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Categoria - Outras histórias Sem “chororô”. Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 28/07/2014
Então eu resolvi torcer nessa Copa. Resolvi mesmo. Pela primeira vez, pensei em assinalar os resultados dos jogos na tabela e fazer comentários com o meu filho. Dei palpites, fiquei “antenada” esperando as próximas partidas, ganhei num bolão.
 
Nunca fui desportista. Alguma memória guardei do torneio de 82. Recém-chegada das aulas ministradas no pré-vestibular, numa unidade em Santana, bem distante do meu Cambuci, cansadíssima de ficar tantas horas em pé, o meu pai abriu a porta da cozinha e, com as mãos na cabeça, disse: “A Rússia fez um gol”. Era ainda tempos de União Soviética e eu não dei a mínima. Não me levantei para ver o jogo e muito menos saber o resultado final.
 
Mas dessa vez eu resolvi colocar bandeira no carro, na janela da sala. Sem alarde, achei que a vitória seria nossa, dentro de casa.
 
E aí, a Alemanha resolveu ganhar à larga da nossa seleção.
 
Final do primeiro tempo: desliguei a televisão e fui passar roupas.
 
E pensei na herança desse evento.
 
Para mim, ficou a humanidade do David Luiz quando, no final do jogo com a Colômbia, abraçou ostensivamente o jogador rival que conseguiu fazer o único gol do seu time. E esse rapaz chorava. Trocaram as camisas e o David Luiz ficou vestido com a mesma até conceder entrevistas. Ficou a imagem da serenidade e do respeito por parte de um rapaz ainda tão jovem, mas que sabe dialogar, respeitar o sentimento de perda do adversário e essa imagem correu o mundo. Que bom! Pudemos mostrar que existem pessoas civilizadas na nossa sociedade, apesar de a mídia sempre apontar o contrário.
 
Ficou a entrada de muitos milhões de dólares, dinamizando a economia, além das centenas de novos empregos criados. Maravilha!
 
Ficaram muitas melhorias urbanas, que serão aproveitadas por um número muito grande de pessoas, a belíssima recepção aos visitantes, a organização, o questionamento sobre a nossa péssima e degradante auto-estima.
 
Mas ficam outras coisas também: é preciso aprender a não colocar o coração inteiro naquilo que depende somente do outro. Vendo pessoas chorando, principalmente crianças com a boquinha aberta em pleno Mineirão, fiquei pensando: É preciso aprender que o mundo não está aí para nos servir. O “mundo mundo, vasto mundo”, é de todos, não importa se eu me chame Raimundo. Existem sonhos, mas existe também a realidade. Que é bom dar alguns passos para trás, às vezes, sem tanta dor. Para que, outros passos para frente aconteçam com segurança. Ser brasileiro “com muito orgulho e com muito amooooor” representa – ou poderia representar –, o exercitar de um compromisso constante para que as coisas melhorem. Primeiro, trabalhar o brio no seu sentido mais amplo: a dignidade, a seriedade nas relações, o não aproveitar de situações em que outros se atropelem. Respeito sincero para com a bandeira, com o nosso chão. O chão onde pisamos e nos sustenta. Respeito para com o outro, que a gente se relaciona e que merece ser visto e tratado como irmão. Parar de ficar fantasiando ou culpando, quando nós somos responsáveis pelos nossos destinos.
 
A Alemanha ganhou o jogo, mas merecia ganhar?
 
Há trinta anos, frequento regularmente as colônias alemãs de Santa Catarina. Jamais percebi por ali o autodeboche, a autodesvalorização, mas antes a valorização do trabalho, da cultura e da própria história. É comum a reverência ao passado de sofreguidão dos desbravadores e, a valorização do esforço coletivo em prol do bem comum. Os defeitos acabam se apequenando diante da grandeza do trabalho executado com firmeza.
 
Foi o trabalho que tirou a Alemanha do caos. Perdeu as duas guerras mundiais, sendo que, no final da primeira, foi brutalizada pelas determinações do Tratado de Versalhes em 1919. Infelizmente, o nazismo triunfou por mais de uma década, mas, pela honra ao trabalho e à cultura do seu povo, depois dessa tragédia irreparável, incomensurável e inesquecível, o país voltou a se erguer.
 
Mesmo com enganos colossais e hediondos, o país se fortaleceu e foi buscar de volta o seu orgulho nacional.
 
Precisamos, depois dessa surra assistida pelos quadrantes do mundo, discutir essa coisa chamada “amor próprio”. E que a bola chutada nos campos ceda lugar a outra bola: aquela fincada na ponta superior do pescoço. E, essa sim, que sirva para nos colocarmos frente ao mundo: buscando soluções verdadeiras para os nossos problemas crônicos, não criticando pelo vício de criticar, mas, sim, de encontrar alternativas para aquilo que não funciona a contento. Que a bola sobre o pescoço melhor se comunique com o coração, não para um sentimentalismo piegas, mas para a convivência saudável, dialogal. 
 
Sem o nosso miserável e vicioso “mi mi mi” de pessoas emocionalmente débeis, que gritam contra a corrupção, mas se vendem por qualquer vintém. Essa bola sim, que segura as duas orelhas, uma de cada lado, que merece um trato refinado. E aquela boca, que existe na parte da frente e é uma só, propositalmente para que seja menos usada, que fale o construtivo e que os sons emanados dali sejam de bom senso e banhados de sensatez, distante do sarcasmo, da maledicência, dos palavrões que afrontam a dignidade de qualquer ser vivente.
 
