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Categoria - Outras histórias Lições do tempo Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 27/05/2014
Mas a vontade de trabalhar era tanta, mas tanta... E eu só tinha 14 anos... Bem, naquele tempo era assim: o pai falava e a gente obedecia. Pronto. Mas eu queria – e precisava – trabalhar.
 
De família humilde e com eternos problemas financeiros, um emprego – poderia ser no balcão da farmácia, na papelaria, no consultório médico como secretária, qualquer coisa seria bem-vinda.
 
Eu teria que, primeiramente, lutar contra a minha timidez, o meu pouco saber, as limitações da idade, a inexperiência, mas eu buscava identidade... E trabalho.
 
E nada convencia o meu pai. Fui aprendendo a ficar calada, sabendo que ele jamais me daria razão, não compreenderia o meu desejo profundo de ajudar nas despesas da casa, ao mesmo tempo ser dona dos meus passos. Eu não seria – e não fui – ouvida. E eu ia me sentindo como uma alma penada no purgatório, querendo que me ouvissem... E nada.
 
E eu tinha uma vontade latejante e acabei chegando a uma conclusão triste e fatalista: quando eu fizer dezoito anos eu vou sair e procurar um emprego, o pai não vai poder falar mais nada. Eu vou trabalhar!
 
Era muito importante sonhar com isso. Devagar eu ia me fortalecendo, abrindo mais os olhos para compreender o funcionamento do mundo, me esforçando imensamente para decifrar enigmas que uma jovem criada dentro de casa sofria em simplesmente tentar.
 
Chegou o dia: pronto! Fiz dezoito anos. Em seguida, fiz o vestibular para História – também contra a vontade do pai – e arrumei o meu primeiro emprego no Anglo, mais conceituado pré-vestibular daquele tempo.
 
Coloquei o pé na vida, mas com muito medo. Mas não cedi a esse sentimento mórbido, nauseante, carrancudo. Fui enfrentando, tropeçando em uma timidez doentia, apanhando da vida, suando frio, mas fui.
 
O meu desejo era esse: ser cidadã em um tempo em que falar em cidadania era caso de subversão. Ler e discutir “Morte e Vida Severina” era necessário para se compreender muito da alma do país, mas sacrilégio para os donos do poder. Adorava ouvir o Chico Buarque, mas me faltava recurso para comprar algum LP. E quanto comprava, era um troféu e um cuidado extremo para que o disco não riscasse.
 
Com o meu parco salário eu ajudava nas despesas da casa, andava a pé para não gastar com a condução. Saía da cidade universitária com o dedão esticado pedindo carona e quando o motorista dizia que ia para o Cambuci, eu só pensava: “hoje eu consigo economizar dois passes”.
 
As dificuldades tão grandes nos faziam de ombros fortes e pés mais largos para aguentarmos o peso de outras provações pela vida afora (ou seriam provocações?).
 
Mas a verdade é que eu só queria estudar, trabalhar e viver; mas mesmo assim tinha que haver espera. Espera de quê? Até hoje não sei. Mas como era duro ser mulher naquele tempo! Claro que antes, muitíssimo pior. Para mim, o verbo esperar é sinônimo de atraso, que me lembra uma obediência forçada a não sei quê. É um verbo que me enerva, me dá calafrios e eu nunca soube conjugar.
 
E a maior vitória que pode existir é a superação! Principalmente a superação do medo em um terreno tão hostil como era aquela São Paulo dos anos 70, com uma ditadura exalando podridão aos quatro ventos, crise econômica que nos arrastava ladeira abaixo todos os dias, incansavelmente, e o pai mandando e não querendo ouvir nem um pouco dos nossos sonhos.
 
Superar obstáculos tão firmes é uma forma de oração, carregada de doce melodia. Chegar à meia idade e dizer “cheguei” é uma das bênçãos mais azuis que pode cair dos céus.
 
E o melhor de tudo: sem reclamação. O desejo de mover o mundo, o nosso mundo, definiu a estrada de pedra onde os sabiás nunca deixaram de cantar no percurso da nossa longa caminhada.
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 29/05/2014

Interessante como uma geração foi levada pelo impeto de trabalhar, de conseguir algo com o próprio esforço, e tudo concorria para produzirmos para o beneficio coletivo. Hoje o marasmo parece que tomou conta do pensamento geral de conseguir as coisas através de bolsas disso e daquilo. Um dia a bolsa fura por falta de fundo(s) e teremos que voltar a estaca zero e plantar a esperança pela educação, sem paternalismo.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 29/05/2014

Querida Vera:Fiquei emocionada ao ler o seu texto: quantos pontos semelhantes com a minha história! Quando ouvi pela primeira vez a palavra "resiliência" e procurei saber o seu significado, descobri a nossa maior característica: somos resilientes! Nada melhor nos descreve.Abraço fraterno.

Enviado por Neide Gaudenci de Sá - neidegsa@gmail.com
Publicado em 28/05/2014

Essa e a Vera que conheco e admiro! Meus parabens amiga.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 28/05/2014

Hoje o horóscopo me reservou uma surpresa bem agradável, ela veio na forma de uma ode, quando se quer louvar os deuses gregos. Vera, por seu intermédio, a surpresa é esta louvação que vc esteriorisa, lembrando e exaltando sua liberdade dentro de sua casa. Que hino a benaventurança em poder gritar: FINALMENTE, SOU LIVRE! Belo texto Moratta, parabéns.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 28/05/2014

Tempos difíceis e de uma luta muito árdua para tão pouca idade...todos os dias crescíamos um pouco na esperiência e nos sonhos que queríamos realizar....Alguns foram realizados,e outros ficaram para trás juntos com os obstáculos que eram grandes demais para serem ultrapassados...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 28/05/2014

Parabens Vera pela sua perseveranca , sua persistencia ,so assim que a gente consegue o que quer e voce conseguiu , mesmo com sua confessada timidez.Parabens belo belo texto . Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 28/05/2014

Vera, época dura mas você conseguiu vencer, com os pais machistas de antigamente não havia diálogo, era "não" e pronto, parabéns pela sua vitória e pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 27/05/2014

Que bela lição de vida Vera. Acho que as letras do Chico por certo ajudaram muito a construção e a formação dessa mulher coragem, Parabéns pela narrativa e pela vida, muito bem vivenciada.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 27/05/2014

Vera, uma cronica que serve de auto ajuda,para a juventude de hoje, seu texto é regrado de bons principios, esforço que forja um cidadão e cidadã para enfrentar a vida e dando valor as coisas conquistada, parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
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