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Categoria - São Paulo do século XXI Conversas celestiais com minha avó Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 27/06/2014
Poucos momentos da minha vida foram mais delicados como aquele da partida da minha avó. Mulher sábia, serena, de uma fortaleza inquebrantável, ela ainda me faz muita falta.
 
Eu gostava muito de ouvi-la contar casos sobre a sua história de vida. De quando saiu de Minas, mudou-se para São Paulo no final da guerra. Os seus primeiros tempos na Cantareira e o respeito pelo Mercadão. E sempre tinha o que contar sobre a sua pensão na Rua Abílio Soares. Ela adorava ir passear na Sears com o meu avô e, certamente, se conformava em não poder comprar aquilo que era exposto.
 
E como ela gostava de partilhar essas memórias nem sempre tão doces, mas carregadas de açúcar na sua fala de mulher que tinha uma invejável capacidade de viver!
 
Sou muito grata à minha avó, que me ensinou muito da vida e eu só não sou pior graças a ela, que me ensinou o amor ao próximo, o respeito, a valorização do trabalho, da família e do estudo.
 
Nos últimos anos da sua vida, totalmente impossibilitada de enxergar fisicamente (porque, de alma, ela enxergava tudo), nós líamos para ela, contávamos como o mundo estava caminhando. Conversávamos muito sobre os descaminhos da política nos tempos da ditadura. E ela tinha o hábito de dizer que o povo não valia nada. Eu não gostava.
 
Prestes a pegar no sono, ainda naquela fase de vigília, parece que nessa noite eu pude contar para ela algumas coisas do presente e ela também queria saber, tinha curiosidade de saber como o mundo estava andando:
 
– Vó, Quantas saudades! Como a Sra. está bem, enxergando tudo...
 
– Enxergando tudo, bem. Graças a Deus, eu vejo tudo.
 
– Onde a Sra. está?
 
– Resolvi dar um passeio e parei aqui, numa nuvem. Estou olhando prá baixo tentando entender alguma coisa, mas está tudo tão complicado...
 
– Está mesmo, vó. O mundo não vai bem das pernas. O Brasil está de arrepiar.
 
– Mas por que, meu Deus?
 
– Vó, a gente continua com muitos vícios do passado. Lembra da corrupção, aquela ladroeira sem fim? Tá tudo aí, do mesmo jeito. É de dar medo.
 
– É mesmo?
 
– Pois é, vó. Mas tem uma coisa muito boa prá te contar – e outra péssima: O que é bom é que muita coisa avançou. Lembra de quando eu era moça, queria estudar e só havia a USP prá eu entrar porque senão o dinheiro não daria nem prá matrícula? Hoje existem facilidades: tem o PROUNI, por exemplo, que é um caminho prá quem não tem recursos poder cursar uma faculdade. Já pensou que legal, vó, poder estudar numa faculdade mesmo sem dinheiro?
 
– Mas isso é muito bom, gente!
 
– Hoje, vó, existem bolsas que auxiliam pessoas em situação de muita pobreza. Eles recebem um valor – pequeno – mas recebem todos os meses.
 
– Então não precisam passar por tudo aquilo que eu e o teu avô passamos?
 
– Não, vó. Mudou. Prá comprar casa ficou mais fácil. Tem até um programa, novo ainda, que beneficia quem é pobre a comprar casa.
 
– Meu Deus, que maravilha! Eu e o teu avô trabalhamos tanto e nunca tivemos a nossa casa.
 
– Vó, tem até financiamento popular prá comprar eletrodomésticos, essas coisas... Lembra quando a Sra. ficava muito feliz quando a mãe comprava alguma coisa nova?
 
– É mesmo. Era muito bom.
 
– Vó, hoje existem tantas facilidades que a Sra. não imagina!
 
– Mas então as pessoas estão bem.
 
– Não, vó, as pessoas estão péssimas.
 
– Mas não pode! Como assim, péssimas?
 
– Vó, as pessoas foram ficando infelizes, choronas, profundamente maldosas, “reclamonas”, cheias de “não-me-toques”. Acham que tudo sempre está ruim demais. Debocham, fazem comentários medíocres e fazem caretas. Prá Sra. ter uma ideia, hoje começou a Copa do Mundo e ela está sendo sediada aqui no Brasil.
 
– Copa no Brasil? Nossa, que bom! Eu me lembro daquela de 1950...
 
– Nem queira lembrar, vó, daquele momento em que o Gighia fez o gol e o Barbosa teve que se conformar...
 
– Mas como pensaram em fazer a Copa no Brasil?
 
– Vó, lembra do Lula?
 
– Claro que me lembro. Eu fiquei muito brava quando o teu tio Carlos resolveu votar no Collor em 89 e foi um horror só. Ele tinha que ter votado no Lula.
 
– Pois é, vó. Foi o Lula que tratou de criar condições prá trazer a Copa prá cá. E as Olimpíadas também. Não foi nada fácil enfrentar outros tantos candidatos de peso e de importância econômica e política.
 
– Mas que coisa boa! Quanta gente com possibilidade de trabalho, de poder sustentar melhor os filhos e...
 
– “Peraí”, vó. Não é assim.
 
– Como não?
 
– Não, vó. O povo só quer reclamar. No ano passado parece até que baixou o santo e uma parte enorme da sociedade foi prá rua reclamando de tudo, fazendo paralisações, quebrando, vandalizando e tendo “piti”. Agora, é pior. Lembra daquela síndrome de vira-latas que povo tinha, vó? Ainda tem.
 
– Que coisa!
 
