Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Um Funeral Constrangedor Autor(a): Modesto Laruccia - Conheça esse autor
História publicada em 29/07/2014
Nota publicada no “Jornal da Tarde” de 12/08/1997, respeitoso diário de São Paulo (já extinto), do grupo do "O Estado de São Paulo", o maior e mais prestigiado jornal do Brasil.
 
"Um Funeral Constrangedor"
 
Pais de rapaz que morreu em atentado em Jerusalém não conseguiam enterrar o filho em cemitério judeu.
 
Num estranho e doloroso post-scriptum para as explosões da semana passada no mercado de Jerusalém, os pais de Grigory Pesahovic, de 15 anos, uma das vítimas do atentado, ficaram desesperados num cemitério por não poderem encontrar um lugar para sepultar seu filho. “Dêem-me uma pá... eu mesmo o enterro, não importa onde for”, disse o pai do garoto, Yevgeny, de pé ao lado do caixão e confortando sua ex-mulher que chorava. O caso ocorreu na semana passada e foi contado com detalhes pelo jornal israelense Maariv.
 
Inicialmente impediu-se o sepultamento de “Grisha” em um cemitério judaico porque ele não foi considerado suficientemente judeu. Depois, a família recusou o cemitério greco-ortodoxo do Monte das Oliveiras, porque não queria que se recitassem orações cristãs sobre seu caixão. Após impasse de uma hora, os pais do rapaz e as pessoas que acompanhavam o enterro não tiveram escolha: desceram a colina e levaram o corpo de “Grisha” de volta ao carro fúnebre.
 
O corpo de “Grisha” teve que ficar na geladeira de um hospital durante o sábado judaico. Somente no domingo, com a intervenção de um ministro e depois de apelos especiais ao Ministério de Assuntos Religiosos, encontrou-se um lugar no cemitério municipal de Har Hamenuhot, numa área reservada a seita Bahai – que não exige funerais religiosos.
 
O constrangimento que cercou o sepultamento ressaltou os amplos efeitos de crenças religiosas inflexíveis em Jerusalém. “Foi um espetáculo absurdo, trágico”, disse Yuli Edelstein, ministro do governo para os imigrantes. Após tomar conhecimento das dificuldades da família, Edelstein fez apelos frenéticos, por seu telefone celular, para encontrar um cemitério que aceitasse sepultar o rapaz.
 
O problema foi que “Grisha” – que emigrou da Rússia para Israel com sua mãe, Olga, há dois anos – descendia de um casamento misto. Seu avô materno havia se casado com uma mulher não-judia na ex-União Soviética. Embora sua mãe e seu pai se consideram judeus, tenham sobrenome judaico e tenham vivido como judeus na Rússia, por força da lei judaica “Grisha” não era judeu e não poderia ser sepultado ao lado de outros judeus.
 
“Ele viveu como judeu na Terra de Israel. Meu filho não era cristão. Não estou disposta a deixar que o sepultem como cristão” disse sua mãe. Edelstein acha que esse episódio grotesco poderia ter sido evitado se a família tivesse feito um pedido para que o corpo fosse sepultado numa das áreas recentemente reservadas em 16 cemitérios de Israel para casos como este, em que não se pode comprovar que o morto é genuinamente judeu.”
 
***
 
Essa nota propiciou uma carta que enviei ao jornal e foi publicado em 13/08/1997.
 
“Ao ler a reportagem ‘Um funeral constrangedor’ (Internacional, 6/8, pág.14) cheguei a conclusão de que o conflitos entre árabes e judeus não tem e nunca terão uma solução. A intolerância e o preconceito são combustíveis fáceis e abundantes para alimentar essa fornalha de ódio e vingança que tantas vidas tem ceifado. Como é possível se negar sepultura a um garoto de 15 anos (vítima dessa aberração que é o terrorismo auto destrutivo) pelo simples fato de seu avô materno ter se casado com uma “shoksa”? Que esdrúxula concepção de humanidade teria esse povo culto, que se diz vítima do “maior genocídio que a humanidade lhes impingiu”? Que desculpa teriam os que mantém abertas as chagas causadas pelo nefando e vergonhoso genocídio nazista, humilhando o pobre pai Grigory Pesahovic? “Ele não era suficientemente judeu”, foi alegado. Mas era um ser humano. Chega de fanatismo, de ignorância. Paz, pelo amor de Deus. Deus que é o mesmo dos judeus, dos árabes e de todos os que anseiam um dia viver nesta bendita terra cultivando somente o que Ele mais pregou: o amor.”
 
***
 
No dia 26/8/1997, o mesmo jornal, publicou uma carta da Sra. Trudi Landau, conhecida nas altas rodas sociais de São Paulo.
 
“Respeito”
 
A carta “Intolerância”, (SP, 13/8) de Modesto Laruccia, sobre a discriminação de um morto em Israel, mais uma vez prova que a solução global envolvendo absurdos e atrocidades cometidas em nome de algum deus, somente seria uma: abolir todos os credos, seitas e associações que possam ser considerados religiosos, colocando em seu lugar a ética. Em vez da utopia do irrealizável lema “ame ao teu próximo como a ti mesmo”, deveria constar o verbo “respeitar”, pois para agir de modo adequado não é necessário o amor que não se consegue comandar, mas o reconhecimento dos direitos e deveres de cada um. Não pratico religião alguma e não acredito em um ser superior que se preocupe com cada ser humano, cada animal e cada folhinha de árvore, mas assim mesmo consegui fazer uma porção de coisas em prol dos meus concidadãos, por meu anseio de justiça, usando somente a certeza de que não há sentido intrínseco da vida (tão procurado por alguns). Nós todos temos de dar sentido a vida, a nossa e a dos outros, todos os dias. 
 
