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Categoria - Outras histórias Persistência Autor(a): Célia - Conheça esse autor
História publicada em 17/03/2015
Quando morávamos na Vila Mariana, em São Paulo, costumávamos fazer caminhadas no Parque da Aclimação, diariamente, antes de levarmos as crianças ao colégio e irmos trabalhar.
 
Quando nos mudamos para o litoral, caminhávamos diariamente nove quilômetros pela praia.
 
Agora em Ribeirão Preto, sempre que possível fazemos nossa caminhada no Parque Curupira. É um lindo parque, com cascatas artificiais que são ligadas bem cedinho e que dão um charme todo especial ao local. Há também vários lagos, todos muito bem projetados.
 
Procuramos chegar cedo, pois o calor aqui é terrível! Desde o início, algo nos chamou a atenção: não importa o horário em que a gente chegue ao parque, "ele" sempre está lá! Pode estar muito frio ou muito calor, não importa! Pode estar garoando, mas sua presença é constante e certa.
 
O que é incrível é ver o caminho que ele percorre até a pista de caminhada do nível da rua: ele sobe vários degraus de escada, degraus íngremes e altos! Teria outros caminhos, mas ele só usa esse. Não sei se é porque seu filho estaciona a pick-up bem próxima à escada...
 
É um senhorzinho que já deve ter passado da casa dos noventa anos há muito tempo! É bem alto, curvado, bem magrinho e com seu infalível bonezinho à la Golias (meio de lado). Geralmente está com a barba por fazer e quando o imagino fazendo-a até me arrepio! Penso em como deve ser difícil para ele tal façanha!
 
Anda apoiado em uma bengala, o que lhe permite dar seus passinhos compassados em várias voltas pela pista arborizada e cheia de lagos com peixes e aves, inclusive garça cortando os ares do parque. Enquanto damos várias voltas, em passos largos, ele segue o seu ritmo de sempre, alheio a quem quer que passe por ele. Todos que passam por ele o cumprimentam, chamando-o de "Nono". Ninguém sabe o seu nome.
 
Certo dia, eu o observei tentando proteger seus olhos do sol com a mão em concha. Fiquei com muita pena e pedi para o Igor dar para ele um dos seus óculos de segurança, pois era escuro e resistente. Nos dias seguintes ele não apareceu. Ficamos preocupados achando que algo deveria ter-lhe acontecido. Cheguei até a comentar com o Igor que ele poderia ter morrido dormindo, considerando sua idade avançada ou que estivesse de cama.
 
Mesmo assim, deixamos o óculos no porta luvas. Um dia, ao chegarmos, avistei-o e pedi para o Igor ir buscar o óculos no carro. Ao alcançá-lo, expliquei que era para seu conforto, para que ele pudesse andar sem o sol incomodando. Ele agradeceu e disse que tinha óculos, mas não se lembrava de usá-lo. Aproveitei e fiquei conversando um bom tempo e me surpreendi com sua lucidez e bom humor! 
 
Contou sobre o bairro em que vivia com o filho mais velho - que todos os dias o leva ao parque em sua Mitsubishi L200. Disse quantos filhos e netos tem, que é separado da esposa e outras coisas que julgou interessantes e pertinentes comentar. Não fiz perguntas, só o deixei livre para falar, sobre o que quisesse e se quisesse.
 
O Igor chegou com os óculos e ajudou-o a colocar e nos despedimos.
 
Continuamos a vê-lo, mas nunca com a proteção dos óculos escuros! Continua usando sua mão para se proteger do sol.
 
O que sempre comentamos é como alguém, com a sua idade, consegue ser persistente em fazer sua caminhada, no seu tempo, mas com uma constância que nós não temos. Quantas pessoas de sua idade ou muito mais novos não têm essa determinação. Talvez seja por isso que ele ainda está entre nós, dando-nos uma bela lição todos os dias!
 
