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Categoria - Outras histórias A seca na grande cidade Autor(a): Roberto Grassi - Conheça esse autor
História publicada em 13/04/2015
Não estamos no nordeste brasileiro e sim, na grande São Paulo. O sol do meio dia arde no crânio das pessoas. O sol flameja entre o surdo espectro abrasador da luz, como num grande forno a descoberto. A terra parece esquálida e funesta, calcinada no solo estorricado das represas quase vazias, aparecendo nas margens apenas alguns cardos retorcidos, epiléticos, ardentes, irrompendo duro e hostil no solo estorricado e ressecado.
 
 
O sertanejo expulso de sua terra natal, morador da cidade grande como São Paulo, conhece bem de perto esse cenário desolador; porém os da cidade, não estão habituados com a grande seca que impera nesta primavera de 2014 e durante o verão abrasador de 2015. Seria esse fenômeno um castigo da natureza pela destruição do meio ambiente pelo homem?
 
 
Não sei! Apenas de concreto é que estão secando quase todas as fontes de água potável e os regatos no entorno das grandes represas, resta apenas um filete d'água. O ar quente carboniza as árvores sequiosas de chuvas numa rútila de poeira vermelha de intensas ventosas.
 
 
A abóboda do céu parece uma concha de zinco em brasa. Das magras pastagens, os bois escaveirados de olhar moribundo e desesperado, que estão lá em baixo, ao pé do estábulo mosquento de varejeiras verdes, quase sem feno a mugir, por terra abandonados, junto às carcaças dos animais já mortos. É a seca nas fazendas do interior do Estado.
 
 
A cidade invoca, implora aos anjos tutelares pela chuva intensa, contínua, que, porém, não está por vir. Os círios nas igrejas da cidade grande e de todo o interior do estado, noite e dia, alumiam a imagem de Maria pedindo numa prece única pelo milagre das chuvas.
 
 
Como trêmulos ais de luz agonizantes a erguerem-se para o céu as orações e as procissões ululantes de penitencias e promessas mil, para Deus mandar as chuvas, enquanto os cidadãos da grande cidade estão esfacelando os pés rachados em busca de uma pequeno e miraculoso oasis no meio do arenoso terreno seco.
 
 
E, contudo, nessa aridez flamejante, sem um ramo frondoso em que uma única ave cante, nesse ilimitado calor abrasador, a cidade sofre com a grande seca sem trégua nos últimos oitenta anos.
 
 
E a tudo isso é que se chama progresso ó Deus desta farsa? Neste mundo burguês, encontrou-se sem fé, sem dogma, sem moral, onde a consciência humana é um monte de destroços. Essa crassa burguesia, essa cínica grotesca, que namora a Deusa da Carne e adora o Deus dos milhões do vil metal. Onde a agiotagem e a usura correm soltas na bolsa de valores, sob a cotação dos fundos das ações. É o rei dominador do mundo, é um senhor vital forte como o conhaque, onde engordai, engordai ó bravos homens sérios, para dar esterco aos cemitérios com seu ouro bancário.
 
 
Enquanto isso acontece, o sol flameja entre o sussurro abrasador da luz que queima, evapora, seca os mananciais entre os torrões calcinados do solo vermelho. Onde o cardo retorcido, epilético, ardente, rompendo duro, hostil, como a praga blasfema dum assassino que está destruindo a própria casa onde ele mora sem, no entanto, ter outra onde encostar o esqueleto no miserável corpo.
 
 
Secam-se de todo as fontes de captação de águas. O céu permanece azul, enquanto aqui na terra, carboniza as árvores sequiosas pelas aguadas da primavera e do verão.
 
 
Estaria o predador metozoário envenenado o asfixiante esplendor da atmosfera esbraseada terrestre com seu gênio destruidor? Estaria a cólera de Deus castigando a cidade nesta aridez flamejante?
 
 
Acho que não! Deus é infinito na sua bondade e há de fazer desaguar dos céus, entres as nuvens escuras muitas gotas das chuvas que irão superar as maldades dos racionais para com a natureza e há de cobrir com uma copiosa chuva abençoada a terra ressecada, estorricada. Deus é misericordioso e bom. Ele há de salvar a cidade e o planeta terra da grande destruição.
 
E-mail: jr_grassi@yahoo.com.br
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Publicado em 24/04/2015

Texto lindo, teor assustador em se tratando de algo tão essencial que é a água. Fomos acostumados a falar de outros lugares, mas agora o problema atinge a região mais rica do Brasil! Sinceramente, nunca havia imaginado isto. Triste chegar em casa após o trabalho e nem poder tomar um banho, fora outras necessidades essenciais. Aliás, imagino que o problema é de todos, mas acredito que algumas regiões sejam mais afetadas que outras. Minha mãe sempre reutilizou água, por questão de economia, mas muitas pessoas estão aprendendo e fazendo algo somente agora. Gostaria de saber se as indústrias, dependentes de água, realmente estão se empenhando. Tenho ouvido críticas sobre isto. A realidade é que o problema existe, foi deixado embaixo do tapete, existe questão política e a população necessita de resultados concretos e JÁ!

Enviado por Marina Moreno Leite Gentile - dagazema@gmail.com
Publicado em 15/04/2015

Roberto, muito oportuno seu comentario, infelizmente a irresponsabilidade do ser humano ao agredir a natureza esta colaborando para este estado de coisas mas com certeza o Ser Supremo dara um jeito para corrigir a situacao, parabens pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 14/04/2015

Só por Deus mesmo, Grassi. Só por Deus......

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 13/04/2015

Grassi, seu texto está tão bem escrito e ao mesmo tempo assustador, me senti no sertão do Nordeste, mas em São Paulo Capital apesar do calor choveu muito exceto Setembro de 2014,realmente aqui na cidade estão concretando e canalizando todas as nascentes e riachos, mas veja as incoerências, aqui na Zona Sul Santo Amaro temos duas grandes represas que somadas é maior que a Cantareira tão cantada em prosa e verso, que são as represas de Guarapiranga e Billings e elas estão abandonadas pelo poder publico principalmente a Billings, sempre me pergunto: O que é mais barato ou mais coerente trazer agua a quilômetros de distancias ou despoluir as duas represas? Pois ambas estão bem cheias. Portanto temos água, o que falta é vergonha e vontade política, parabéns pelo alerta, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 13/04/2015

Um hino a um acontecimento que, queira Deus não venha a acontecer. Um texto soberbo, abrangente e realista. Iniciando com uma apresentação apocalíptica, o Grassi nos presenteia com uma escrita de altíssimo teor qualitativo, expondo as chagas que resultam de uma seca que se nos avizinha, provocando temores da falta de água. Parabéns pela ótima narrativa poética, Grassi.

Modesto.

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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