Trudi Landau.
 
***
 
Isso tudo ocorre em São Paulo, pelo simples fato de ser nossa cidade onde, além da pujança incomensurável, existe a liberdade de imprensa, apesar de todas as tentativas de cercearem nosso maior bem: o amor pela paz e pelo trabalho.
 
Acho que já falei demais, né?
 
E-mail: modesto.laruccia@hotmail.com
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 19/08/2014

Laruccia

caro mio, voce tem que lembrar sempre que somos humanos, e como humanos procuramos nos apoderar de todas as coisas, inclusive das coisas ditas divinas. O absurdo narrado pelo jornal e muito bem comentado por voce, é de um repudio total pela humanidade. Deus, que não se manifestou e nem se manifestará pela humanidade ou qualquer outra espécie por ele criada, é totalmente imparcial e neutro. Se ele fosse interferir nas relações humanas já teria dado um jeito no planetinha azul, que estamos tornando cinza.

Enviado por Roque Vasto - roquevasto@gmail.com
Publicado em 04/08/2014

Infelizmente essa intolerancia sempre existiu .Realmente e uma questao religiosa , isso acontece a mais de tres mil anos. Vergonhoso mas real. Olhe para os dias recentes com essa guerra na Faixa de Gaza entre os Judeus e esse grupo terrorista o Hamas , e no meio deles os Palestinos inocentes morrendo aos milhares com a grande maioria de criancas e mulheres em abrigos da propria ONU. Sao coisas que nunca encontraremos explicacao , muito menos solucao. Parabens pelo texto e nunca e demais chamar a atencao para esses horrores pelo mundo afora. Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 31/07/2014

Perfeito, sr. Modesto. Tudo isso ocorre mesmo em S.P., onde podemos perceber cristãos, muçulmanos, judeus, espíritas e ateus conversando no boteco da esquina. O seu texto, para variar, impecável, bem como a resposta da dona Trudi. Outra coisa: o sr. nunca fala demais. É pontual e sempre muito oportuno. Parabéns e receba o meu abraço sempre saudoso.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 31/07/2014

Pois é, vemos que os judeus ainda agem pior que os nazistas em suas crenças de povo "especial" recusam até sepultamento por razões "religiosas" é de fato um povo primitivo ainda escravo de dogmas preconceituosos e preocupadíssimos em se considerarem "donos" de Deus e único povo eleito. Quanto ao comentário de Trudi Landau (judia?) sobre "o irrealizável lema" ame a teu próximo como a ti mesmo, gostaria de comentar que talvez um ateu não possa compreender a fundo seu verdadeiro sentido, unica solução para esta humanidade. Excelente texto como sempre !

Enviado por Alfred Delatti - apdelatti@ig.com.br
Publicado em 30/07/2014

Modesto, o dia que cada um deixar de fazer ao outro o que não quer para si, não será preciso Deus nenhum. Você não falou demais não.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 29/07/2014

Modesto:

Sinto-me confortável ao expor minha opinião a respeito destas guerras absurdas, onde, atrás de outros interesses, as religiões determinam o certo e o errado. Todas elas pregam amor, caridade, fraternidade, ....e outras bondades humanas......mas no fundo....a intolerância....o ódio ao próximo é o que impera.....

Ao ouvir diariamente, centenas de vezes: Graças a Deus...Se Deus quiser....Fica com Deus.....Deus sabe o que faz.....Deus é tudo....fico abismado de tanta falsidade .....e no meu íntimo fico pensando: Se Deus precisar de bajuladores, estará bem servido......

Enviado por Luiz C. Peron - luizcperon@bol.com.br
Publicado em 29/07/2014

Modesto, você não falou de mais! é intolerável exigir que o corpo de uma infeliz vitima de um atentado tenha que ser sepultado em terreno determinado por esta ou aquela facção religiosa ou política, o fanatismo religioso e político é deplorável em todos os sentidos, Jesus disse: amai-vos uns aos outros, não pregou a guerra entre os povos, chega de violência! o sol nasceu para todos, parabéns pelo histórico texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 29/07/2014

É isso querido Modesto, Essa Sra,Trudi Landau que diz que não pratica nenhuma religião, na realidade é a que pratica de fato, por essa razão hoje em dia se viva a mesma estiver eu a vejo como uma verdadeira Trudi Ferrari. Parabéns para você pelo seu texto e outro também para ela. Valeu a pena.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 29/07/2014

Modesto, seu texto vem comprovar a intolerância, a ignorância, a incompreensão de todos, governo, povo, religião, enfim vivemos e caminhamos para o fim, são séculos e séculos com esses problemas, coitado do ser humano desumano, que no vaso sanitário e embaixo da terra somos todos iguais, parabéns,Estan

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
« Anterior 1 Próxima »