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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Vila Mandu Autor(a): Jayro Eduardo Xavier - Conheça esse autor
História publicada em 09/07/2007

1953 - Criado na travessa Tangará, na Vila Mariana, e dentro do Parque do Ibirapuera, com as obras do IV Centenário fomos expulsos e fomos morar na última travessa da avenida João Dias, antes da ponte sobre o rio Pinheiros. O lugar era conhecido como Vila Mandu. Consegui me enturmar imediatamente após a mudança para a Vila Mandu. O primeiro amigo que fiz e que foi mais constante até sua morte por tuberculose foi o Zé Franguinho. Esse apelido devia-se a ele ter namorado uma tal Ana Galinha, a quem não conheci. Natural de Itajubá - MG, ele tentou fazer comigo um duo pra cantar moda de viola. Ele faria a primeira e eu a segunda voz. Graças ao meu desafinamento inato ficamos só na tentativa. Com ele e a turma aprendi molecagens típicas do interior. "Roubar" cavalos era comum. Fazíamos cabresto com o que estivesse à mão e íamos cavalgar na margem do Pinheiros. Certa vez fui perseguido pelo dono de um dos animais, que me ameaçou com um facão. Como se vê por este relato, consegui escapar. Um dia mudou-se para o bairro, procedente de Irati - PR, um garoto ágil, loiro, de cabelos lisos, chamado Antonio. Por causa dos cabelos logo ganhou o apelido de Escorrido. No exato lugar ao norte de onde está o hotel Transamérica havia um pesqueiro onde peguei traíras. Era um tanque formado no areal resultante do bota-fora das dragas da Light que escavavam o fundo do rio Pinheiros. Entrar n'água ali era perigoso porque o fundo era uma trama de raízes que cediam ao peso de um homem e dificultavam o escape. Para nadar tínhamos duas lagoas à disposição. Uma que ficava onde está o Carrefour Pinheiros e outra, mais próxima, ao pé do morro onde está o Centro Empresarial. A trilha da av. João Dias até esta lagoa era estreita e ladeada por touceiras de capim barba-de-bode. A caminho de lá com a turma, Zé Franguinho e eu fechávamos a fila. Sorrateiramente, fomos juntando a barba-de-bode das margens e atando-as com nós cegos. Na volta o Zé fez um desafio: "- Quem chegar por último é viado". Escorrido saiu na frente, correndo como doido. No primeiro nó seu pé enganchou e ele se esborrachou no chão. Tivemos que ajuda-lo a chegar em casa, pois havia luxado o tornozelo. Coitado do Escorrido! Era vítima de suas próprias agilidades e impetuosidade. Noutra ocasião alguém lançou o desafio de subir num poste até o topo. Quem se apresentou? O Escorrido, é claro. Quando ele estava chegando ao topo, o Sagüi, com um pedaço de madeira, espalhou merda seca em volta do poste até onde conseguiu alcançar. Na descida, quando o Escorrido percebeu, ele pulou ao chão. Resultado: outra luxação. D'outra feita colocamos um paralelepípedo num saco de papel do açúcar União e deixamos na sarjeta. Sorte do Escorrido, porque antes dele passou um desconhecido que não resistiu e deu um tremendo chute no que pensava ser um saco vazio. Estávamos escondidos no mato e lá ficamos até que o sujeito se recuperasse e fosse embora mancando. Ainda bem que estava calçado! Nós andávamos descalços. Uma noite, ao passar junto a um buraco que havia no muro de um terreno da av. João Dias, ouvi um barulho como o de um gato irritado e ameaçador, mas tive certeza que não era gato. Fui chamar uns amigos e pedi-lhes para que subissem no muro e agitassem o mato pra trazer o bicho pra fora. Quando ele saiu vi que era um rato de quase um metro entre as pontas do focinho e do rabo. Abati-o com uma cacetada na cabeça e, pensando haver matado o bisavô de todos os ratos, fui exibi-lo no bar da esquina. Tanto o dono do bar, como um