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Categoria - Outras histórias O varal da minha infância Autor(a): Samuel de Leonardo - Conheça esse autor
História publicada em 17/11/2014
Embora morássemos numa casa pequena e modesta, tínhamos o privilégio de desfrutar de mais dois lotes baldios que faziam divisas com a nossa propriedade. Tornara-se hábito usufruir daquele extenso espaço como se fosse o nosso quintal.
 
Aproveitávamos para ali fazer a nossa praça de futebol. Apesar de o solo ser um tanto íngreme, percebia-se que tinha um arremedo de campo pelo simples fato de ter as áreas de jogo demarcadas e duas traves de madeira em lados opostos. Naquele campinho sempre que houvesse folga da escola travavam-se empolgantes porfias.
 
Porém, nem sempre era conveniente disputar uma partida naquele terreno já que mamãe, juntamente com vovó, decidiu também se apossar do local, montando ali dois varais para colocar as roupas lavadas para secar.
 
Os tais varais eram confeccionados por grossos fios de metal flexível, suas pontas presas às traves, na verdade os nossos gols. O centro de cada um dos arames era sustentado por varas de bambu que, uma vez erguidas, impediam que as roupas colocadas se arrastassem pelo chão de terra batida.
 
Nas manhãs de sol escaldante era comum estenderem lençóis que, de tão alvos, refletiam o brilho por toda parte. Lembro-me ainda das peças de roupas coloridas expostas lado a lado formando um imenso painel. Foi justamente num dessas manhãs que vovó, percebendo que eu carregava uma bola, dirigiu-se a mim e recomendou:
 
- Moleque, num vai chutar bola agora não. Passei toda a tarde de ontem e a manhã de hoje lavando as roupas. Eu acabei de colocar tudo no varal pra quarar.
 
Respondi dissimuladamente:
 
- Pode deixar vovó, eu tomo cuidado!
 
Menino desatinado que era não respeitei as ordens. A princípio só e sem muita empolgação comecei a rolar a bola pra lá, driblando cada uma das sombras das peças estendidas, sem maiores implicações. A coisa estava muito monótona até chegar um amigo que também se pôs a tocar a bola.
 
Um chutinho aqui, outro ali, íamos nos distraindo, já não mais se importando com as recomendações da simpática velhinha.
 
De repente, um petardo do colega e o objeto esférico vai de encontro às varas de bambu que davam sustentação aos imensos varais.
 
Calças, camisas, camisetas, anáguas, combinações, cuecas e calçolas se espalharam pelo chão. Percebi que entre todas aquelas peças, na verdade eu que me encontrava em maus lençóis, envolvido em uma situação embaraçosa e pra lá de grave. Não pensei duas vezes: de imediato fui até a casinha do Dique e o soltei das correntes, empurrando-o em direção ao campinho.
 
Aos gritos apontava para as roupas caídas sempre repetindo:
 
- O Dique escapou! Derrubou o varal! O Dique escapou! Derrubou o varal!
 
E-mail: samuel.leo@hotmail.com.br
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Publicado em 21/11/2014

Safadinho! Tem situações, Samuel, que não acontece o diálogo "concreto" entre as duas partes: o esforço desmedido da avó e o direito ao lúdico de qualquer menino com uma bola nos pés. Parabéns, apesar de tudo. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 21/11/2014

Peraltices e travessuras nunca faltaram na infância de todos nós. Sujar roupa lavada, então, nem se fala. Simpática sua história, Samuel, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 18/11/2014

Que saudade daqueles varais, enfileirados de roupas coloridas em que os pingos de água que escorriam das roupas torcidas apenas pelas mãos abençoadas de nossas mães teimavam em cair aceleradamente até cessar

Lavavam a roupa de todos, e as da casa no tanque, com água puxada do poço e ainda com tantos outros trabalhos conseguiam nos educar e nos conduzir para o caminho do bem.

Estas peraltices de menino,serviam para movimentar o dia a dia da molecada e depois do acontecido a gente dava boas rizadas as escondidas....

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 18/11/2014

Eis aí o nome de seu melhor amigo, DIQUE.

Não é à toa que dizem que os cães são os melhores amigos do homem.

Bela história, mas todos ficaram com dó do Dique.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 17/11/2014

Samuel, que pecado que você cometeu com o Dique. Certamente, a vovó saiu correndo atrás dele, carregando a vara de bambu, para acertá-lo no primeiro golpe.

Essa você está em falta com São Francisco.

Pedro Nastri

Enviado por Pedro Nastri - p.nastri@yahoo.com.br
Publicado em 17/11/2014

Samuel, bons tempos aqueles quando tinhamos quintais para secar roupa e jogar nossas peladas, agora jogar a culpa no coitado do Dique foi uma grande sacanagem, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
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