E-mail: rccsimonato@hotmail.com
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Publicado em 22/03/2015

Olá Célia:

Bom dia!

A sua história é linda.

Peço licença para fazer algumas considerações.

Ao longo de nossa jornada pessoal, vamos desenvolvendo a nossa própria filosofia, onde passamos a desenvolver normas que procuramos cumprir a risca, principalmente que os anos de jornada vão limitando os nossos movimentos, dessa forma cumprimos a risca e em detalhes os nossos movimentos, para que não sejam promovidas falhas mentais.

Muito bom, parabéns!

Enviado por André Luiz Penteado - andreluizpenteado@gmail.com
Publicado em 20/03/2015

Olá Célia:

Bom dia!

A sua história é linda.

Peço licença para fazer algumas considerações.

Ao longo de nossa jornada pessoal, vamos desenvolvendo a nossa própria filosofia, onde passamos a desenvolver normas que procuramos cumprir a risca, principalmente que os anos de jornada vai limitando os nossos movimentos, dessa forma cumprimos a risca para que não sejam promovidas falhas mentais.

Muito bom, parabéns!

Enviado por André Luiz Penteado - andreluizpenteado@gmail.com
Publicado em 19/03/2015

Ótimo, Célia. Muito lindo o seu relato, com um banho de humanismo e consideração ao sr. Nono. E como eles precisam de atenção e uma boa conversa! Por isso - também - meus parabéns. Lindo mesmo. Um beijo, querida.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 19/03/2015

Celia que interessante a tua cronica , pois eu fecho os olhos e me vejo nela . Nao sou tao velho como esse velhinho, mas ja alcancei a idade do

"Condor" (com dor aqui com dor ali)e com a graca de Deus ja ultrapassei o numero 8 e com isso as bencoes que Deus nos proporciona.Temos eu e a Lourdes minha esposa , duas bisnetas e outro ou outra a caminho ainda nao sabemos,mas quando disse que me vejo nessa cronica e porque esse problema dos oculos escuros eu tambem sempre tive . Quanto as caminhadas , nao so as faco como tambem cuido do meu pomar e do meu jardim ,corto a minha grama .Trabalhei ate os meus 70 anos e depois disso continuei sempre me exercitando e como diz a Lourdes carrego pedras enquanto descanco . Mas podes ter certeza de uma coisa: essa determinacao desse velhinho e o que o mantem deste lado da vida, porque realmente o trabalho ou o exercicio nao mata ninguem ,mas enobrece. Eu tenho momentos aqui que meus vizinhos param para me fazer perguntas de como eu tenho sempre tanta determinacao de fazer tantas coisas diariamente , mas se eu fizesse como fazem muitos velhos depois de se aposentarem eu ja estaria no outro mundo a muito tempo.Celia mais um otima cronica continue sempre e pena que o nosso Site esta tao devagar parece ate esse velhinho dando esses passos compassados.Como gostaria que eles voltassem a publicar inumeros textos diariamente como antes.Sera que ele esta ficando muito velho? espero que nao , e que voltemos a te-lo outra vez em "full speed" e deliciar essas cronicas como a tua .Parabens Celia . Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 18/03/2015

Para caminhar, sabendo dosar o tempo, o espaço e os saudáveis "intervalos comerciais" (paradinhas pra descansar) a gente ganha alguns anos de vida a mais. Parabéns, Simonato.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 18/03/2015

É sempre assim. A persistência vence até que um dia,mas chega uma hora que ela perde.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 17/03/2015

Célia, você tem razão, sómente as pessoas persistentes e determinadas conseguem atingir seus objetivos, por isso conseguem fazer coisas que as vezes achamos impossíveis, parabéns pelo seu texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 17/03/2015

Este senhorzinho sabe da importância do caminhar e é um exemplo.

Belo texto, fiquei encantada.

Enviado por Marina Moreno Leite Gentile - dagazema@gmail.com
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