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Categoria - Outras histórias Memórias de uma galeria Autor(a): Miguel S. G. Chammas - Conheça esse autor
História publicada em 06/04/2015
Década de 70, mais precisamente 1974, eu, embora casado desde 1967, ainda buscava um rumo exato para minha vida profissional.
 
Decepcionado com a carreira artística, onde eu não conseguia ganhar o suficiente para sustentar a família, na época em número de três – eu, esposa e filha -, corria as ruas da minha São Paulo, tentando uma colocação.
 
A pesquisa era rotineira, no início das manhãs, antes do relógio marcar 6h, saia de casa na Rua José Cabral Pereira, 72 – Jaguaré, e ia em busca de um coletivo na Avenida Jaguaré para ir ao centro de Sampa. Antes de embarcar, comprava O Estado de São Paulo e, no trajeto ia vasculhando todos os classificados de emprego que me interessavam.
 
Chegando ao centro eu, de posse de alguns anúncios, separava os mais interessantes, colocava-os dentro de um roteiro e, preparado, partia para mais um dia de buscas. Era sacrificante, mas não podia dar sorte para o azar, uma hora eu sabia, iria aparecer algo interessante. E, lógico, surgiu.
 
Era um pequeno anúncio recrutando profissionais das áreas de contabilidade, administração e finanças, com alguma experiência. A apresentação deveria ser à Rua 24 de Maio 62 – 5º andar.
 
Para lá me dirigi. Já na 24 de Maio, busquei o tal nú0mero e parei em frente a uma grande Galeria de lojas (hoje galeria do Rock), achei meio estranho, mas avancei até o centro da galeria onde tinha um balcão de atendimento. Perguntei sobre a empresa do 5º andar e o porteiro, apontando um pequeno lance de escadas me encaminhou para um elevador privativo. Achei legal e pensei: “deve ser uma grande empresa”.
 
Desci do elevador e adentrei ao saguão do pavimento. Fui atendido, pediram para que eu sentasse numa “cadeira universitário” e preenchesse um formulário de solicitação de emprego. Depois passei por algumas entrevistas e fui, no meu modo de ver, avançando em busca da tão procurada vaga. 
 
Ao final das entrevistas fui convocado à retornar no dia seguinte e iniciar um treinamento remunerado até a próxima sexta-feira. A única duvida era por não ter sido informado do nome da empresa e qual seriam as funções dos candidatos selecionados, mas alegre com as possibilidades, fui para casa contente e esperançoso.
 
Dia seguinte seria mais uma etapa da busca de um sonho e eu a iria enfrentar com garra.
 
No horário aprazado me apresentei no 5º andar da Galeria e fui introduzido em uma sala de reuniões equipada com uma enorme mesa com mais de 15 lugares. Tinham candidatos de todas as idades e o primeiro contato com todos foi bastante formal e questionador. A pergunta era quase a mesma “o que será que nos espera?” e a resposta, nada reveladora, era “não sei”.
 
Estávamos assim, formalizando os contatos quando adentrou a sala um senhor alto e espadaúdo, quase totalmente calvo, portando nas mãos um enorme livro. Assumiu a cabeceira da mesa, olhou tranquilamente para cada um dos elementos e disse: 
 
“Bom dia senhores! Meu nome é Wilson Negrão, sou executivo da área desta empresa e nos próximos dias estarei com os senhores, ministrando um treinamento efetivo.
 
Posso garantir que a maioria dos senhores não chegará ao fim do nosso treinamento, um pouco por desinteresse, outro tanto por incapacidade, mas os que restarem estarão capacitados e, se quiserem poderão fazer parte do quadro de funcionários da Paes de Barros Associados – Engenheiros e Consultores LTDA. O pequeno livro (?) com que entrei nesta sala é o Manual de Normas da Empresa e nos iremos ler, discutir e entender, cada um dos seus itens para que admitidos não possamos alegar ignorância dos mesmos.”
 
Sentou-se e solicitou para que os participantes dessem seus nomes e principais características profissionais, para que todos os participantes pudessem se conhecer. Feitas as apresentações iniciamos o famigerado treinamento que iria continuar acontecendo por mais três dias com ele e alguns outros executivos da organização.
 
Eu comecei a perceber que a cada dia de treinamento, ao retorno do almoço, o grupo estava sendo diminuído. Discretamente os participantes que perdiam interesse ou que fossem considerados inaptos eram excluídos sem qualquer alarde ou comentário. Graças a Deus eu continuava no grupo, firme e forte.
 
Chegada a sexta-feira fatídica. Antes de sermos liberados para o almoço, o Dr. Wilson Negrão pediu nossa atenção e como se fizesse uma chamada de presença foi convocando cada um nominalmente, agradecendo a participação, entregando um envelope com o pagamento dos dias que tinha permanecido e liberando o participante.
 
A dúvida cada vez mais apertava meu coração, “fiquei ou não fiquei” era bastante angustiante.
 
O Dr. Negrão continuou chamando cada um dos participantes e, na sala só estávamos ele, eu e mais dois participantes quando ele, nos olhando com respeito evidente disse: 
 
“Senhores, como falei no início de nosso treinamento, poucos candidatos restaram. Os senhores são os únicos de um grupo de 16 participantes que foram escolhidos para incorporarem nosso quadro de funcionários e a partir da próxima semana, devidamente empregados, vão iniciar o treinamento prático tão comentado nos últimos dias. Parabéns!”
 
Com as pernas bambas e o corpo todo trêmulo recebi com emoção aquele veredicto e tive a certeza que estava iniciando naquele momento uma nova e promissora carreira como consultor de organização de empresas.
 
Foram vários anos que me permitiram obter muito sucesso e, também conhecer muito de nosso Brasil. Valeu a pena.
E-mail: misagaxa@terra.com.br
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Publicado em 08/04/2015

Miguel, você está de parabéns pela persistência e conseguir o tão esperado emprêgo apesar de todo o segrêdo que a empresa aplicou até o final do curso, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 07/04/2015

Que satisfação aos três participantes dessa escolha, Miguel, entre 16 candidatos vcs, os únicos a preencherem os itens exigidos pela empresa. Isso é que é capacidade e para o Chammas, não houve impedimento algum. Parabéns, caríssimo amigo Miguel.

Laru

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 07/04/2015

Mais dia, menos dia a gente sempre chega lá.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 07/04/2015

Chammas, no decorrer de seu texto imagina que esse emprego fosse uma armadilha como soe acontecer em cidades grandes, como vendas de carnês fantasmas, mas deu tudo certo, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
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