Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Aulas de Francês Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 21/07/2014
Foi nos meus tempos de sexta série que tomei o primeiro contato com a língua francesa. Fascinante, foi o momento de aprender a cantar a Marselhesa e mesmo outras músicas mais populares. O professor, austero e conservador, não se conformava com os destinos da cultura do pós-guerra.
 
Não tinha jeito: terminada a II Guerra, o Inglês se impôs como língua dominante, bem como a moeda - a ideologia então, nem se fala. A língua de Voltaire, de Rousseau, de Montesquieu, de Rabelais e toda a glória deixada pelos iluministas ficaram abafadas, pelos avanços da superpotência hegemônica e não havia discussão. As propagandas, o avanço da sociedade de consumo, a difusão dos shoppings, o rock nos convidavam a mergulhar num mundo bem menos filosófico, menos humanista, mais competitivo e muito mais carregado de individualismo. O sonho do consumismo passou a povoar as mentes e a busca da essência do homem foi ficando cada vez mais incômoda.
 
Em 1971, eu cuidava do meu caderno de Francês com um zelo extraordinário, como vim a cuidar dos meus futuros cadernos de História e de Literatura.
 
O meu colégio, hoje centenário Nossa Senhora da Glória, próximo ao largo do Cambuci, foi um dos espaços culturais mais importantes da minha existência. Ali comecei a minha caminhada, valorizando o aprendizado, lento e dificílimo para mim. E fui percebendo o valor do esforço, da acolhida e do apoio de alguns professores. Sou muito grata a esse colégio, que me abriu portas para o mundo. Mas foram apenas dois anos de aulas na língua de Diderot. A língua inglesa foi se colocando no nosso calendário, nem pedindo licença para as outras disciplinas. Sentou-se no colo da grade curricular e nunca mais saiu. A língua do dominador veio pra ficar.
 
Quase três décadas depois, meu marido e eu resolvemos nos matricular na Aliança Francesa de Florianópolis.
 
Mas com quem deixar o filho recém-nascido? A solução: eu iria às aulas às segundas e quartas e o Nelson às terças e quintas. Feito.
 
Muitas alegrias. Filho pequeno, pais estudantes, novas possibilidades e nada de ficarmos nos contentando com o conhecimento até então adquirido.
 
Mas o que também é vital: a brincadeira. Logo na época da matrícula, o Nelson percebeu que havia uma professora muito bonita, elegante e simpática. Não tardou que chegasse para mim, cheio de entusiasmo, e dissesse:
 
- Você vai ver, vou ter aulas com aquela professora loirinha. Ela vai me ensinar a falar “mon amour”, “mon chéri”, “bien, merci”. Vai fazer biquinho dizendo “jê t’aime”.
 
- Sim, vamos ver. Eu também não vejo a hora de começar.
 
E lá ficou o meu marido a me infernizar e eu a rir de tanta bobice.
 
Barulho de chave na porta.
 
- Filho, o pai chegou. Vem no colo, filho fofo, vem. Vamos perguntar pro papai como foi a aula.
 
- E aí, Nashinho? Teve aula com a professora loirinha?
 
- Não. O professor é o Pierre.
 
Sem ser racista, mas o Pierre era um baita de um negão da Costa do Marfim. Rs rs rs rs rs.
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 18/08/2014

Cara Sra. Vera Moratta,

A língua Francesa já foi rainha, mas hoje não é mais.

Um "horrível cartão de visita" é apresentado nos aeroportos de Paris quando o visitante fala Inglês.Embora eles compreendem e até falam Inglês são rudes e não respondem.

Uma certa vez depois de terminar o meu contrato no Brasil em um voo com a minha família de São Paulo a Manchester na Inglaterra tive que trocar de aeroporto em Paris (de Orly para Charles de Gaulle).

No aeroporto de Orly as minhas 2 meninas queriam ir ao banheiro e eu somente lembrava o nome em Inglês "washroom" e nada mais.

Eles compreendiam muito bem, mas se faziam de desentendidos.

Esta foi a última vez que eu vi Paris, embora hoje eu moro há 1 hora e 1/2 com o trem bala de Liège até Paris, e falo Francês fluentemente.

Eu prefiro passar as minhas férias em Dublin, Cork e Galway na Irlanda, Budapeste na Hungria, Porto ou Lisboa em Portugal, Riga na Letônia, do que ir a Paris. Eu não preciso falar Húngaro em Budapeste ou na Hungria e muito menos Letão em Riga na Letônia, o Inglês é suficiente.

Abraços desde Juprelle na Bélgica

Ademar

Enviado por AZLerose - mchale326@hotmail.com
Publicado em 23/07/2014

Que fria , hem? Com um negão desses, seu marido iria ver, o que é bom Suar. (risos).

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 23/07/2014

Moratta, sei que vc não é disso mas, jogar um feitiço em cima de seu marido, essa foi demais...!

Quanto ao domínio do inglês logo depois da 2ª guerra, lembro muito bem. Não por que estudava mas por ser fanático por cinema e, no anos de 1940 em diante, o cinema americano não dava trégua pro cinema europeu. Os grandes diretores do leste europeu, debandavam pra Hollywood.

Sua prosa está muito boa, querida, bem redigida como sempre. Parabéns, Vera, um forte abraço e muita paz.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 23/07/2014

Vera, que decepção! por essa o maridão não esperava, espero que pelo menos ele tenha aprendido a falar a língua francesa, parabéns pelo comico texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 22/07/2014

Pois, é a vida sempre recomeçando, no aprendizado, na criação, na filiação, félicitations et longue vie France, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 22/07/2014

Engracada sua cronica , mas realmente quando a gente quer alguma coisa sempre arruma um geito de contornar os obstaculos , e voces conseguiram frequentar as aulas sem descuidar do bebe recem nascido .Do idioma frances tenho boas lembrancas pois era um bom estudante nos meus tempos de ginasio no fim dos anos 40 inicio de 50 . Parabens Vera pelo texto muito gostoso de ler.Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 21/07/2014

Como houve inversão no conceito de uma outra língua ministrada nos colégios e para nós foi colocada o francês. Meu professor era Morreau, um tanto enérgico obrigou-nos a entonar a Marselhesa como norma e depois impingiu a dureza da gramática, que nos obrigava a estudar com afinco no Ministro Costa Manso, no Itaim Bibi, SP. Hoje nem a língua de de Espanha nos é obrigatória para a integração com a América Latina. Parabéns pela crônica.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
« Anterior 1 Próxima »