Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias De São Judas a Pinheiros, um passeio domingueiro... Autor(a): Walter Handro - Conheça esse autor
História publicada em 12/11/2014
Em 1947, morávamos na Av. Fagundes Filho, em São Judas (ou melhor, Vila Monte Alegre). Eu tinha então sete anos. Meu avô morava em Pinheiros, na R. Simão Álvares com minha tia, havia ainda uma tia avó ali perto, na Fradique Coutinho. 
 
Às vezes (não muitas) íamos visitá-los. Nossa aventura começava antes do almoço, ali pelas onze da manhã. Naquele tempo, até meados da década de 50, não havia transporte coletivo entre os bairros. Para ir a qualquer lugar da cidade, sempre precisávamos passar pelo centro.
 
A “viagem” domingueira começava com 500 metros a pé pela poeirenta Av. Fagundes Filho (na época, Felício Fagundes) até a Av. Jabaquara. Para o centro, o ônibus 12, que vinha do Parque Jabaquara. 
 
Nessa época, o bonde da linha 23, Domingos de Morais, só chegava até a Praça da Árvore. Em toda extensão da avenida, até chegarmos na R. Domingos de Morais, somente a avenida era asfaltada, todas as transversais eram de terra. O ônibus chegava ao centro vindo pela Av. Liberdade, entrando na Praça da Sé, passando em frente ao Palacete Santa Helena, e parava bem em frente às escadarias da Catedral, ainda sem torres. Para retornar, dava a volta pelo outro lado da Catedral.
 
Para tomar o bonde 29, Pinheiros, ou o 28, Fradique Coutinho, precisávamos atravessar toda a R. Direita e o viaduto do Chá. Aí, o trajeto inesquecível: logo no começo da rua, à direita, a Joalheira Worms, com vitrines imperdíveis para minha mãe. Depois, na esquina da Quintino Bocaiuva, a Casa Bevilacqua, loja de discos e instrumentos musicais. 
 
Logo em seguida, à esquerda ainda, o inesquecível Bar Viaduto. Comprido, chique, com fileiras laterais de mesas com poltronas duplas estofadas, separadas por muretas, e o restante da área central com mais mesas. No fundo, um mezanino com uma orquestra, músicos de smoking, violinos e piano. Ali, nosso imperdível almoço: empadinhas, coxinhas e de sobremesa, os sorvetes, cassata ou spumone. Voltando à rua, à esquerda, o Cine Alhambra, e as lojas populares (Americanas, Brasileiras e Reunidas), e do outro lado os magazines (Casa Slopper, Galeria Paulista de Modas, Tecelagem Francesa).
 
Adentrávamos a Praça do Patriarca cruzando a Rua São Bento. Nesta, de frente para a Praça, o prédio da Rádio Cruzeiro do Sul; à direita, quase na esquina da Rua Libero Badaró, uma loja de brinquedos, imperdível na época de Natal: a Casa São Nicolau. 
 
Chegando ao viaduto, o Palacete Prates, que compunha a paisagem do Anhangabaú, que seria destruída 20 anos depois. Atravessado o viaduto, na Xavier de Toledo, finalmente, o ponto do bonde em frente o prédio da Light e do Mappin Stores, e o Theatro Municipal.
 
Já no bonde, a subida da Consolação, o cine Ritz (onde hoje é o Belas Artes), a Av. Dr Arnaldo, os cemitérios e a descida da Teodoro Sampaio. O bonde 29 ia até o Largo de Pinheiros. Já o 28, entrava na Fradique, só um quarteirão, que era calçado. 
 
Só havia um par de trilhos, o bonde não manobrava. Para voltar o condutor (ou motorneiro) trocava os comandos, a traseira virava frente, e o bonde voltava! Da Rua Cardeal Arcoverde para cima, em direção à Vila Madalena, a Fradique era terra... Para a casa do meu avô, descíamos na esquina da Simão Álvares, e subíamos até sua casa, entre a Cardeal e a Aspicuelta. A rua também era de terra. A casa, daquelas simples e típicas ainda encontradas em bairros antigos da cidade, com a entrada lateral após subir-se uma escadinha.
 
