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Categoria - Outras histórias Bolinhas de Sabão Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 12/03/2015
Quando criança gostava muito de brincar com bolinhas de sabão. Passava as tardes ensolaradas sentado na mureta da varanda com a canequinha de esmalte vermelha, descascada de tanto uso e os canudos de mamonas colhidos no terreno baldio em frente à minha casa. Isto tudo foi na década de 1960, no longínquo bairro do São Domingos, no Butantã. Ainda me lembro muito bem que, por vezes, para produzir a espuma, usávamos sabão em pó das marcas Rinso ou Viva, por vezes, o detergente ODD da Orniex - marcas que há muito saíram do mercado.
 
Não era fácil moldar esfera tão singular, tinha uma técnica para apanhar a espuma, soprar o canudo, com leveza para não estourar e soltá-la de mansinho, permitindo que flutuasse até alcançar as alturas. Momento de pausa para observar e com olhos acompanhar o trajeto da criação em direção ao infinito.
 
Já naqueles tempos e mesmo com pouca idade ficava a imaginar para onde iriam aquelas tantas bolinhas coloridas soltas pelo ar, a vagar. Nos meus pensamentos eu determinava o caminho a seguir de cada uma, como se fosse o senhor do destino.
 
Então, num sopro e uma bolinha de sabão se fazia, logo ela leve e solta vagava pelo ar. Assim como meus pensamentos vagos. Esta vai para Roma para com o Papa rezar. Outra com certeza logo estará sobrevoando o Morumbi torcendo pelo meu tricolor.
 
Outro sopro e mais uma esfera a voar com destino a qualquer lugar.
 
Notava que poucas conseguiam vingar, muitas numa fração de segundos estouravam antes de alcançar uma altura razoável. Mas tinham outras vitoriosas que iam longe, longe até a vista não mais alcançar. Para onde teriam ido aquelas tantas bolinhas de sabão, lindas criações, mas tão sensíveis ao vento?
 
Hoje, maduro e experiente faço um paralelo entre cada bolinha de sabão surgida numa brincadeira infantil e cada vida nascente. Num sopro surgimos, morremos ou seguimos em frente e, mesmo com todo o vento nos deixando, por vezes, à deriva. Fica a certeza que podemos triunfar e atingir o nosso objetivo.
 
E-mail: samuel.leo@hotmail.com.br
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Publicado em 18/03/2015

Não tenho bem certeza, mas acho que foi Pascal, um filosofo francês, que disse ser o homem, um caniço pensante, que é levado ao sabor dos ventos. É meio que como as suas bolinhas de sabão.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 16/03/2015

Pois é, Samuel, vc descreve virtualmente o nascimento de uma vida: primeiro, água com sabão, faz espuma, todas querem sair, vc assopra e elas vão muito bem formadas dando vazão aos seus devaneios, vingando algumas e outras, não mas, sempre alimentando a fantasia infantil que todos nós guardamos no mais recôndito de nossas almas. Parabéns, de Leonardo.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 16/03/2015

Escrito com a formusura de uma alma em cujo imo ainda lateja um coração infantil. Em minha infância também passava azos alegres fitando bolhas de sabão. O que mais me impressionava era sua iridescência. Era como se todas as cores bailassem à esfera flutuante. Com uma infância sofrida, não me inquietava aonde iriam as bolhas, porém como nossa existência é frágil e volátil, e o quão tolos são nossos detratores. Pouco profundos, como bolhas de sabão.

Enviado por Prof. Dr. Abbud - ceabbud@yahoo.com.br
Publicado em 13/03/2015

É mesmo Leonardo quantas bolhinhas de sabão e quantas desilusões e alegrias em nossas existencias,se contassemos, alias se conseguissemos contar até nós nos surpreenderiamos com a quantidade, que na verdade são pedaços de nossas vidas. Parabens belo texto.

Marquezin

Enviado por João Marquezin - joaomarquezin@yahoo.com.br
Publicado em 13/03/2015

Samuel, gostei e me vi na sua história, já contei quase uma centena de crônicas e principalmente da infância e nunca me ocorreu contar sobre as bolinhas de sabão e o canudo de mamona, onde também aproveitávamos o fruto para guerrear com outros meninos, parabéns, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 12/03/2015

Samuel, você descreve com rara clareza as diversas fases de nossas vidas, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 12/03/2015

Havia esquecido dos detalhes desta brincadeira tao gostosa, como por exemplo utilizar os talos de mamona. Poxa Samuel, fiquei tao alegre com este texto. Voltei ao passado em minhas lembranças. Lindo texto, emocionante.

Enviado por Marina Moreno Leite Gentile - dagazema@gmail.com
Publicado em 12/03/2015

Samuel, você se iludia tentando determinar o destino de cada bolha de sabão, sem saber que nossas vidas também são bolhas de sabão que a qualquer momento podem explodir e virar devaneio.

Enquanto isso não acontece, continua escrevendo, é muito bom te ler.

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
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