freqüentador, pediram que eu lhes desse o bicho. Neguei e, acompanhado do Zé, do Otávio e do Sagüi, fui pra casa mostrar ao meu pai o nosso troféu. Papai, quando viu, deu risada e, didaticamente, explicou que aquilo era um ratão-do-banhado ou nútria, um animal limpo, que vive na água e se alimenta de raiz de taboa. Os dentes incisivos assemelham-se ao do castor. É parente da marta e tem a pelagem mais rala que esta por causa do clima. Disse mais: a pele tem valor comercial e a carne é saborosa. Era quase 3 horas da manhã quando terminamos de assar o ratão. A carne era boa mesmo. Mamãe, além de não querer experimentar, jogou fora a assadeira. Além da nútria, o único outro animal que matei em toda minha vida foi um gambá. Saímos - o quarteto acima - pra caçar à noite perto do fundão, ali onde está a av. Guido Caloi. Levamos duas espingardas 32 de um cano e uma 12 de cano duplo, todas da família do Zé Franguinho. O Zé me confiou a 12, recomendando que apoiasse fortemente a coronha no ombro pra escorar o coice. Íamos esquadrinhando o caminho e as árvores com lanternas até que demos com o gambá numa árvore. Assestei a espingarda e atirei. Apesar da precaução, o coice me deixou com uma luxação no ombro. O Dito, irmão do Zé, cuidou de limpar e preparar o gambá. O segredo é saber retirar um sebinho que ele tem sob a pele dos sovacos. Se não souber tirar, a carne fica com cheiro de urina com arroz podre. O Dito soube preparar! O chato era ter que separar os chumbinhos com a língua pra poder engolir. Um conselho. Nunca tente tourear uma vaca ou bezerra. O touro ou o bezerro ficam fascinados pelos movimentos do pano sacudido pelo toureiro. Quando arremetem, atacam aquilo que os fascina. Bovinos do sexo feminino não se deixam enganar. Não encontrei até hoje explicação científica para isso, mas garanto que nunca uma vaca foi vista sendo toureada em rodeios. Aprendi isso de modo prático. Fiquei um tempão sem poder sentar ou andar direito. Havia um rapaz de fora, o Heitor, que morava no Jardim Paulista e namorava uma das garotas do bairro, a Sanai, uma mestiça de caipira com japonês, muito bonita. Heitor ficou nosso amigo e até fizemos viagens juntos, como aquela em que, num sábado, descemos, ele, o Zé Franguinho e eu, pela Santos-Jundiaí, pra ficar na casa da tia do Zé no Boqueirão da Praia Grande. Chegamos tarde da noite e não encontramos viva alma. Poucas casas haviam por ali. À beira-mar, o único bar aberto era a Cantina do Perácio, um ex-jogador de futebol da Seleção. Conversamos com ele, bebemos um Cinzano cada e voltamos pra Santos no último ônibus. Tentamos dormir na areia da praia, mas os vigilantes municipais impediam. Fomos pra São Vicente e, depois de um bom sono na areia, acordei com o sol na cara. Logo depois o Zé encontrou um amigo, o Padre, e nos apresentou. De modo a facilitar a paquera, nos separamos. O Zé e eu prum lado, o Padre e o Heitor pro outro. À noite, na estação, não os encontramos e retornamos a São Paulo. Na quarta-feira seguinte soubemos do enterro do Padre. Ele pisara numa unha de siri e tivera tétano. Tempos depois o Heitor soube que eu havia elogiado a beleza da Sanai e veio tomar satisfações. Confirmei que a achava bonita e ele me chamou pra briga. Embora sabendo que ele era aluno de uma academia de box, não tive como deixar de enfrentá-lo. Ao primeiro soco recebido, desferi um ponta-pé em seu estomago. Ao vê-lo caído, presa de uma fúria cega, soquei-o até ser retirado à força pelos que assistiam à briga. Descobri aí que não havia limites para meu descontrole e nunca mais quis me envolver em confusão. Tê-lo-ia matado a socos se não tivesse sido contido. Um dia pedi ao Monarcha, apelido do irmão mais velho do Sagüi e que