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Categoria - Paisagens e lugares Meu Tietê Autor(a): Italo Denelle Venturelli - Conheça esse autor
História publicada em 05/08/2014
Tuas margens ficaram trancadas num muro de cimento cinza.
 
Tu que guardas nossos segredos escondidos, no lixo que insiste em boiar em tua essência.
 
Tu que a tudo recebes e que por encanto leva embora.
 
Suporta a lida humana que te trata desumana.
 
Quando tu te cansas e dá um basta na enchente, de repente, lá vem mais concreto que te afoga.
 
Tuas águas cada vez mais negras, como a dizer que choras por nós.
 
Mesmo assim suportas, tens comportas, e sabes que mesmo assim muitos te amam.
 
Você é meu, e não sei, mas de quem. Pode ser de quem quiser.
 
Nem acredito quando te vejo.
 
Como puderam te deixar assim, meu querido rio Tietê?
 
Sou teu tiete. 
 
Desculpo-me por não conseguir te dar a dignidade e o reconhecimento que mereces. 
 
Te vejo e a alegria do reencontro se transforma em tristeza por tua situação.
 
Em alguns rompantes de loucura, dá vontade de me jogar em tuas águas e fazer estripulia, chamar a polícia, a política e toda torcida, mas acho que de nada adiantaria.
 
Apesar de todo o sentido, ainda peço que resistas.
 
Mantenha seus segredos em suas curvas, e a retidão em suas retas.
 
Cuide das poucas árvores a tua volta e dos corvos que te ajudam.
 
Muitos nem te olham de vergonha pelo que fazem.
 
Não ligam para o cheiro e nem para a tua cor.
 
Nem mesmo sei por que te digo, mas te adianto que tudo isto vai mudar.
 
O homem se comporta como um burro, mas no fundo sabe que precisa de você.
 
Ainda haverá o tempo em que suas águas ficaram tão limpas e puras como uma lágrima, e saiba serão as suas, as nossas, a de todos.
 
Te peço mais paciência ainda. Choro por ti ainda preso. 
 
Tua calma me consola e sei que sabes que és eterno em meu coração.
 
E-mail: italov@varginha.com.br
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Publicado em 25/08/2014

Que lindo seu poema, para um rio agonizante.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 12/08/2014

Ítalo, parabéns pelo seu poético texto, um mixto de tristeza e saudade mas ainda mantendo a esperança de dias melhores para o velho Tietê, continue escrevendo.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 12/08/2014

Que texto maravilhoso e que vai direto aos nossos corações de paulistanos.Parabéns, dr.Venturelli!

Somos todos crias do Tietê: no passado, nadamos e pescamos em suas águas limpas e cheias de peixes; hoje, sofremos suas enchentes, que nada mais são do que a sua revolta pelo tratamento que lhe damos.

Enviado por Neide Gaudenci de Sá - neidegsa@gmail.com
Publicado em 08/08/2014

Poesia de nobre direção, de beleza extraordinária, numa construção de importância tal que não podemos encarar mais o descaso com grande Tiete, sendo enxovalhado por todos e não vejo mão que se ergue em sua defesa, como faz o Ítalo, com essa doce recordação de um amargo tratamento de uma população com seu rio mais famoso e importante. Parabéns, Venturelli.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 06/08/2014

Por não reconhecer seu nome neste site,entrei no "conheça este autor" E li atenta sua narrativa da estadia no hospital e do reencontro com o nosso ícone Paulo Autran.Mas foi na casa do Sr Christo que voce se jogou na sua infância e juventude,recordando momentos inesquecíveis e tão mágicos que ficaram tatuados dentro de você.

Seu tempo deve ser muito escasso,pois a cada dois anos é que volta a escrever para este site o que é uma pena...pois acho que sua trajetória de médico neurocirurgião e psicanalista,nos daria a oportunidade de ler relatos sensacionais e talvez muito desconhecido por todos nós,mas enfim resolveu voltar como poeta e despejou com pêsames e amargura em sua poesia, as atrocidades feitas com o Rio Tietê.Parabéns por registrar este fato tão doloroso,neste momento crucial em que vivemos e que muita gente ainda não se deu conta do que será de nós com a falta de água, ou melhor estamos assistindo calados e sem acreditar o fim e a morte da nossa reprêsa...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 06/08/2014

Parabéns! Sabe que fui no sábado dia 03 em SP, e fiquei pensando justamente em cada palavra que você descreveu! Ainda fiquei assustado com o rio tão baixo, tão miúdo, parecia tímido, parecia falecendo.Daí lembrei-me do rio teimoso, que feito anjos vem lá decima das pedras, desce rumo ao seu destino, a gravidade feito o amor, leva-o ao seu fim, limpo, capaz de desfazer-se de toda a miséria que enfrenta em seu curso, o Tietê é uma criança teimosa que apanha, que chora, que sofre por não entender os adultos,mas que tem a pureza na essência, depois de qualquer travessura, de qualquer castigo, a criança coloca um sorrisinho no rosto e o Tietê acaba mais limpo, respirando!

Enviado por Wander Luiz dos Santos - wandersantos23@gmail.com
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