– É greve prá tudo quanto é lado. Tudo de boicote ao Mundial. Querem mostrar pro mundo todo que...
 
– Mas o povo não tem vergonha na cara!
 
– Vó, a Sra. não imagina como está isso aqui. Gente moça, jovem mesmo, tendo chiliques e pouco ou quase nada fazendo para o bem do próximo. E nenhuma preocupação com o país.
 
– Eles estão fazendo o que, então?
 
– Comprando celular, tablet, Iphone, Ipod, Ipad...
 
– O quê, bem?
 
– Nada, vó. Deixa prá lá.
 
– Mas o que eles querem?
 
– Vó, eles querem viver num padrão FIFA.
 
– O quê, bem?
 
– Vó, é meio complicado explicar... Eles querem tudo de mais luxuoso, de mais fino, de mais caro...
 
– E o que eles fazem prá conseguir isso?
 
– Olha, vó, eu acho melhor deixar isso prá depois. Tá meio complicado entender.
 
– Mas o que eles estão pensando?
 
– Em reclamar, vó. Hoje, por exemplo, em plena abertura da Copa, sendo exibido pro mundo todo, eles, em coro, xingaram a presidente, inclusive na hora do Hino Nacional.
 
– Xingaram?
 
– É, vó. A Sra. percebeu que eu falei A presidente?
 
– É mulher, bem?
 
– É, vó. Sua conterrânea.
 
– Que maravilha... Mas, bem, acho que eu não entendi. O país avançou, a ditadura acabou, as pessoas têm acesso a coisas que nós nunca pudemos nem pensar. Tem até faculdade onde não se paga mensalidade, benefícios para pessoas muito pobres, até casa ficou mais fácil comprar... E o povo está achando ruim? Não respeitam a presidente e nem o Hino Nacional?
 
Nessa hora eu achei que a vó já estava duvidando.
 
– O povo toda hora só critica, debocha e xinga vó. E acha que sabe tudo, que pode tudo.
 
Quando a minha avó fazia algumas reflexões, ela tinha o hábito de colocar o “fura-bolo” na ponta do dente canino direito. Quando ela tirava o dedo dali, a conclusão já estava feita.
 
Pois ela, lá, sentadinha na nuvem, “balangando” as perninhas, tirou o dedo do dente e, na sua filosofia certeira e absoluta me questionou:
 
– Bem, lembra quando eu falava que o povo não valia nada e você não gostava?
 
O silêncio ecoou pelo firmamento...
 
Palmas para a minha avó. – Clap clap clap –
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 08/07/2014

Arthur, meu querido, mais uma justificativa para o meu texto: perdemos feio para a Alemanha, né? Passadas 3 horas do final do jogo, só em S.P. já temos 20 ônibus incendiados. Compreendeu melhor a minha avó????? Abraços.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 07/07/2014

Que lindo texto Vera! Realmente sua avó estava repleta de razão. Pensar que hoje temos tantas facilidades. O que mais me encanta no seu texto é a conversa tão natural e entre linhas nota-se a delicadeza e o amor que tanto você nutria pela sua avó. Parabéns pelo texto! Maravilhoso!

Enviado por Luiz Carlos da Silva - lucasi__@hotmail.com
Publicado em 04/07/2014

Pois é Vera, palmas para ela e para você também que soube abordar esse assunto sem imiscuir nele a política suja dos dias atuais.

Belíssima crônica!

Enviado por Miguel S. G. Chammas - misagaxa@terra.com.br
Publicado em 01/07/2014

Agora sim, depois de ler o texto na Folha, entendi perfeitamente seu belíssimo texto. Obrigado Vera.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 30/06/2014

Vera irmã querida. Nós sabemos que o juiz dos tempos é a História. Pena que não estaremos vivos quando ele proferir sua sentença e comparar o Brasil do antes e do depois.

Enviado por Marcos Aurélio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 28/06/2014

Arthur, meu querido, acho mesmo que você tem razão. Mas leia, como complemento, esse texto publicado na Folha de hoje, dia 28. Acho que a sua compreensão vai ficar mais fácil. Um abraço e obrigada pelo comentário.

Para compartilhar esse conteúdo, por favor utilize o link http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizcaversan/2014/06/1477834-quem-vai-pagar-o-prejuizo-da-copa.shtml

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 28/06/2014

Vera, parabéns por este bate-papo com a sua querida vovózinha que lá de cima com certeza deve estar vendo tudo melhor do que nós, só me permita meter a colher no bate-papo: o povo não se queixa de tudo, queixa-se isto sim do péssimo sistema de saúde e das fortunas dispendidas para construção de estádios faraônicos para sediarem dois ou 3 jogos e depois ficarem às moscas, gostei o diálogo astral!

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 27/06/2014

Vera, seu texto para mim tem duplo sentido, mas fico com a conclusão da sua vó, pois ela depois de ouvi-la, definiu que a atual situação é culpa do povo mesmo , pois fomos nós que elegemos essa turma lá de cima, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 27/06/2014

Realmente Vera sua conversa com a avo foi bem longa.

E colocou a pardos acontecimentos.

Parabens.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 27/06/2014

Um pequeno entrevero com a participação da vó da Vera e com ela mesma. Pontos de vista, a reçaltar as diferentes opiniões, observando a posição da vó, anos atrás e a da Vera, atuais. Metáfora bem urdida onde sente-se o amor e respeito que a querida Vera tinha (e tem) pela vó. Um trabalho bem caprichado, conservando a ética e respeito que a Vera dispensa aos seus queridos e queridas, sem contar a elaboração da narrativa bem contada. Parabéns, Moratta.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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