Leia as Histórias

Categoria - Outras histórias Aulas de piano Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 10/07/2014
Naquela tarde eu comecei a pensar que caminhar pela vida seria possível.
 
Eu poderia, triunfalmente, começar a ser.
 
O piano, inerte e fechado num canto da sala. O piano! 
 
Quantas vezes eu passava por ele sem olhar, correndo para não dar tempo de sentir as lembranças e o som enjoado do solfejo da minha própria voz, as notas que eu não sabia decifrar das partituras, a cobrança para ser, um dia, como Pedrinho Mattar. 
 
Eu corri muitas vezes e até tirar o pó e passar lustra-móveis era uma tarefa, para mim, dolorosa e aflita.
 
A Marta resolveu me pedir umas aulas de música e disse que me pagaria por isso. Amizade um tanto efêmera, a Marta tinha problemas auditivos – quem sabe esse foi um dos motivos que fez com que ela acreditasse em meus dotes musicais.
 
Acertamos então: por mês o valor das aulas seria de 15 cruzeiros. Um montante camarada, afinal, ela teria que pedir o dinheiro para a mãe, uma enfermeira sorridente e, de tão sofrida por um casamento desastroso com um homem constantemente dado a bebidas, não conseguia prestar atenção a coisa alguma.
 
E lá foi a Marta, sentadinha na banqueta que girava, ia tentando com uma professora totalmente desqualificada e com a sublime pretensão de começar a trabalhar. 
 
Tínhamos apenas treze anos e um universo gritante de sonhos e desejos de viver que transbordavam pelas ruas do nosso Cambuci.
 
E, sorridente, a Marta tentava ler as notas e se localizar no teclado, mas logo percebeu que não conseguiria ler as partituras, os sinais e claves que iriam além da nossa simplória compreensão.
 
Terminado o mês, ela, muito correta, efetuou o pagamento combinado.
 
Com o dinheiro na mão, o meu primeiro dinheiro, a alegria me provocou alguns pulos exultantes diante da minha avó, que, satisfeita, sorria sentada no seu pufe verde ao lado da vitrola Telesparker. Ela me disse:
 
“Pega esse dinheiro e se benze . Assim, nunca vai te faltar”.
 
No primeiro sábado depois da apoteose, minha mãe e eu fomos à cidade especialmente para que eu pudesse comprar um par de sandálias. Comprei uma sandália linda – a mais linda que já tive – em plena Rua Quintino Bocaiúva. Cor creme, com um verniz suave, Anabela.
 
Foi um momento brilhante, carregado de simbolismo e de crença na minha ingênua capacidade de ensinar alguma coisa a alguém. 
 
Eu pude comprar o meu par de sandálias! 
 
Até porque o respeito que tínhamos para com as dificuldades da família era tamanho que não pedíamos nada. Às vezes, um doce. Outras vezes, um único sorvete. Roupas somente o extremamente necessário.
 
A primeira grande vitória da minha vida, na minha quietude, mergulhada na minha timidez! Alvíssaras! Eu consegui! A certeza de que eu poderia dar conta de mim, um dia. O sentimento de que eu seria capaz de fazer a minha trajetória, não precisar dar satisfações, abrir estradas com os meus próprios passos: foi o par de sandálias creme, da Rua Quintino Bocaiúva, que me fez abrir mais os olhos e perceber a grandeza da liberdade.
E-mail: vmoratta@terra.com.br
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 17/07/2014

Por que será que a gente tinha este desejo quase insano de trabalhar? Eu comecei com 15 anos, contra a vontade do meu pai, e trabalho até hoje. Virou vício.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 15/07/2014

Vera, imagino tua alegria cruzando as ruas do Cambuci com o seu lindo par de sandálias adquiridas com o seu trabalho honesto, com elas você deu o primeiro passo para vencer, parabéns pelo seu vitorioso texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 14/07/2014

Querida Vera, cada manifestação sua relativa a liberdade pessoal, soa como ode, homenageando o símbolo da liberdade que, por coincidência, se festeja hoje, 14 de Abril, na França.

Numa incontrolável e soberba alegria, vc, no simples evento das aulas de piano subvencionadas, valoriza a retenção em suas próprias mãos, o que seria o premio por ter sido forjado por vc mesma, sem ajuda de ninguém. Com muita propriedade sua avó mandou vc se benzer.

Preciosa narrativa, Moratta, parabéns.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 13/07/2014

A alegria quando recebemos nossa primeira remuneração vindo do nosso esforço é indescritível. A minha primeira remuneração foi em 1971 quando eu tinha apenas quatorze anos de idade e trabalhava como ofice-boy em uma Cia.de Seguros na Praça Padre Manoel da Nóbrega. Assim que recebi o envelope cheio de dinheiro corri para uma lanchonete na rua do Tesouro e pedi vários sanduiches de linguiça calabresa e lá fiquei a degustar os deliciosos lanches. Muitas saudades daquela época! Parabéns pelo texto!

Enviado por Luiz Carlos da Silva - lucasi__@hotmail.com
Publicado em 12/07/2014

A primeira sandália ninguém jamais esquece, e essa foi fruto da primeira aula que você deu das muitas que você daria e continua dando pela vida a fora. Parabéns Vera.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 11/07/2014

Vera:

Você me emociona com seus textos. A beleza das pequenas/grandes conquistas, você descreve (desenha) com um sutileza, que eu gostaria de ter....sinceros parabéns.......

Enviado por Luiz C. Peron - luizcperon@bol.com.br
Publicado em 10/07/2014

Um ícone de conquista. De onde se tinha a dúvida, surgiu a certeza. Ela vitoriosa e soberana, descoberta na plenitude dos sentimentos, a Alegria, a realização e o valor. Vera acho que esse texto deveria ser mostrado para todos adolescentes,estagiários,hoje tantos crescendo sem saber o simbolismo, a magia que existe no poder de conquistar as próprias coisas.Comigo foi assim também, comecei a trabalhar em um laboratório e seguia para a escola, andando, mas agora saboreando minhas bolachinhas de chocolate, acompanhadas de um iogurte.Parece pouco, mas eu que andava tanto, sem poder ter nada, sem dinheiro algum nos bolsos, sentia-me emocionado com cada bolachinha saboreada em meu fim de tarde.

Enviado por Wander Luiz dos Santos - wandersantos23@gmail.com
Publicado em 10/07/2014

Vera no simbolismo dessas sandálias está a vitoria gloriosa de sua caminhada de vida. Valeu muito ler as entrelinhas desse texto. Muito bom!

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 10/07/2014

Uma grande caminhada, começa com o primeiro passo! Você usou o fruto de seu trabalho em algo que a fez caminhar literalmente:as sandálias. Parabéns pelo texto.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 10/07/2014

Vera, creio que o primeiro salário ou qualquer pagamento por um trabalho realizado ninguem esquece, a prova está no seu belo relato, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
« Anterior 1 Próxima »