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Categoria - Paisagens e lugares Os andrajosos do Theatro Municipal Autor(a): Alfred Delatti - Conheça esse autor
História publicada em 03/06/2014
Existe limite para o descaso?
 
É possível estabelecer parâmetro de avaliação para a incúria humana?
 
Como medir o grau de importância ou valor que uma pessoa dotada de razão pode ter em relação ao bem comum e a tradição?
 
Difícil, talvez impossível.
 
Mas, basta passar pelo centro velho de São Paulo para intuirmos que qualquer avaliação que possamos fazer, ainda será muito pequena em relação ao tamanho do descaso e do abandono em que transformaram as ruas do centro velho da capital. Notadamente o entorno do velho Theatro Municipal, onde os modernistas de 22 lançaram sua diatribe contra o ranço passadista dos medalhões da época, tentando com isso romper a letargia de um país que parecia ser eternamente colônia.
 
Lembro que no passado era um lugar de glamour, onde as pessoas de bem iam no final do ano para ver as vitrines natalinas, a feérica iluminação que a todos encantava.
 
Hoje, cinza, sujeira pelas ruas, pessoas, bandos enormes, dormindo, comendo, fazendo as necessidades de suas tristes vidas, pelas calçadas antes vetustas, deitadas pelas marquises de prédios art-decó, hoje tomados por tapumes de movimentos sociais.
 
Logo cedo, às sete da manhã, se pode ver a romaria dos desvalidos se dirigindo a lugar nenhum, arrastando seus andrajos e seus olhares vazios em busca das migalhas que até animais desprezam.
 
Entre eles, pessoas passam apressadas segurando firmemente suas sacolas e bolsas junto ao corpo, olhando para o chão no seu passo apressado e indiferente.
 
Parece que aquelas ruas vertem pelo chão eternamente a água fétidas dos detritos humanos que carreiam, marcando o lugar de seu cheiro característico.
 
É possível ver grandes grupos de policiais, civis e militares, no seu passo lento, também passando indiferente. Podemos ver o lindo prédio onde existiu o famoso cine Marrocos (ainda com sua logomarca nas colunas) tornado em moradia de sem teto, incrível, pessoas morando no cine Marrocos!
 
O cine Paissandu, esse, está obliterado por tapumes e grafitado por palavras de ordem de movimentos de toda ordem. Parece que todo mundo tem algo a reivindicar, menos a dignidade da cidade.
 
Como foi possível tamanha degradação? Como nós, paulistanos, não nos demos conta da gigantesca traição e do descaso de sucessivos governos, que causaram a nossa querida cidade essa tragédia.
 
Como fomos capazes, também nós, de sermos indiferentes?
 
Como as belas alamedas dos campos elísios (hoje em minúsculas, sim) foram tomadas pelos “walking deads” da falada sociedade moderna e sua incompreensível necessidade de serem farrapos humanos vergados pela droga, assim também os “andrajosos do Theatro Municipal” mostram a todos nós a face cruel do descaso político, econômico, cultural, nos atirando de volta, como troco, a degradação de nossa cidade e de seus lugares históricos.
 
Qual será, no futuro, nossa recompensa?
 
E-mail: apdelatti@ig.com.br
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Publicado em 04/06/2014

Parece que São Paulo tem que dar diretriz a todas as causas sociais que assolam o país, não havendo estadista nas três esferas que tenham capacidade de resolver o problema social que campeia pelas capitais perigosas e sujas do Brasil. Na copa do mundo vão esconder toda essas mazelas dos turistas!!!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 04/06/2014

Nunca pensei que um dia veria este espaço degradado dessa forma, Delatti. Vi, sim, não faz nem 50 dias, estive no Municipal pra assistir um balêt e confirmo tudo o que vc diz, acima. Antes de me alterar, prefiro lamentar esta escória, este reduto de marginais, viciados, ladrões, (por pouco, não fui assaltado), proxenetas e até criminosos. Justo ao lado do teatro, incrível a ousadia e o desprezo pelas belezas de nossa cidade. Que pena, Alfred, lamentamos mais por que VIMOS COMO ERA E ESTAMOS VENDO COM ESTÁ. Isso é castigo exagerado, não merecemos essa recompensa, seu alerta, alem de muito bem redigido, nos leva a pensar, o que virá depois?

Parabéns, Delatti.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 04/06/2014

Espero que voce tenha lido minha história publicada em 30/05/2014 (a semana passada) e veja que a minha indignação é tão grande quanto a sua pelo abandono e descaso com o centro da nossa cidade...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 04/06/2014

você esqueceu de falar dos fantasmas que moram no teatro,

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
Publicado em 04/06/2014

Gostei muitissimo

Parabens.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 04/06/2014

Gostei muitissimo do seu texto.

Nao moro mais em Sampa mas amo muito essa cidade e me entristece ver o centro velho, desse jeito,o que fizeram com nossa cidade?

MEUS PARABENS.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 03/06/2014

Pois é, Delatti. Não é possível deixar de ver, de se lamentar e de questionar e de sofrer junto. Digo isso até por um motivo muito particular: eu tenho uma prima legítima que, com a morte da mãe, literalmente pirou. Com o tempo virou moradora de rua. Eu fiz tudo para localizá-la e tentar ajudar de alguma maneira... tudo em vão. Quando rezo por ela, invariavelmente todos os dias, eu pergunto: "Cris, onde você está???" Nesse momento, como em outros, eu não sei o que dizer. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 03/06/2014

Alfred, muito bom e consciente crônica de uma realidade palpavél de nossa cidade, ela cresce com novos centros comerciais e residenciais pela periferia e esquecem o Centro tradicional da cidade que virou terra de ninguem, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 03/06/2014

Delatti, infelizmente as nossas autoridades deixaram as coisas chegarem a este ponto, muitos desses infelizes que agora perambulam pelas ruas e praças de São Paulo vieram em busca de dias melhores, mas aquí chegando viram que nem tudo é como pensavam daí o resultado, parabéns pelo seu texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
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