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Categoria - Outras histórias Comida de boteco Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 02/06/2014
Nas inúmeras tentativas de conhecer o mundo, muitas vezes eu fiquei imaginado como seria viver. Viver sem censuras, sem proibições, sem medo ou recalques e com menos limitações impostas pela timidez e pela falta de dinheiro.
 
Muitas vezes o meu irmão falava sobre os botecos da cidade e contava situações engraçadas, de uma forma despretensiosa e sem stress. Falava dos botecos do Cambuci, do Bixiga, bairros que sempre me encantaram e que entraram na minha vida e participaram dos meus sonhos. Tenho esses espaços cravados no DNA, com suas histórias, personagens, memórias e construções de vida.
 
Um dia eu cheguei até a perguntar para ele o “que se poderia falar num boteco”. Ele disse: “qualquer coisa”.
E eu ficava imaginando o que seria “falar qualquer coisa” e ser ouvida.
 
Na época eu lia um livro sobre a reforma agrária na Nicarágua e imaginei que esse não seria um assunto adequado. Era comum eu ler vários livros ao mesmo tempo. Eu lia outro sobre a exploração do trabalhador escravo na época da monocultura do açúcar. Título do livro: Doce Inferno.
 
Imaginei também que esse não seria um bom tema. Piadas eu quase não conhecia. Que casos eu poderia contar e ser participativa de um encontro num boteco?
 
Eu me imaginava ali, no Bixiga, sorridente e com assuntos apropriados para o espaço, descontraída e com as minhas conhecidas roupas casuais, confortáveis e nada de requinte. Eu ia visualizando amizades, abraços e depois aquelas despedidas calorosas com a espera de uma outra vez no mesmo bate canal.
 
Como não tive o privilégio de viver uma juventude com as melhores energias, resolvi improvisar, me fazer presente , mesmo no imaginário, como seria viver um momento jovem sem ser ridícula em meio aos meus cabelos grisalhos de quem já viveu mais de meio século.
 
Indo às compras em um sábado, li um anúncio de um curso de comida de boteco num famoso supermercado de Florianópolis. Fiz a minha inscrição e fiquei aguardando o dia da aula. Cheguei até a mudar o horário de uma outra atividade para que eu não perdesse o evento, para mim, especial. Tive medo que faltasse luz, ocorresse algum imprevisto... Tal era a expectativa, mas deu tudo certo.
 
Lá chegando, fui direto perguntar para uma atendente onde era o local das aulas. A atendente, muito gentil e prestativa, era minha ex-aluna. Conversamos um pouco, nos abraçamos respeitosamente. Ela ainda teceu alguns elogios às minhas aulas... Até que eu perguntei:
- “Luana, é o local do curso?”
- “Que curso, professora?”
-“O de comida de boteco.”
 
Ela, momentaneamente, ficou paralisada, atônita, me olhando fixamente. Parecia o William Bonner quando encara a câmera para dar uma notícia de destaque, realçando as sobrancelhas e olhando sério. Refeita do susto, ergueu o indicador e disse: “é só subir as escadas, no fim do corredor”.
 
Caramba: passei a vida toda querendo entrar num boteco, viver plenamente a minha juventude com alegria e satisfação, comer aquela comidinha, participar de um momento longe das responsabilidades diárias, adultas e urgentes. Quando consigo fazer um curso, a garota ainda me olha desse jeito, decepcionada, desolada e com cara de interrogação.
Não tem jeito: em vida passada eu devo ter feito Sócrates tomar cicuta. Tenho certeza de que fui eu quem deu o cálice prá ele, lá no meio de Atenas.
 
Mas que eu aprendi, aprendi. E hoje faço com frequência umas comidas dessas em casa e me deleito. Só prá fazer desaforo...
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 04/06/2014

Vera a tua ex-aluna logo foi pensando : " como as pessoas mudam de um dia para o outro " , e voce ofendida com a reacao dela foi la para cima e aprendeu tudo o que tinha direito . Parabens e continue deliciando todas essa novas receitas que aprendestes, rs rs .Abracos Vera Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 04/06/2014

Vera,gosto muito de salgadinhos voce faz?

Coxinha principalmente.

Um abraco amiga.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 03/06/2014

Vera, fazer o curso não vale, o gostoso mesmo é estar no boteco jogar conversa fóra, falar de tudo menos de trabalho, mas ainda é tempo, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 03/06/2014

Carlos, o boteco a que me refiro é o barzinho com música que se popularizou nos anos 70. Eu nem pensei em boteco desses, de pinga mesmo, no balcão e com frituras de anteontem. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 03/06/2014

A satisfação de um desejo, é a coroação de uma conquista dificil, Moratta querida. Conseguindo o objetivo, vc venceu um conceito nem sempre aceito pelas pessoas de seu nível que, não acreditando que uma professora quizeçe fazer o curso de boteco, a atendente quase desmaiou. Formoso e delicado texto, a mostrar o que pode uma vontade conseguir quando desafiada. Parabéns, Vera querida e um forte abraço.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 03/06/2014

Gosto não se discute!!! O que vale muito para nós é que hoje,depois de obedecer tanto,e seguir tantas regras,a gente é quem manda na gente!!!

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 02/06/2014

Vera, louve-se a sua iniciativa e conforme boteco, mulher não entra, mas na maioria se aprende muito, onde tudo se conhece tudo se aprende e tudo se sabe, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 02/06/2014

Comida de boteco destes locais são muito "requintada", o bom mesmo é ingerir comida "requentada" como um sarapatel, um mocotó, uns ovos cozidos de uma semana atrás e manjubinha salgada, haja estomago! Estes sim tem comida de boteco, tipo salve-se quem puder ou tenha um bom estomago, ao invés de um bom apetite!!!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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