Após o lanche, a conversa dos mais velhos, o encontro com o primo e primas, a volta. Da passagem pela Rua Direita, a lembrança de um costume dos sábados à noite e tardes/noites de domingo, que perdurou até o fim dos anos 50: as calçadas dessa rua eram tomadas por uma grande maioria de negros, com suas roupas domingueiras, sapatos de duas cores, gravatas e lenços coloridos, um jeito meio malandro de vestir, enquanto a maioria de moças, faceiras, desfilava ao longo da rua. Até o fim dos anos 50 esse encontro perdurava. Depois, não sei. Nunca mais passei pela Rua Direita num sábado à noite ou domingo à tarde...
 
E-mail: wthandro@yahoo.com
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 21/11/2014

Walter, você retratou fielmente parte do caminho, que eu e meus pais, fazíamos para ir do Jabaquara para a Casa Verde onde morava nossos parentes. A única diferença é que o onibus prá lá saia da Av. Rio Branco.

Eu nasci em 1948 morávamos na Rua Ibirajá. Estudei no Almirante Barroso e no Ginásio Jabaquara. Obrigada pelo texto que me fez recordar grande parte da minha vida. Abraços / Irene

Enviado por Irene Grigaitis Gangi - iggangi@uol.com.br
Publicado em 16/11/2014

Que delícia, encontrar primos e primas e ainda aproveitar esse belo passeio.

Parabéns, pelo texto.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 14/11/2014

Sua história anterior,me comoveu muito e me fez ver que era vizinha do velho e sózinho pé de jabuticaba na esquina da Av.Fagundes Filho com a Major Freire onde trabalho.Todas as vezes que passo em frente a ele o reverencio falando em silêncio com seus galhos tímidos e podados que sei da sua história...Agora voce enche meus olhos de lágrimas em recordar toda esta trajetória citada por você e partilhar contigo que eu andei várias vezes neste bonde e que o Viaduto do Chá ao lado do Mappin foi o palco de uma das minhas histórias contadas neste site(Eu vi o Papai Noel)na qual eu nunca mais esqueci...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 14/11/2014

Um retorno, num texto bem distribuído, em cada recanto, esquina, rua, avenida, condução, bairro, passeio, enfim que proporciona uma volta aos bons anos das décadas do pós-guerra, onde sentíamos as transformações nas no cotidiano. Interessante e bem redigido registro, Walter, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 13/11/2014

Walter, nos anos 1960s eu fazia esse deslocamento diariamente, Caxingui/Água Funda, caminhadas até o Largo de Pinheiros, bondes sequentes até a Pça da Árvore, ônibus ou ida à pé pela Fagundes Filho até o serviço (perdeu o ônibus para Diadema, azar seu!). Saía de casa às 9:00h para entrar às 12:30h e às vezes chegava atrazado. Quando saí da Botânica prometi a mim mesmo que nunca mais iria trabalhar tão longe, mas em 1985 fui trabalhar na Siderúrgica Aliperti na Enfermagem do Trabalho; nessa época eu já tinha meu fuscazinho, o que facilitou um pouco minha vida, mas a Água Funda continuava longe prá xuxú o que complicava um 2º emprego; no entanto Deus sempre dava um jeitinho de me ajudar e eu ainda estou por aqui...

Abraço do Ignacio

Enviado por Joaquim Ignácio de Souza Netto - joaquim.ignacio@bol.com.br
Publicado em 13/11/2014

Walter, muito bom, quanta recordação, quanta memória e saudades, viajei com com voce e imaginei esse caminho que só conheci nos anos 70, já com o desenvolvimento total, mas deu para imaginar, parabéms,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 13/11/2014

Walter, peguei "carona" nesse seu passeio. lembro-me bem do ônibus "12" que fazia a linha Praça da Sé/Jabaquara, nesse tempo eu era ofice-boy lá na Rua Do Riachuelo, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
« Anterior 1 Próxima »