trabalhava numa metalúrgica, para que soldasse um prego de aço num quatrocentão. O apelido dele talvez se devesse a ele ser parecido com aquela máquina de fazer café que havia em bares: maciço e redondo. Quando ele trouxe o pedido pronto, preguei a moeda no meio da calçada entre o bar e a barbearia. Depois foi só apreciar a reação dos passantes. O quatrocentão era a maior moeda havida no Brasil e já era rara. Não havia quem não notasse. O divertido era ver a reação de quem tentava e não conseguia pegar. Uns saíam rindo, outros furiosos por terem sido objeto de gozação. Na verdade, a idéia não foi minha. Meu pai contava que seu irmão Olindo, anos antes, quando tinha loja de conserto de rádios na rua Carlos Petit, na Vila Mariana, fez a mesma coisa, pregando a moeda numa junta de dilatação da calçada. A diferença era que ele passou um fio pela junta e eletrificou a moeda. As festas juninas eram um capítulo à parte. Comemorávamos Stº. Antonio, São João e São Pedro. Durante o dia íamos cortar bambu pra decorar a casa do Zé. Chegávamos a ir a pé até o Morumbi. No altiplano da avenida, que vai da ponte Morumbi para o palácio do governo, ainda há remanescentes do bambuzal. Era então uma estradinha de terra. Numa dessas idas encontramos no meio do mato, dentro de um táxi que fazia ponto no largo 13 de maio, uma respeitável senhora de nossa rua em plena transa com o motorista. Enfeitada a casa, à noite vinha a festa e o esperado baile. Fogueira, quentão, pipoca, pinhão, amendoim e muita bombinha e rojões. Espalhávamos fubá no chão pra deslizar melhor. Além das músicas comuns às festividades, sempre se dava um jeito de tocar boleros, os preferidos de moças e rapazes pela oportunidade que davam de roçadinhas furtivas. A tal senhora sempre compareceu com o marido e os filhos. Depois do flagrante eles continuaram comparecendo. Só que agora havia briga entre nós para tirá-la pra dançar bolero, já que o marido só assistia. Numa noite avisei meu pai que iria estudar na casa do Zé e que dormiria lá. Ele anuiu com certa desconfiança quanto ao estudo. Juntos, o Zé, o Dito, o Otávio (ambos seus irmãos) e eu, afanamos uma galinha do galinheiro de sua própria mãe e fomos passar a noite pescando no rio Guarapiranga, perto de onde está hoje a fábrica da Caloi. No caminho encontramos um despacho de macumba. Pegamos os charutos e a cachaça e fomos em frente. Assamos e comemos a galinha, fumamos os charutos, bicamos a cachaça e passamos a noite pescando. Quando o dia nasceu ficamos pelados e pulamos n'água para mergulhar e catar os mexilhões que abundavam no fundo do rio. Afastei-me pra procurar um lugar menos explorado para a cata quando, numa curva, dei com meu pai que pescava. Ele fez cara de bravo é só falou: "- É! Estudando! Pois sim". Havia um rapaz que, por ser mais velho, não era muito bem vindo à turma. Um dia fui abordado por ele com uma oferta que topei na hora. Ofereceu-me, para prova, um cachimbo cheio de maconha, garantindo que era da boa e mostrando-me como tragar: uma tragada diferente da que se dá no cigarro. Já na metade eu estava flutuando; parecia andar sobre um colchão. Fomos ao bar do Chico e eu mandei cortar uma fatia de mortadela da espessura de um polegar, a qual comi com picles. Depois tomei um litro de leite e fui pra casa. Meus pais estavam em Peruíbe construindo sua primeira casa. Sozinho em casa, deitei-me no sofá da sala e tentei dormir, mas a maldita casa girava e balançava. De repente corri ao banheiro, vomitei tudo e voltei a deitar. Acordei 26 horas depois. Foi a primeira e única experiência com a cannabis sativa. Sempre respeitamos os mais velhos, mas havia uma austríaca solteirona, Da. Rosinha, que morava com a mãe e que era