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Categoria - Outras histórias Funcionário de um pronto-socorro de São Paulo Autor(a): Marina Moreno Leite Gentile - Conheça esse autor
História publicada em 23/04/2015
Noel Moreno Leite nasceu em 1959. Cidadania espanhola e brasileira era um menino super curioso e inteligente. Gostava de pedalar desde criança. 
 
Na década de 80, achou que poderia ir até Manaus de bicicleta, mas chegando em um ponto da Rodovia Anhanguera seu equipamento falhou. Ele o vendeu e prosseguiu até a capital do Brasil, utilizando carona. Uma das vezes que se aventurou pelas estradas chegou até a Bahia. Foi ao Rio de Janeiro, também de carona. Houve um problema para subir ao Cristo Redentor, mas ele não desistiu, pediu carona para um motorista de carro de lixo. Divertia-se ao contar esta história.
 
Entre outras aventuras, o passeio preferido dele era seguir as trilhas da serra do mar de São Paulo, especialmente pelos trechos da linha de trem. Paranapiacaba era seu cantinho preferido. Na adolescência utilizava os trens da antiga Sorocabana. Havia um modelo que era construído de madeira, muito interessante, seu preferido. A estação frequentada era no Socorro, próximo a Marginal Pinheiros.
 
Noel desejou pedalar pelo mundo, mas a responsabilidade com a família não permitiu. Viveu sua vida trabalhando arduamente para criar seus quatro filhos, foi mãe e pai ao mesmo tempo. Foi difícil, mas ele superou a fase mais crítica, deixando seus sonhos de liberdade para o futuro, por ocasião da aposentadoria.
 
Estava perto de conseguir. Faltando apenas 3 anos, ele começou a realizar alguns projetos, como por exemplo pular de paraquedas. Dia 18/01/2015 realizou seu sonho, em Boituva, interior de São Paulo. Ficou super feliz, chegando a afirmar que, se partisse naquele dia iria feliz.
 
No Hospital Municipal do Campo Limpo, um dos pronto-socorros mais movimentados da zona sul de São Paulo, exerceu diversas atividades. Sentia muito orgulho em trabalhar neste hospital. Quando recebeu um diploma por sua trajetória como funcionário ficou super orgulhoso. Mostrava o pedaço de papel com brilho nos olhos.
 
Por residir próximo, acompanhou a construção do prédio do hospital, visitou a obra diversas vezes. Era concursado, vivenciou muitas histórias e dramas. Alguns com final feliz, muitos outros nem tanto.
 
O Hospital Municipal do Campo Limpo, na área do Jardim São Luiz, continua atendendo a população dia e noite, porém com a ausência de um dos funcionários mais antigos. Em uma das folgas, Noel foi mais uma vez para a serra do mar, seu último passeio.
 
Quando escuto as sirenes das ambulâncias, quando passo próximo ao hospital, sinto um vazio e uma saudade dolorida. 
 
Noel não entregará mais medicamentos aos pacientes, nem mesmo empurrará uma maca, nem falará com os médicos, nem contestará alguma situação delicada como fez, apesar da obediência a ética. 
 
Não assistirá as tragédias, aos dramas de quem precisa ser atendido para salvar a vida. Não implicará com algum enfermeiro ao demorar algum atendimento, nem mesmo falará com algum vizinho ao ser atendido por lá. Ele não observará pessoas chorando na partida dos seus familiares. 
 
Aliás, costumava dizer que na hora da partida muita gente chorava é por arrependimento. Ele não está mais lá, onde trabalhou com tanto orgulho, onde passou parte de sua vida prestando um bom serviço.
 
Noel foi mais uma vítima de nosso transito caótico. Estava pedalando e um veículo não estava na distância regulamentar de 1,50 m. Não teve a chance sequer de ir a um pronto-socorro.
 
São Paulo é uma cidade gigante, um dia nos orgulharemos por sua ciclovias.
 
E-mail: dagazema@gmail.com
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Publicado em 29/04/2015

Mais do que ciclovias, São Paulo se orgulha dos seus filhos, mesmo aqueles a quem ela adotou, tal qual o Noel.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 27/04/2015

Marina, imagino que o Noel seja seu irmão. Mas o que importa é que o nosso Noel viveu por completo. O seu relato foi brilhante para uma pessoa igualmente brilhante. Um verdadeiro ser de luz. Lindo perfil de um cidadão que soube honrar sua belíssima e difícil profissão e ainda conseguiu tempo e energia para viver plenamente. Siga em paz, Noel. E seja muito feliz onde estiver. Fica aqui o nosso respeito e admiração. Um beijo, Marina.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 24/04/2015

NOEL MORENO LEITE é o segundo filho de minha mãe, meu único irmão no Brasil. Estou muito sentida com o ocorrido no dia 02.02.2015.

Ele era dedicado no trabalho dele, no Hospital Campo Limpo (Santo Amaro). Como aprecio ler e comentar neste site SPMC, bem como considerando a importância deste hospital na região, achei que seria interessante publicar este relato.

Éramos muito unidos, só Deus conhece minha dor e a saudades que sinto. Obrigada pela leitura e publicacão deste texto.

Marina Moreno Leite Gentile

Enviado por Marina Moreno Leite Gentile - dagazema@gmail.com
Publicado em 24/04/2015

Pelo sobrenome, creio que seja seu parente. Mas isso não impede que se faça uma avaliação do perfil do Noel através de seu belíssimo texto. Muito bem elaborado, seu trabalho dignifica a figura central dessa crônica, Marina com méritos, pois deve se tratar de uma pessoa insistente em seus desejos e firmeza de caráter em seguir suas metas. Parabéns, Gentile.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 23/04/2015

Marina, esta cidade é caótica, há muito desrespeito no trânsito e falta de cuidado e humanidade de muitos motoristas, é uma pena, parabéns pelo texto em homenagem ao seu amigo Noel.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 23/04/2015

Marina, uma bela história de um homem que sonhava e praticava seus desejos, e sem saber dele, sou vizinho ao Hospital Campo Limpo e não sabia que ali um Noel era todo dedicação em um mar de problemas que esse hospital possui, onde falta tudo, mas pena seu destino, parabéns pela homenagem, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
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