fez comigo, como meu pai fez com meu filho, como eu farei com ele um dia, este pequenino ser dará um passeio fabuloso com seu próprio neto. E nesse dia, São Paulo, esta querida São Paulo, voltará a ser a terra da garoa, com suas ruas e calçadas úmidas pela garoa que meus olhos teimosamente insistirão em derramar.

e-mail do autor: [email protected]