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Categoria - Outras histórias Caso dos livros Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 15/04/2015
O tempo e a vida se arrastavam na lentidão mórbida naqueles anos 70. Para nós era assim. Os dias andavam com a força minguante dos velhos, que haviam “perdido o bonde e a esperança... e voltavam pálidos para casa”.
 
E era mesmo a poesia do Drummond que me fazia respirar um pouco, me convidava a estar no mundo, a ser participante, mesmo com a seriedade e a dureza de interpretar as coisas da vida nada convenientes para uma garota em início de adolescência.
 
Impossível descrever a importância do fato, mas a minha mãe descobriu o Círculo do Livro. 
 
Novidade na época. Para nós, uma surpresa única, indescritível, indecifrável. Alguma coisa estaria acontecendo naquele sobrado do Cambuci. 
 
Livros que haveriam de abrir janelas deixando o sol entrar com todo o seu vigor, energia e vibração. Sim, a primavera poderia entrar sem pedir nenhuma licença. O perfume industrializado contido nas folhas brancas poderia me levar a viagens jamais imaginadas por uma simples filha de um bairro de tradição operária, de ruas de paralelepípedo e com eventual e tensa falta d’água. 
 
Com uma revista mensal cuidadosamente depositada numa maleta preta, um funcionário da editora fazia a divulgação dos seus valiosos produtos, finamente encadernados. Uma capa de acetato tratava de proteger a capa dura. Feita a escolha, a entrega do livro ocorria no mês seguinte. O mesmo funcionário traria o livro escolhido, mediante o pagamento previamente anunciado na revista.
 
E os livros iam chegando. Datas especiais aquelas! Para mim, de tanta magia e encantamento, eu os pegava e me sentia tão pequena diante daquelas preciosidades que mal me atrevia a manusear aquelas páginas.
 
Só com o tempo fui me adaptando, me sentindo digna de ler alguma coisa. E eu via a minha mãe lendo, um livro atrás do outro, muitas vezes mexendo a comida nas panelas e a outra mão ocupada com a conquista. A minha avó lia também. E conversavam sobre o conteúdo daquelas riquezas. Era a vida se sentando junto, no cantinho do sofá, interessada em participar desse tipo de discurso.
 
E eu ia viajando, tirando os pés do chão pela primeira vez. Eu ia imaginando o tamanho do mundo, a dimensão dos sentimentos, me projetando para o alto das copas das árvores mais robustas e me entregando ao prazer da descoberta. Era como se eu, pendurada nas copas, pudesse abraçar o mundo com um carinho exagerado, profundamente humano, sentindo o frescor das folhas verdes e na esperança de o mundo ser bem menos cruel e arrogante.
 
Os livros!
 
E eu fui aprendendo a cuidar deles como joias de inestimável valor, como companhias em dias lindos ou de completa solidão. Livros para serem lidos na cadeira de balanço ou no balançar do metrô.
 
A tia Norma também se associou ao Círculo. Lia e comentava também conosco com muita avidez sobre cada um, sobre cada personagem. Fazia as observações mais sinceras e com total intensidade. E gostava de deixar registradas as suas opiniões logo na primeira página e sempre com a mesma advertência: “Depois de lê-lo é favor devolvê-lo, sim?????” 
 
Quando ela colocava esse “sim????” no final é porque ela já estava enraivecida com os calotes.
 
E ela colocava a fitinha de marcação de páginas em cada um dos livros e eu não sabia como ela conseguia tal façanha. Eu achava a fitinha meio mágica. Só a minha madrinha mesmo para inventar uma coisa assim tão prática e instigante!
 
Herdei vários livros dela ao longo da vida. Com minhas saudades, resolvi ler o que ela havia escrito na primeira página do “Arquipélago Gulag”. Lá estava: "Pertence a Norma D. Fogaça – maio 1975 – Depois de ler este livro, só digo isto: Brasil como te amo!"
 
Ah! Norminha, sempre fazendo das suas...
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 05/05/2015

Vera

Belo texto. Leio muito desde 9 anos de idade e tenho alguns livros adquiridos através do Circulo do Livro. Parabéns.

Enviado por Wilson Eugenio Luizi - neide_hiromi@ig.com.br
Publicado em 29/04/2015

Minha irmã querida, o livro é um tesouro que a gente carrega nas mãos. Tenho muitos em minha casa e não me desfaço de nenhum deles. Aliás, uma das maiores heranças que meu pai me deixou foram os seus livros.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 24/04/2015

Oi Vera, outro dia estava recordando e comentei com uma amiga sobre o Circulo do Livro.

Era prático. Pagávamos um valor mensal ou bimestral e tínhamos direito a receber as revistas em casa, escolhíamos os livros, fazíamos o pedido e pronto. Depois vinha a ansiedade com a chegada do carteiro.

Muito prático e moderno, para a época. A família inteira se envolvia com os livros, de alguma forma. Alguém da família poderia nem ler, mas no mínimo participava de alguma conversa, ou recebia o porteiro, ou via o livro em cima de algo.... Muito legal você lembrar deste momento, da década de 70.

Bom sistema, pena que não tem mais. Um abraco Vera.

Enviado por Marina Moreno Leite Gentile - dagazema@gmail.com
Publicado em 23/04/2015

Vera, que boa herança a Dna. Norma lhe deixou, os livros são o alimento da alma,parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 20/04/2015

Vera,

Quem lê vale mais. Lendo sua narrativa enriquece meu conhecimento. Você é perfeita com as palavras. Seu amigo, Anthony

Enviado por Anthony - mennittoa@yahoo.com
Publicado em 16/04/2015

Vera, os livros também foram minha primeira paixão. O Circulo do Livro me teve, por muitos anos, como sócio e esperei com aflição cada chegada de um novo visitante. Valeu a lembrança.

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 16/04/2015

Vera, sua mãe e avó plantaram semente em terra fértil e você captou, assimilou e adquiriu essa cultura e muitas vezes só com o exemplo e o resultado ai está, belas crônicas e infelizmente hoje em dia na maioria dos lares não temos isso, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 16/04/2015

Aí estão, preciosos parágrafos 'a satisfazer nossa fome de saber. Quem nos alimenta? quem nos dá tanta satisfação na leitura? quem enriquece nosso limitado conhecimento sobre livros? ela, nossa doce, paciente e querida Vera ao interpretar como poucas os segredos prazerosos de uma boa leitura. Externadas com a sempre encantadora prosa, naquilo que já é rico por si, enobrece com sua natural delicadeza. Muito elegante e bela sua escrita, Morata querida, parabéns.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 16/04/2015

Delicia de texto, que relembra a magia de descobrir o prazer da leitura. Eu nunca me envergonhei de retirar um livro, gibi ou revistas jogados nas antigas latas de lixo. Reciclagem!

Enviado por Valdecir Donizeti de Oliveira - valdecir.donizeti@bol.com.br
Publicado em 15/04/2015

Até eu fiquei com saudades da tia Norma de tanto que já li sobre ela em suas narrativas e comentários...

Quando era jovem ouvia falar na BARSA e sonhava em tê-la um dia...parecia um tesouro muito custoso a ser conquistado...me contentava em ler as Seleções que saiam mensalmente e da qual meu patrão era assinante.

Hoje vejo minhas netas baixando livros pela internet para ler quando estes lhe interessa PODE????

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
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