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Categoria - Outras histórias Recordações de uma família feliz Autor(a): Roberto Grassi - Conheça esse autor
História publicada em 13/02/2015
O sol batia em cheio nas janelas do sobrado da Rua Conselheiro Moreira de Barros. Tia Nina abriu as janelas.
 
- São dez horas da manhã. Vicente quer café?
 
- Que mania Nina! Quase todos os dias, você me pergunta sempre a mesma coisa. Sim senhora, quero sim!
 
Ela não disse uma palavra. Endireitou a gravura a óleo de Santa Teresinha do Menino Jesus, que estava constantemente torta, na parede da sala de visitas e seguiu para a cozinha. O café já estava pronto. Foi só encher a xícara, pegar o açúcar mascavo, pegar o pão na cestinha de vime e a lata de manteiga Aviação, e pôr tudo sobre a bandeja de prata. Mas antes deu uma espiada no quarto do Afonso para ver se estava tudo em ordem. 
 
Como de costume, na véspera do natal, havias duas pequenas caixas de uvas moscatel, todas elas importadas da Itália, e os vinhos trazidos especialmente para a ocasião, diretamente da região italiana de Valpolicella na região do Veneto.
 
Depois do café da manhã, o tio Vicente se espreguiçou todo na cadeira de balanço.
 
- E o Correio Paulistano já chegou Nina?
 
- Acho que ainda não veio. O jornaleiro costuma deixar o jornal na porta da rua.
 
- Veio sim senhora, disse o tio Vicente. Ouvi a campainha da rua tocar. Deve ter deixado na soleira da porta junto com os litros de leite que o leiteiro hoje deve ter madrugado.
 
Descer aquelas escadas do sobrado era cansativo, no entanto, tia Nina foi apanhar as encomendas. Depois, deixou tudo sob a pia da cozinha e foi varrer a sala de jantar. Os joelhos estavam incomodando. Havia já um tempo que o doutor Raimundo lhe havia receitado umas injeções de anti-inflamatório que lhe custara o olho da cara, e não tivera nenhum resultado positivo de melhora do quadro clinico.
 
Esperou pacientemente pelo Serafim Mendes, o verdureiro. Iria comprar dois pés de alface crespa. Não! Não, iria comprar as alfaces, porque alface dá tifo. Escolheu três abobrinhas italianas, alguns tomates maduros e um saquinho de molho de cheiro verde.
 
Hoje o dia seria cansativo. Tinha que lavar a cozinha, passar pano molhado na copa e no banheiro, encerar toda a casa. Matar dois frangos que a tia Madalena mandou pelo Anselmo. Fazer o caldo do molho do macarrão, e depois, ter que ir depenar na água quente os dois frangos caipiras, que estavam dependurados de cabeça para baixo, presos na maçaneta da porta da cozinha. 
 
Não podia também, esquecer do carvoeiro, e encomendar uma meia carroça de lenha, bem cheia e para hoje mesmo sem falta.
 
A indignação do tio Clemente com os suspensórios caídos na cintura da calça subiu ao auge.
 
- Porcaria de bairro! Não tem um pingo d’água nas torneiras!
 
-Na cozinha tem! É da caixa de reserva! 
 
Tio Clemente, encheu um balde. Levou ao banheiro.
 
Tia Nina pisando de mancinho entrou no quarto da Zezé. Ajeitou a colcha. Pôs a mão na testa da menina. Levantou a boneca do tapete. Sentou-a na cadeira. Endireitou o tapete com o pé. Apesar de tudo, saiu feliz do quarto da menina.
 
- Então Nina! - perguntou o tio Vicente.
 
- Graças a Deus está sem febre.
 
Tia Nina ficou apoiada no cabo da vassoura, rezando baixinho. Recomeçou a varrer a sala de visitas com mais fúria ainda. A Zezé se pôs a caminhar pela sala de visitas. Foi até a cozinha e besuntou um pãozinho com manteiga Aviação e enxugou as mãos com gordura na toalha de mesa.
 
