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Categoria - Outras histórias O corintiano e o sociólogo Autor(a): Wanderley José Pereira dos Santos - Conheça esse autor
História publicada em 22/04/2015
Nesses dias em que estamos à toa refletindo mesmices em uma mesa de bar, no calor do centro de São Paulo, vi sentado ao meu lado um homem cujas rugas e o branco dos cabelos denunciava implacavelmente as marcas do tempo. Lia, avidamente, num jornal barato a seção sobre futebol. 
 
Quieto, inicialmente, seu modo mudou quando, querendo puxar conversa, perguntei sobre quem havia vencido o jogo no domingo. Olhou-me fixamente e disse, quase rosnando: “perdemos!”
 
Talvez por impulso, talvez por curiosidade, continuei perguntando:
 
- Qual é o seu time? 
 
- Sou corintiano! - respondeu. 
 
Tal fato aguçou minha curiosidade. Ele não disse o nome do time e sim, sou corintiano. Silêncio total. Resolvi não arriscar mais perguntando e quase já pedindo a conta para sair eis que, repentinamente, levantou-se, sentou ao meu lado, sem pedir e com olhos juvenis discorreu sem permitir apartes sobre um tema que há muito desperta minha atenção: a relação entre a fé, a crença e o sagrado.
 
“Meu amigo - falou em tom quase pausado - ser corintiano é algo inexplicável, seja por palavras, gestos ou frases. É algo que somente quem o é, consegue entender. O dia de jogo do Corinthians, aqui ou do outro lado do mundo, não é um dia comum. As horas demoram a passar. À medida que os segundos e minutos se sucedem aumenta o pulsar dos corações apaixonados. Mesmo a distância, a visão do estádio cheio ecoando o grito de guerra ofusca pensamentos que não seja o do brilho incomum de onze destemidos guerreiros deslizando sobre o tapete verde que reflete orgulhosamente a crença emotivamente vencedora do seu destino.
 
O hino profético que exalta sua glória e enaltece seu passado vai tomando conta dos sentidos criando uma atmosfera de encantamento e magia que aumenta o sentimento da fidelidade que perpetua a força dominadora da religião. O brado incontido “VAI CORINTHIANS” ecoa forte e uníssono na voz de milhares de fiéis seguidores.
 
Guerreiros sem rostos vestidos de branco e preto perfilados orgulhosamente sob o manto sagrado, preparam-se para a batalha protegidos por centenas de corações e mentes que acreditam fielmente na força da vitória. O choro contido no peito, os olhos mareados pela alegria de encontrar um tesouro, afasta temores fulminados pelo calor provocado nos gritos pela grande emoção dos seus gols.
 
Seu nome é divino, seu hino é contagiante, seus guerreiros são valentes, as cores que emolduram seu brasão são poderosas saciando a paixão que domina todos aqueles que beberam de sua fonte. No sorriso de bocas cansadas, no abraço de mãos que nunca se aproximam, irmãos se congratulam generosamente movidos pela paixão surgida desde as primeiras horas da vida ancorada na existência consciente de serem queridos e orgulhosos filhos que seu manto sagrado abrigou.
 
Ser corintiano é ter puro sentimento de lealdade intocável. Contém uma verdade que somente a alma pode sentir. Com a devida licença poética talvez Camões pudesse profetizar esse sentimento quando escreveu sobre o amor: ‘É um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer’. Isto é ser corintiano, amigo. É ser CORINTHIANS PAULISTA, falou solene!”
 
E se foi lépido, nem mesmo disse o seu nome... .
 
E-mail: wjpds@uol.com.br
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Publicado em 29/04/2015

Pois é, eu sei o que ele disse, porque eu sou. Mas note que, em nenhum momento ele falou em odio, rancor, violência ou qualquer outro desatino contra aqueles que não são. Pena que hoje exista um bando de covardes e imbecís que matam em nome de um time. Cretinos, idiotas, sejam eles de que time forem.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 24/04/2015

Wanderley, não consigo entender este amor por um time de futebol, tanto quanto a violência gerada por alguns torcedores, quando seus times perdem. Sinceramente, está acima da minha compreensão. Fui duas vezes a um estádio de futebol: uma na década de 70 e outra, recentemente, com meu irmão Noel Moreno Leite. Ele era corinthiano, o vi chorar quando adolescente, ao ver seu time perder um campeonato. Sinceramente!?

A bola, que os meninos brincam quando crianças, remete a uma paixão ao definirem seu time.

Meu saudoso irmão era um corinthiano, por isto .... Salve o Corinthians, campeões dos campeões....

(Que me desculpem torcedores de outros times.)

Enviado por Marina Moreno Leite Gentile - dagazema@gmail.com
Publicado em 23/04/2015

Wanderley, sou palmeirense de coração, mas admiro a fé da torcida do Corinthians, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 23/04/2015

Como foi colocada essa ode em forma de extrato filosófico, numa ousada elevação de um clube, seus torcedores e simpatizantes a uma posição de um culto religioso, com seus seguidores quase santificado, sem concordar, parabenizo vc, Wanderley pela sua criação.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 22/04/2015

Pois é, ele disse tudo, e que seja assim sempre, parabéns pela transmissão do fato, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 22/04/2015

caro Wanderley, é exatamento isso que o poeta corinthiano disse, sem tirar nem por uma vírgula;;;abraço, Beira

Enviado por José Camargo Beira - josebeira@hotmail.com
Publicado em 22/04/2015

Depois de ter sua primeira história publicada em 2012 sobre o Eder Jofre, parece que se animou em escrever novamente. Desta vez serei mais amena no comentário já que o primeiro da luta eu disse que não é um esporte e sim um modo camuflado de violência.Continuo a erguer a bandeira da paz ,violência de qualquer espécie é rejeitada por mim.

Sou de uma família totalmente Corinthiana desde pai,irmãos,sobrinhos filhos e netos .Meus filhos e sobrinhos iam aos estádios quando crianças,as netas mais velhas já foram, mas os mais novos já não deu mais ... pena, porque o espetáculo era magnífico e inesquecível para os que assistiam...Hoje a violência não permite mais nem ao menos usar a camisa do time.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
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