Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Meus desconhecidos, os ilustres “conhecidos” Autor(a): Wilson Natale - Conheça esse autor
História publicada em 07/04/2015
Oh! “Zé Prequeté”,
Tira bicho do pé
“P’rá comê” com café
Na porta da Sé.
 
Nessa quadrinha do século XIX, a molecada imortalizou o negro forro por idade que esmolava, sentado nas escadas, à porta da velha Sé de São Paulo.
 
Zé Prequeté foi apenas mais um entre os tantos ilustres desconhecidos “conhecidos” que o antecederam e os que vieram após ele.
 
O século XX, nas suas décadas, também teve a sua cota de ilustres desconhecidos “conhecidos”...
 
ANOS 60/70
 
Eu - o Office Boy - comecei a viver São Paulo no seu todo. Com o tempo, passei a perceber certas particularidades por vezes tão desconcertantes desta cidade tão próspera. Observando, descobri uma multidão anônima que parecia transitar invisível aos olhos do povo. Dentre esses anônimos alguns se destacaram ao ponto de fazer parte do dia-a-dia dos transeuntes e da história da cidade. E eu, nas minhas andanças conheci muitos desconhecidos que se tornaram ilustres:
 
O TÍSICO – Por anos ficou sentado à porta da Ordem 3ª de São Francisco. Magérrimo, aparentando mais idade do que realmente tinha, recitava versos clássicos, poesias dolentes entre os acessos de tosse e os escarros de sangue. Era um declamador nato! O povo o rodeava e ao sair deixavam-lhe boas esmolas. Ficou famoso. Mas não somente pelo dom de declamar. Descobriu-se que ele era viciado em ópio. Que a sua tísica era fingida e a tal cusparada sanguinolenta era provocada por uma agulha, com a qual ele disfarçadamente, feria a própria gengiva. Foi preso e desapareceu do Centro da cidade.
 
O LEPROSO - Esmolava na esquina da Rua Direita com a praça da Sé, junto aos tapumes de demolição do prédio da antiga “Casas Baruel”. Depois, ora no Largo da Misericórdia, ora na Praça Patriarca ele implorava pela caridade exibindo a sua dor e a perna coberta com uma bandagem suja a revelar sangue e pus. Implorava pelo óbolo que ajudaria a comprar sua caríssima medicação. Passa o tempo e ele não melhorava. A polícia vai atrás e descobre o engodo. Um dia os policiais chegaram de repente e para escândalo dos transeuntes, meteram-lhe o cassetete na perna enfaixada, arrancaram a espessa bandagem e trouxeram à luz o gambito perfeito do “pobre leproso”. Descoberta a farsa, nunca mais foi visto.
 
Mas nem só de expedientes fraudulentos ou escusos viviam os meus ilustres desconhecidos. Muitos pareciam mais a saltimbancos ou saídos da Commedia dell’Arte. Anônimos que, às vezes, com falcatruas rocambolescas, encenavam a sua tragicomédia de sobrevivência e nunca a tragédia de suas vidas.
 
DIANA - Catava papel. Seu reduto era o Largo Sete de Setembro. Era uma mulher negra, alta e esguia que insistia em usar pó-de-arroz branco e um incrível batom vermelho a delinear-lhe a boca sem dentes. Uma rosa de plástico enfeitava-lhe os cabelos. Faceira e cheia de dengos, vivia fazendo lanche com os advogados e contínuos do Fórum. Mas, era “movida a álcool” e, quando tomava todas e mais algumas, “pirava” de vez. Gritava, xingava, ameaçava as pessoas; tirava a roupa toda e ficava desfilando. Quando alguém tentava se aproximar para “tapar-lhe as vergonhas”, ela tirava da boca uma gillette e ameaçava. Só sossegava quando chegava a viatura da Ronda da Sé. Diana adorava os policiais. Então se recompunha, vestia-se e fazia “caras e beicinhos” para eles, toda sedutora. Um dia desapareceu.
 
RITA - Viciada em cheirar éter. “Fazia a vida” na Sé. Seu “ponto” era na porta do Theatro Santa Helena e, às vezes, na porta do bar que ficava nos baixos do Edifício Mendes Caldeira (o primeiro edifício demolido por implosão no Brasil), na esquina da Praça da Sé, com a rua Irmã Simpliciana (Stª. Teresa). Parecia uma garotinha. Era despachada, bem falante e adorava a molecada. Vinha rindo ao nosso encontro, sempre dizendo a velha frase: “Estudante paga ‘meia’ e office-boy também!” Matava-nos de rir quando dizia a sua frase preferida: “Vamos lá, minha gente. Estou em fim de feira. A xepa é mais barata!” Suicidou-se no fim dos anos 70, contaram-me, cortou os pulsos com um caco de vidro e morreu no parque Dom Pedro II, próximo ao Palácio das Indústrias... Pensei na ópera “Pagliacci” de Leoncavallo: “La commedia è finita!” A comédia terminou.
 
