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Categoria - Outras histórias Uma camisa de flanela... Autor(a): Luiz C. Peron - Conheça esse autor
História publicada em 29/07/2014
Hoje pela manhã, fui até a pequena chácara que tenho em Jaguariúna, São Paulo. Rotina de todos os dias: cuidar dos animais, alimentar os dois cachorros companheiros, algumas galinhas, e procurar o que fazer... o que sempre encontro.
 
O frio e a garoa eram cortantes, e a esposa zelosa, recomendou:
 
- Tem uma camisa de flanela no armário, use-a!
 
Cheguei ao meu cantinho. Acendi o fogão a lenha, que minha mãe muito usou, e ao ver o crepitar das chamas, o arquivo (às vezes falho) me levou a mais de meio século atrás...
 
Havíamos mudado para São Paulo: eu menino, o pai, os irmãos mais velhos, pedreiros, desafiando o desconhecido em 1948. Faz tempo, né?
 
E na garoa que encharcava as ruas da vila de terra, as pessoas passavam apressadas para "pegar" o bonde ou o ônibus para o trabalho - nas fábricas, lojas, construções.
 
São Paulo tinha um povo trabalhador, digno de respeito; fazendo aos sábados e domingos, em mutirão, suas pequenas casinhas, lá pros lados do longínquo Jabaquara, de Itaquera, e da Penha. Não esperando as benesses do governo, faziam acontecer!
 
E ao pegar a tal camisa de flanela, macia, quentinha, me pus a relembrar o quanto difícil era a digna vida que passávamos...
 
A mãe comprava, nas casas Pernambucanas, uns metros de tecido, de várias estampas diferentes, para atender os gostos dos filhos exigentes. E como ela tinha muito tempo disponível, cozinhava para a família, lavava a roupa do pessoal (sem água encanada, extraída de um poço), aproveitava para costurar nossas roupas. Ainda costurava para ganhar algum dinheiro, pois era uma privilegiada e tinha uma máquina de costura, coisa que as vizinhas não tinham.
 
E lá ia eu, amassando lama, andando da Vila Nair até a Rua Greenfeld... No Ponto Fábrica até o Grupo Escolar, aprender as primeiras letras, sílabas, orações, tabuadas, aquecido pela única blusa que tinha. Aguardava o recreio, para tomar a sopa de repolho, que sem nenhuma demagogia, era oferecida aos alunos...
 
Acho que aprendi a valorizar o pouco necessário!
 
E-mail: luizcperon@bol.com.br
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Publicado em 07/08/2014

Peron, temos histórias pessoais de infância e juventude muito parecidas...Quando leio suas saudosas lembranças e narrativas,volto aos meus tempos e sinto as mesmas saudades...Conheci a maioria dos bairros,das ruas,das lojas e dos comércios citados por voce, e me retrato ao ler o que escreve... por isso as vezes dou uma complementação esquecendo que a história é sua...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 31/07/2014

Certíssimo, Luiz. A gente ia aprendendo assim, no esforço e na dignidade e sem tanta reclamação como hoje. A propósito: acho essa modernidade insuportável pela quantidade de ofertas de todas as coisas que estão à disposição e, pior, pelo vício das intermináveis reclamações. Ótimo texto. Receba os meus sinceros parabéns e um abraço

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 31/07/2014

Prosaico e ditoso início de dia com recordações sobre o caminho percorrido, sem lamúrias e desgosto e, sim com bastante satisfação de ter chegado, até hoje, onde chegou. Sempre com a camisa de flanela. Bela narrativa, Peron, parabéns.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 31/07/2014

É verdade, nos frios da infância, tudo que precisávamos era apenas o carinho de nossas Mães mais nada. Parabéns pelo texto muito belo.