impossível. Uma mulher irascível e intolerante. Numa tardezinha em que estávamos brincando num terreno baldio do outro lado da rua ela saiu à porta gritando: "- Seus filha-de-puta. Pára com bagunça se não eu chama polícia". Obedecemos. Lá pelas 8 da noite Da. Rosinha saiu pra verificar por que estava faltando luz em sua casa. Examinou a caixa de força e descobriu que a chave fora desligada. Já praguejando em alemão por desconfiar dos autores, religou a chave e, ao voltar pra dentro, botou a mão na maçaneta da porta da sala, cheirou a mão e deu um berro: :"- É meeerda. Polícia!" e prosseguiu gritando para a mãe em alemão. Estávamos vingados. Nos fundos do terreno da SECLA havia um fosso pra manutenção de veículos que era mantido fechado por meio de pranchas de madeira. Num sábado encontrei ali uma muçurana de aproximadamente 60 centímetros. Batizei-a de Olga em homenagem a uma ex-namorada. Imediatamente veio-me a idéia de aprontar alguma. No domingo, após jogar no Formoso F. C., fui até em casa tomar banho e voltei para o ponto de encontro do time, o bar do Abílio, na esquina da João Dias. Dentro da camisa estava Olga que, com o calor do meu corpo, permanecia quieta. Sobre a mesa copos e garrafas com cerveja e guaraná. Vermelho, o nosso beque era um negão e tinha esse apelido por sua semelhança com o jogador Vermelho, do Corinthians. Ao levantar seu copo para um gole ele viu Olga botando a cabeça pra fora de minha camisa. Foi copo prum lado, o Vermelho pro outro. Apavorado, ele deu uma joelhada na mesa jogando tudo ao chão. Tava instalada a barafunda. Todo mundo preparado pra brigar sem saber com quem. Da calçada Vermelho gritava ameaças de morte pra mim. Serenados os ânimos todos demos boas risadas, o Vermelho inclusive, mas as despedidas foram de longe. Nada de apertos de mão comigo.

e-mail do autor: jayro.xavier@uol.com.br

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Publicado em 24/06/2011 Linda sua história Jayro,eu vivi tudo quase igual,tudo que vc relata do areião dos ratos do brejo,lagoa aonde agora é o centro empresarial,eu estive lá.A ultima rua que vc morava naquele tempo chamava-se rua progresso.Nossa recordei de muitas coisas.Até de seu amigo zé que morreu de tb.Acho que eu o conheci.Adorei abraços. Enviado por HVB - valencab@terra.com.br
Publicado em 12/07/2009 Achei espetacular a maneira como o Jayro fez o relato da sua infancia, e realmente parece que estamos vendo um filme. Enviado por José Carlos Mandu da Silva - mandu1888@hotmail.com
Publicado em 13/05/2009 Passei a infância e parte da adolescência na Chácara StºAntonio no final 50 e anos 60. Havia um time chamado Mirim Brasil na Fernandes Moreira e que treinava num campo na vila Mandu. Eu ia junto com a molecada mas sem tomar conhecimento de onde realmente se localizava a tal da vila du. Depois de adulto várias vezes fiquei matutando querendo saber onde ficava a tal vila Mandu. Olhei no guia etc... mas não chegava a conclusão nenhuma. Hoje, lendo as aventuras do Jayro, resolvi essa questão.!!!! Enviado por Paulo Duarte - paulod.rezende@bol.com.br
Publicado em 10/07/2007 Esta história Jayro, falando sério, poderia se transformar em filme. Não sei bem o gênero, talvez comédia, ou drama.E creio iria abafar.
Já pensou? Assistam a estréia de "Vila Mandu" por Jayro Eduardo Xavier e seus comparsas.
Se a gente fosse se abrir mesmo ia aparecer por ai muitos "ladrões de galinha" etc..., coisas da nossa infância e juventude.
Enviado por Clesio de Luca - cllesiodeluca@yahoo.com.br
Publicado em 09/07/2007 Jayro pensei que fosse um moleque da "pesada". Mas você amigo, superou! Enviado por Clesio de Luca - clesiodeluca@yahoo.com.br
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