E se perdemos feio na partida contra a Alemanha e vier alguém dizendo que foi pela falta do Neymar, tanto pior. Isso mostra a nossa dependência psicológica e uma boa dose de irresponsabilidade. Isso nos faz, ainda mais, bebês chorões que costumam não encontrar saída para nenhuma situação embaraçosa.
 
Abra o olho, Brasil! Que essa sova histórica sirva para dizer que, para amarmos verdadeiramente o nosso país, devemos lutar para que todos vivam com dignidade e respeito. Que devemos ser honestos e íntegros, e ensinar essa atitude para os nossos filhos cotidianamente, mesmo que uns tantos riam de nós. Que devemos ser responsáveis pela vida que criamos e nunca esperar soluções de quem não quer nos oferecer nada ou quase nada. Que devemos olhar adiante com esperança e alegria, mas cumprindo as exigências do cotidiano com presença e seriedade. Sem patriotada sazonal. Com compromisso em todos os campos e não só no Mineirão.
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 04/08/2014

Vera, assino em baixo. Não tenho forças para escrever o que senti.

Grande lição!Nada se consegue na base do carisma e do ôba-ôba.

Conscientização, seriedade e trabalho, sim!

Enviado por Neide Gaudenci de Sá - neidegsa@gmail.com
Publicado em 04/08/2014

Pois e Vera minha querida , lendo teu texto vejo que a certa altura voce pergunta ! Sera que que a Alemanha merecia ganhar ? Eu realmente acho que sim ! porque os jogadores brasileiros estavam como baratas tontas atingidos por um inseticida mortal.Dos sete jogos que a Alemanha jogou eles tiveram dificuldades de ganhar em pelo menos 5. Com um empate de 2x2 contra a Gana 2x1 contra a Argelia e 1x0 contra USA 1x0 contra a Franca eles so foram convincentes contra Portugal que tambem jogaram muito mal 4x0 e na final foi 1x0 na prorogacao e os hermanos tiveram muitas chances de terem saidos campeoes, ainda bem que nao aconteceu , pois so isso e que nos faltava , torci bastante para a Alemanha. Entao concluindo quem perdeu fomos nos pela maneira tao displicente com que jogamos . Nao e desculpa nao mas acho que sempre que o Brasil jogar daquela maneira vai ser goleado por qualquer selecao , principalmente se tivermos um tecnico arrogante como o Felipao . E nao vejo muito futuro com as novas escolhas. Parabens pela excelente maneira que voce retratou as falhas que cometemos em todos os campos da nossa sociedade sempre tentando arrumar uma desculpa para nossos desacertos.Abracos querida Vera . Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 31/07/2014

É impressionante a verbosidade e perspicaz elegância falar sobre um assunto demasiado abordado por todos e, sob um ângulo diferente de visão, diluir em vários parágrafos, uma contenda que trata de roteiros bem mais importante. A Vera consegue, sem apelar para recursos "rasteiros" demonstrar o principal objetivo de seu texto, distorcendo valores insignificantes, transformando-os em exemplos de concepção social bem elevada. Parabéns, querida Moratta, abraços e paz.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 31/07/2014

Agradeço a todos os amigos os comentários simpáticos e gentis, mas, meu querido Luiz, você não pode mencionar a palavra inveja", pois você é um escritor brilhante e muito elegante nos seus textos. Obrigada pelo comentário, e eu admiro muito o seu modo de escrita. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 31/07/2014

Mario de Andrade dizia que " do fundo da imperfeição de tudo quanto o povo faz vem uma força que é equiparável a fé na religião..." ele se referia aos artistas do folclore brasileiro. Seu texto me levou a recordar isso, e penso que ainda estamos muito longe de termos uma identidade como nação, somos parece, ainda um povo que caminha em busca de seu próprio rosto, temos fé, garra, vontade, mas ainda nos falta essa identidade. Obrigado pelo estimulo !

Enviado por Alfred Delatti - apdelatti@ig.com.br
Publicado em 29/07/2014

Vera: Já fiz comentário, de quanto lha invejo, pela capacidade de transmitir de forma clara e brilhante, os mesmos sentimentos; a mesma percepção do..do...do ..não sei o que, do pensamento da massa brasileira...

A sua facilidade em dizer as verdades....sem ofender....sem magoar a quem entende-las; realmente me causa inveja......

Enviado por Luiz C. Peron - luizcperon@bol.com.br
Publicado em 29/07/2014

Belo Texto querida e grande Vera, maravilhoso, concordo com ele na integra, só acho que a gente tem muito mais a aprender com o Time lutador e cheio de garra da Argentina, do que com o time altamente técnico e super treinado da Alemanha, acho que o espirito de luta do Argentino por muito pouco mais muito pouco mesmo, não venceu essa Copa. E olha que oportunidade não faltou ao manos. Parabéns.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 29/07/2014

Vera, a verdade é que fomos "engolidos" pelo melhor futebol da seleção alemâ, chega de choradeira, eles foram superiores: ponto! nossos jogadores abusaram do "salto alto" e o resultado não tardou a aparecer, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 28/07/2014

Realmente lamentamos eternamente com muito nhém-nhém-nhém e nada efetivamente compromissado com o bem estar coletivo, Somos um país belíssimo, mas onde os governantes gostam de lamentar de ter sido um dia uma colônia e sempre por a culpa em alguém, nunca assumimos compromissos coletivos e sempre somos aportados com o paternalismo de migalhas vindas das mesas de outrem. Vivemos sempre com o chapéu na mão a mendigar um quinhão para sobreviver!As transformações começam em cada lar e em toda escola, templos sagrados da educação, sem ela nunca sairemos deste marasmo "coletivo" de chorões pedintes!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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