Enviado por Alfred Delatti - apdelatti@ig.com.br
Publicado em 30/07/2014

Peron, eu tinha pijamas de flanela. Eram muito quentinhos.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 30/07/2014

Walkiria;

Uma vez mais, voce me toma as palavras que eu não soube expressar no meu texto; Como gostaria de ter o dom de me expressar de forma mais nítida; sem receios, sem rodeios. Meu profundo: grato....Peron

Enviado por Luiz C. Peron - luizcperon@bol.com.br
Publicado em 29/07/2014

Peron, lendo esse seu brilhante texto transporto meus pensamentos para os velhos tempos no bairro do Ipiranga, eu também tive uma camisa de flanela que serviu para me aquecer no inverno, a vida era difícil mas com a graça de Deus chegamos até aqui, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 29/07/2014

E isso Peron, no passado era quase tudo feito em casa até a própria casa, as famílias de baixa renda, compravam um terreninho, ia pagando um pouco por mês, e depois iam aos poucos construindo a sua casinha que começava com uma edicula com dois cômodos e cozinha e banheiro, e depois com o tempo iam aos poucos sendo aumentados. Mas era outro mundo,ainda não existia a Televisão motivando o povo a comprar, comprar e comprar um monte de supérfluos o povo era menos consumista a luta das famílias era concentrada em fazer a casa. Hoje existem os carnê, o cartão de credito e o povo vai se endividando com geladeiras modernas, fogões de luxo, aparelhos de Televisão HD Carros do Ano, e as vezes tem tudo isso, e mora de Aluguel, Boa parte desse pobre pessoal que vive em favelas tem Televisão nova Geladeira e forno Micro Ondas ( que na minha modesta opinião é coisa mais inútil que existe só serve ara quem gosto ou precisa aquecer e descongelar alguma coisa).

No passado não havia quase consumo, o salario era pouco mais não era consumido inutilmente, era bem melhor empregado, Não é que o povo mais carente de hoje em dia não queira trabalhar ou seja vagabundo. Mas o nosso povo com pouca capacidade para ver, Julgar e Agir. ganha pouco, gasta demais em coisas fúteis, vive endividado. E isso não acontece somente com o pobre não. Tem até um pensamento que eu adoro. (QUEM VIVE COMPRANDO SUPÉRFLUOS, ACABA FICANDO SEM O NECESSÁRIO) e eu diria Acaba ficando endividado e sem o necessário. Parabéns ótimo texto para todos nós pensarmos e refletirmos.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 29/07/2014

O pessimismo não deveria ser o mote para os problemas que afligem o Brasil, mas sem dúvida nossos pais trabalharam muito para conseguirem ter um cantinho para viver. Na região de Santo Amaro, liberaram a geral e todo terreno vago está sendo invadido em todos os locais, até na Represa de Guarapiranga onde sai parte da água que abastece a cidade e já não tem mais controle. A água está toda poluída pelo esgoto que jogam “in natura”, e, além disso, a invasão se tornou um negócio lucrativo: muitas terras são invadidas e depois vendidas até por 50 mil reais cada lote. O governo não tem controle destes que vivem com este modelo de ação, não possuem um cadastro deste pessoal que age de modo pernicioso que vão invadindo em vários lugares para serem beneficiados com o lucro da venda de terrenos invadidos.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 29/07/2014

São Paulo tinha realmente um povo trabalhador...compravam um terreninho nas quebradas distantes e aos sábados e domingos juntavam a família as marmitas e rumavam a construir suas casinhas de dois cômodos nas quais mudavam-se depois de colocar as telhas,sem água muitas vezes sem luz sem nada naqueles mundão de Deus,onde os filhos caminhavam Kms para ir a escola e eles saiam de madrugada para o trabalho e assim iam terminando a casinha aos poucos sem nunca pensar em governo nenhum dar algo a eles.Hoje é o bolsa família,vale leite vale escola vale cidadão etc...etc...e este povo preguiçoso que ganha moradia ainda exige o lugar e as melhorias na casa sem ao menos procurarem um trabalho eles querem apenas ganhar!!!Nossas mães lutavam como leoas para nos dar educação e dignidade,diferente das milhares que jogam os filhos achando que o governo é que tem obrigação de criá-los.Se as escolas de hoje derem sopa na merenda,as mães botam a boca no mundo reclamando que isto não é refeição.Hoje meu amigo o povão não quer mais trabalhar e nem educar seus filhos,que acabam se perdendo na vida e virando os "di menores" que assaltam e matam os trabalhadores que ainda lutam para sobreviver com seu trabalho digno e educar seus filhos.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
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