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Categoria - Personagens Caso do mingau de maisena Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 15/08/2014
Sob a rala iluminação de uma lâmpada de 60 Watts, eu, no meu silêncio ansioso, me preparava para fazer o mingau de maisena para o meu pai. Devia ser outono, tempo do cinza que convida às dúvidas e angústias da depressão, do não poder ir além. Tempos de poucas certezas.
 
Bem antes do início da minha juventude, eu já tinha que lidar com as agonias da fragilidade da existência, com a supressão de uma eventual e longínqua alegria e com a morte do meu pai batendo à porta. Antes: batendo na vidraça com insistência feroz quando teimávamos, humanamente, em pegar no sono. Os risos e brincadeiras de uma criança normal eu não tive – nem a petulância de sonhar com a felicidade -, naquele nosso sobrado do Cambuci.
 
Com a pequena panela na mão, eu ia me preparando para ligar o fogo e fazer a mistura. Triste mistura! Um homem de quarenta anos tendo que se alimentar como bebê, sempre à procura de leite e de sopa de legumes e macarrão cabelo de anjo. As dores contínuas e lancinantes não o permitiam sequer pensar num churrasco, num bom naco de frango assado, numa magnífica porção de strogonoff. Não, não! Longe disso. Longe da vida.
 
Misturando o leite, a maisena e um pouco de açúcar, eu ia imaginando como seria viver com alegria! Um exercício de imaginação com culpa e muita vergonha, pois a realidade – amarga e ácida – se desfilava pelos meus olhos míopes todos os dias, infalivelmente.
 
Insuportável fazer uma porção de mingau para um homem de quarenta anos. Homem magro, pele brilhosa de sofrimento, olhar grande, grave e duro.
 
E eu, imaginado o que seria da minha vida naquele Cambuci.
 
“Se um dia eu tiver um filho... não, ele não vai tomar mingau. Nem comer queijo branco. Sopa não! É sacrilégio. Fígado... nem pensar. Ele vai comer comida de gente feliz”.
 
Os dias não passavam. Iam todos se arrastando em meio às tristes porções de gelatina de morango e a casa sem flores. Nenhuma violeta. Apenas o vaso de antúrios da minha avó, até meio escondido, tímido, envergonhado por existir no nosso minúsculo quintal. Um dia minha avó viajou para o Paraná. As flores não suportaram a solidão daquela que era a pessoa mais equilibrada da casa. Não esperaram nada, nenhuma explicação e morreram no dia seguinte.
 
O mingau tinha que esfriar naquele prato fundo... Detesto pratos fundos. Não tenho nenhum na minha casa. Odeio pijamas e outono. Repudio o cinza e tudo o que me lembra a ausência de vida, de alegria, de riso e de cor. E eu olhava com compaixão meu pai se alimentando do mingau, pelas beiradas do prato. Silencioso, comia vagarosamente, deixando sempre sobrar uma parte.
 
Com profunda timidez e sofreguidão, muito lentamente, fui inventando a vida. Com aquela curiosidade de menina, de olhar pelo olho mágico da grossa porta de madeira que dava para a rua Albuquerque Maranhão. Colocar a mão na maçaneta da vida era um atrevimento, uma ousadia ilimitada. Comecei a ensaiar os meus primeiros passos da caminhada com a minha amiga Ana Isabel, moradora de um cortiço na rua Ana Néri. Pessoa de profunda sabedoria na sua rala juventude. Moça negra, filha de faxineira, que não se escandalizava com a vida e tentava soluções viáveis para cada drama da existência. Se eu pudesse, eu pediria a bênção para ela.
 
As primeiras idas aos museus de São Paulo, o olhar para os quadros... e mesmo não entendendo quase nada, eu tentava, de alguma forma, que falassem comigo, me dessem alguma direção numa caminhada tão solitária e de profundo medo.
 
E Eu voltava para casa... Muitas vezes fiz o mingau. Outras vezes, chá de erva doce. Colava à mesa com bolacha água e sal. Nunca um bom vinho com macarrão com molho grosso.
 
E eu teimava em olhar as luzes da cidade. Eu ia me aproximando da literatura da Cecília Meirelles, com a identificação de quem tanto havia perdido e aprendeu a lidar com a solidão.
 
Tentei declamar uma poesia do Jorge de Lima para a minha avó, numa noite no nosso quarto, quando ela já tinha suas retinas fatigadas... sob a lâmpada de 60 Watts.
 
Quieta, fui andando, sentindo como se os sapatos estivessem apertados tal a ousadia de fazer estrada... limpando as lentes dos meus óculos. Fui andando, primeiro pelas ruas do bairro, ouvindo o caminhar das pessoas, indo sozinha até o consultório do dentista, indo ao Peg Pag comprar o básico, ouvindo o desfilar do ônibus Fábrica-Pinheiros pela Lins de Vasconcelos.
 
Sem dizer nada a ninguém, fui ao Templo Budista procurar iluminação. Ouvir palestras, tentando compreender o que era o mundo, ter opinião, estar presente em algum lugar desse mundo, buscar cores e sabores.
 