PÉ-NA-COVA - Era um pedinte que transitava pelos restaurantes e bares da Avenida Ipiranga, Avenida São Luís e Galeria Metrópole. Vinha aplicar o “golpe da receita médica”, dizendo-se “cardíaco, epilético, asmático, diabético”. Ríamos dizendo a ele: “Meu amigo, você está morto e não sabe!” Depois de 1968, nunca mais o vi.
 
VÓ - A figura mais doce e terna que conheci. E a farsante mais perfeita que conheci também. Era quase octogenária, vinha na madrugada, apoiada em uma muleta, a oferecer flores aos frequentadores do Arpéje, do Barroquinho, na Galeria Metrópole e do Paribar. Figura enternecedora e cativante a nos oferecer botões de rosas que não ousávamos recusar. Doía no coração ver aquela senhora lutando para se sustentar. Mas... Mas um dia, para variar, veio a polícia e esclareceu tudo. Vó tinha uma “capivara” que media metros e que vinha de décadas. Nela constava todo o tipo de “trambiques”, golpes, “contos do vigário”, “suadouros”, etc. E Vó foi presa, representado a doce velhinha florista, cujas flores eram roubadas pelos “pixotes”, lá no Largo do Arouche.
 
PAGANINI: Uma figura digna de um filme de Murnau. Intitulava-se “violinista incompreendido”. Circulava pela Praça Dom José Gaspar, onde, na calçada em frente ao Paribar costumava dar “audições”. Vez ou outra se exibia nas escadarias do Theatro Municipal. Ele era um “virtuose” psicopata a assassinar a obra dos grandes mestres e os nossos ouvidos. E, como um inquisidor, torturava magnificamente o pobre e nobre violino. Morreu atropelado na Rua Vieira de Carvalho.
 
Eis ai alguns ilustres desconhecidos que eu “conheci”. Alguns, entre os tantos, que dariam páginas de histórias. “Conhecidos” entre aspas porque conheci-lhes o existir e não o ser. Comprei-lhes a farsa que representavam e não a vida que viviam... Pena. As décadas passaram e, como disse o historiador Affonso A. de Freitas, eles “desapareceram na voragem do tempo”.
 
Em silêncio, como a não querer nada, eles entraram por todas as portas desta São Paulo e aconteceram por um ano, uma década ou mais. E, pelas mesmas portas saíram em silêncio, deixando suas marcas na cidade e nas lembranças de cada um.
 
E-mail: wilsonnatale@gmail.com
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 11/04/2015

Natale, eu também os conheci, \como você, conheci as farsas que essas figuras estrelavam com categoria impar. E constatei que como a fumaça, eles desapareceram no ar.

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 08/04/2015

A gente deve ser contemporâneo. Por motivos outros, que não vêm ao caso agora, também na minha juventude perambuleio pelos caminhos do centro velho e devo ter conhecido alguns destes seus ilustres deconhecidos.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 08/04/2015

Você mencionou personagens curiosos que fizeram parte da rotina de uma época. Mas tem muito mais! Nos trens e ônibus encontramos figuras com o dom da palavra. Nossa, tem cada história. Esta semana fui a um parque de SP, via trem, no retorno tinha um rapaz contando sua vida. O semblante da maioria das pessoas, retornando para casa, era de estar acostumadas. Nao sei de quem eu deveria sentir pena, dos trabalhadores retornando ou do orador do trem. Certa vez, voltando do trabalho, um sujeito ficou irritado comigo e quase me agrediu, era um louco. Apesar de nos sensibilizarmos temos que ter muito cuidado. Ninguém sabe quem são.

Enviado por Marina Moreno Leite Gentile - dagazema@gmail.com
Publicado em 07/04/2015

Natale, me lembro bem das figuras que você citou pois andei muitos anos pelo centro, na Rua São Bento andava também um velhinho já encurvado pelos anos que pedia esmola e dizia: "Ajuda o Vovô", personagens do teatro da vida nesta cidade gigantesca, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 07/04/2015

Natale, bom retorno ao site, e que retorno maravilhoso, um apanhado de desconhecidos que queira o não fizeram e fazem a história paulistana e que através de seu escrito tornaram se conhecidos e creio que ainda encontramos alguns desses golpistas por ai, da era moderna, parabéns pelos personagens, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 07/04/2015

"Natale, caríssimo fratello, per che me fai scrivi paroles al vento..., risponda, anche sea una sola parola... Cosi diceva Dante Aliguieri su la scura grota...".

Vc consegue reunir uma "troupe" de figuras artísticas que só conhecemos nas suas representações, alguns se revelando grandes artistas. Se vc me responder o último e-mail que te mandei, eu conto o que o Dante disse na entrada da gruta. Uma narrativa soberba, recheada de curiosidades num texto com parágrafos bem distribuídos, Wil, vc se superou, parabéns.

Laru

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
« Anterior 1 Próxima »