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Categoria - Outras histórias Um pequeno incidente sobre a antiga ponte da Casa Verde Autor(a): João Marquezin - Conheça esse autor
História publicada em 06/08/2014
Este fato ocorreu no ano de 1951, porém não lembro em que mês ou dia. Nesta época contava eu com 16 anos, e como naquele tempo não havia leis absurdas que proibiam os menores de 18 anos de trabalhar, eu já era aprendiz de ajustador, numa metalúrgica próxima da ponte da Casa Verde, sobre o rio Tietê, no final da Av. Rudge.
 
O nome da empresa era Sociedade Industrial Sayon, e ali se fabricavam máquinas industriais. Trabalhavam-se 48 horas semanais, sendo que só se folgava aos sábados após as 13h, e ainda assim se fazia algumas horas extras. Do trabalho, íamos direto aos campos de futebol e o bate bola entrava noite à dentro. Só se parava de jogar porque não conseguíamos ver a bola, ela era de capotão e no escuro era difícil localizá-la. 
 
Vale dizer que naquela época, o principal meio de condução da população era o bonde, pois o ônibus, custando cerca de 20 centavos a mais, era menos usado.
 
Pois bem, vou falar desse fato que ocorreu sobre a antiga ponte de madeira, que existia ainda naquele ano. A nova ponte só seria inaugurada três anos depois, em 1954 - eu estava presente e quem fez a abertura da ponte foi o Adhemar de Barros, governador de São Paulo na época. Essa ponte antiga tinha a largura de mais ou menos seis metros, sendo que quatro metros eram o leito carroçável e um metro de cada lado eram as passarelas, onde os pedestres atravessam a dita ponte.
 
Este espaço, porém, era tão pequeno que na hora de maior movimento era arriscado os pedestres atravessarem a estreita ponte. Os bondes iam tão repletos de gente que quem estava a pé estava sujeito a levar empurrões e tapas na cabeça, por causa de algum engraçadinho que viajava nos estribos do bonde. Também vale dizer que, obviamente, só atravessavam a ponte um bonde de cada vez.
 
Como de um lado não dava pra se ver o outro, o motorneiro (condutor do bonde) descia da sua “cozinha” (onde ficavam os controles do bonde), se dirigia a um painel, que ficava preso a um poste, e acionava com uma chave especial um dispositivo que acendia, do outro lado da ponte, uma luz vermelha avisando que já havia um bonde adentrando a ponte. O bonde que se dirigia em sentido contrário aguardava sua vez.
 
Como eu morava bem próximo do meu serviço, íamos almoçar em casa. Morávamos na rua Zanzibar, e íamos a pé até em casa, onde mamãe caprichava no almoço.
 
Numa dessas travessias, feita sempre às correrias, pois tínhamos somente uma hora para o almoço, bem no meio da ponte em sentido contrário, vinha uma senhora com um embrulho nas mãos. Como aconteceu não sei, só sei que entre nós houve um “encontrão” e o tal embrulho, que nada mais era do que uma marmita para seu marido que trabalhava próximo dali, foi parar no fundo do rio. Nas águas límpidas do nosso mal tratado rio.
 
Pedidos de desculpas, de ambos os lados, não faltaram. Mas e o almoço do marido da mulher? O recurso foi dar a ela meus únicos dois cruzeiros, que tinha guardado nos bolsos, pra que ela comprasse um lanche para o esposo. 
 
O rio Tietê não era como é hoje, tão reto assim. Ali na ponte grande em Santana, havia corredeiras, com muitas pedras no leito do rio. A população fazia ali seus passeios dominicais e passeios de barcos, sendo aquele lugar muito procurado por todos da região e de outros lugares.
 
Esse é o fato inusitado, acontecido numa época em que ser marmiteiro não era desonra, mas sinônimo de gente honesta e trabalhadora. 
 
E-mail: joaomarquezin@yahoo.com.br
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Publicado em 12/08/2014

João, esse fato vem de encontro ao velho ditado que díz "a pressa é inimiga da perfeição", o amigo teve que desembolsar uma boa grana para repor a comida do marido daquela senhora, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 08/08/2014

Auspiciosa recordação, Ponte da Casa Verde, de lenho, só de pensar um bonde lotado, passando numa ponte estreita, (6 metros) de madeira... dá até arrepio. Mas, ela (a ponte) aguentou até a construção da atual. Quantas recordações, quanta saudades... Belo relato, Marquezin, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 07/08/2014

Meu caro João,depois de dois anos voltas a escrever novamente com o mesmo saudosismo da primeira história...Adorei saber que a Ponte da Casa Verde já foi de madeira e que mesmo assim passavam bondes e pedestres por ela...imagino o treme treme que devia ser na travessia.

Interessante que voce deve ter passado por muitos fatos pitorescos na sua juventude,mas este do encontrão na ponte ficou tão marcado que voce se lembra até hoje...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
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