Andei pela avenida Paulista, pela Mooca, pelo Bixiga, pelas ruas de São Paulo, da minha São Paulo, muitas vezes me escondendo da agonia por trás do prato de mingau de maisena.
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 09/11/2014

querida que lindo!!

amei a sua história,está cheia de vida e cores pode ter certeza!!!

Enviado por verinha - veranadal@yahoo.com.br
Publicado em 20/08/2014

Vera, caríssima, não sabia, seu pai viveu até 55 anos. Mesmo assim, ainda moço e vc, realmente teve muito mais rasões, ainda, para sua mágoa e tristeza. Me perdoe, querida. Um forte abraço.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 20/08/2014

Meu querido amigo Modesto, obrigada pelas suas considerações tão pontuais e francas, mas vale aqui uma observação: eu não pensei em traduzir o meu sentimento em revolta, mas apenas numa mágoa profunda da vida por essa questão tão difícil e complicada. Revolta não, mas tristeza, infelizmente, sim. O meu pai sobreviveu até os 55 anos de idade. No final, um infarto e dois AVCs no mesmo dia. Que esteja em paz. Um abraço e muito obrigada.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 20/08/2014

Prezada, você deveria escrever um livro.

Parabéns pela sensibilidade.

Enviado por Almir . - almir1960@hotmail.com
Publicado em 19/08/2014

Querida Vera.

Reli sua "Poesia da Revolta", por não ter chegado ao âmago de sua finalidade. Agora, acho que posso esboçar alguma coisa, que resumo como sendo vc, desesperadamente a procura de um "norte" pra seu futuro, pra seu amanhã, em museus, templos, bairros, amigas enfim, buscando aquilo que era seu e que te estava sendo, aparentemente, negado.

Em contrapartida, seu PAI, com apenas 40 anos, se agarrando as últimas tentativas de se manter VIVO, que também era seu DIREITO, não alcançou por indeferimento de nosso Criador, aceitou calado, sua curtíssima existência. Um abraço, querida Vera.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 19/08/2014

Que reflexões atrás de um simples mingau de maisena...

Você é demais, Vera. Tô arrepiada!

Enviado por Neide Gaudenci de Sá - neidegsa@gmail.com
Publicado em 19/08/2014

Modesto, como sempre o brilhantismo de seus anos e dos seus cabelos brancos, nos ensinam como sábio mestre que és. Senti toda dor da Vera, a quem chamo carinhosamente de irmã, mas não pude sentir a dor do pai. Imagina a dor de um homem ainda jovem, com 40 anos, que se vê impedido de prover sua família. Dor insuportável.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 18/08/2014

Vera, triste, muio triste este texto. Um dos mais tristes de sua autoria que eu tive oportunidade de ler. Mesmo assim, de construção magnifica. Nossos amigos em comum já teceram loas e vários elogios ao texto, assim me proponho , apenas, parar de ´pensar e sofrer. Já lá se vão os anos, o cinza já não se faz presente em tufa vida. Sorria, venha a Sampa e de mais uma volta por meu bairro. Aproveita em quanto ele ainda existe e resiste, e depois escreva um texto alegre para quebrar essa tensão.

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 18/08/2014

Muito bem, Vera, apesar da tristeza que pairava, você conseguiu passar por tudo isso buscando ajuda, e principalmente desejando que as coisas melhorassem.

Beijos Julia.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 18/08/2014

Querida Vera, detesto ler seus sofrimentos, mesmo que sejam no passado; suas palavras amargas, seu sentimento de revolta, sua busca de uma solução "insolúvel" por vc ter o senso de responsabilidade por demais acentuada. Já que nossa amizade permite certas observações, chamo sua atenção para trechos de seu texto, onde pode-se detetar colocações que soam como metáforas insidiosas nas frases que servem pra identificar seu desprezo por determinados objetos. Pratos fundos, eu adoro pratos fundos, vc detesta, sem nenhuma atenuante, por lembrar o mingau de maisena. O mingau lembra sua impossibilidade de "...não poder ir além. Tempos de poucas certezas." Quem é o responsável indireto pela situação? seu pai. Não gostei da frase formada assim... "para UM homem... quando o respeitoso seria "para O homem", (ou meu pai).

Vera, longe de mim querer te corrigir, acredite, apenas me compadeci de vc, mas muito mais de seu pai, com apenas 40 anos, na impossibilidade de um futuro e, no entanto, ser alimentado como um bebê, sofrendo dores horríveis, sem nenhuma esperança de ter um "amanhã".

Me perdoe, querida Moratta, sua brilhante poesia, (como sempre)ao degusta-la senti, no seu final, a preocupação em atenuar sua revolta, porém no termino da leitura deixou um leve sabor insípido, sem a alegria da mestra em suas elucubrações, cativantes soluções para determinados obstáculos. Um texto vigoroso, repleto de harmonia com seu viver. Concluo meu laudo saudando a poesia e o lirismo existente e aponto seu objetivo onde é esquecido o principal da narrativa, que não é o mingau de maisena e sim, SEU PAI. Parabéns, querida e um forte abraço de quem te quer muito.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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