Mas hoje, era a véspera do dia de Natal. Logo mais à noite, os convidados chegariam para a ceia especial.
 
O moleque do Anselmo tinha saído do Mandaquí, e foi pela linha do trem da Cantareira até Santa Teresinha. No caminho foi colocando pedrinhas nos trilhos do trem para ver se descarrilava os vagões. Nada aconteceu. Tinha estreado as calças compridas no casamento de sua irmã, a Nicolina. 
 
Naquele tempo, o Anselmo estava namorando a Josephina, sua vizinha de muro. No entanto, levou uma surra do enciumado primo da Josephina. Jurou vingança. Teve na vida muitas ambições. Por exemplo, queria ser artista do Circo Queirolo que tinha se instalado ao lado da estaçãozinha do trem do Mandaqui. Um dia, quase morreu afogado ao tentar atravessar da margem esquerda do Clube Floresta até a outra margem do Rio Tietê.
 
Mas, naquele dia tudo era santo. Foi até a igreja de Santa Teresinha do Menino Jesus e se ajoelhou no altar da santinha. Pediu perdão por todos os pecados cometidos, que por sinal, eram muitos e foi direto para o sobradão da Rua Conselheiro Moreira de Barros, onde logo mais à noite, iria comemorar com a família toda ali reunida mais um santo e abençoado natal.
 
Na sala de visitas, sobre o balcão, já haviam montado o presépio. Às dez horas da noite em ponto, o tio Tomás, chegou à porta do sobrado. Ele carregava no colo o Luiz. Tia Lucrecia, sua esposa, levava a sacola de fraldas da Maria Aparecida. A Bernardina segurava na mão do Felipe. Era a sagrada família que ali adentrava para a ceia de natal.
 
A família toda se aboletou em torno da mesa de jantar. O Luiz brigou com a Bernardina, por que ele queria sentar no colo da tia Lucrecia. Com o beliscão maternal ele se conformou e ficou em pé diante do pai. 
 
Os presentes natalinos começaram a ser distribuídos. O Tomás ganhou um paletó de alpaca. A tia Lucrecia recebeu um corte de tecido cor de rosa. A Bernardina ganhou uma bolsinha de couro e uma lata para pó de arroz. Os meninos ganharam lanterninhas e bolas de futebol e as meninas, bonecas. 
 
Realmente, essa era uma família feliz, naqueles distantes e saudosos natais da década de quarenta, no sobradão da Rua Conselheiro Moreira de Barros em Santana, especialmente no bairro de Santa Teresinha.
 
E-mail: jr_grassi@yahoo.com.br
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Publicado em 20/02/2015

Roberto, as donas de casa de antigamente realmente trabalhavam muito, escovão para lustrar o assoalho, tanque para lavar a roupa,mas você tem razão, a família era muito feliz, eu arrisco a dizer que a minha era quase a mesma coisa, parabéns pelo saudoso relato.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 19/02/2015

História linda e triste!!!

Enviado por verinha - veranadal@yahoo.com.br
Publicado em 16/02/2015

Flagrantes irremovíveis de nossa memória, tendo como fundo do cenário natais envolvendo famílias de décadas passadas, na troca de presentes e reencontros de parentes depois de vários meses. A menção de presépios, brigas de garotos, recém nascidos, tudo envolvendo véspera de Natal. Parabéns, Grassi.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 15/02/2015

Amei o teu texto, Grassi!

Veio-me à memória aquela mesma sensação gostosa dos velhos Natais.

Ao meu paladar e olfato vieram o sabor e odor do velho, sempre novo, do Bolla Valpolicella.

Abração,

Natale

Enviado por Wilson Natale - wilsonnatale@gmail.com
Publicado em 13/02/2015

Grassi, simplesmente magnífico! Adorei . Quanta vida e poesia embutidas nesses corações... Parabéns para todos vocês. Receba o meu abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 13/02/2015

Quantas saudades nos cercam...Família é família e sempre será.Presépio...quem será que não lembra? Hoje nossos jovens não imaginam o que seja e nem o significado de um presépio.Que pena...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
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