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Categoria - Nossos bairros, nossas vidas Noite de maio em Sampa Autor(a): Alfred Delatti - Conheça esse autor
História publicada em 26/05/2014
7 de maio de 2014.
 
Hoje faz 40 anos daquela outra noite de maio, dia 7 de 1974. Fazia muito frio em Sampa, talvez uns 10 ou 8 graus. Céu estrelado, frio cortante, mas sem vento no Campo Belo.
 
Eu havia passado a primeira semana do mês em puro delírio, ansiando, pedindo, querendo pela força do pensamento em um paroxismo atroz, que surgisse algum sinal.
 
Nada.
 
Apenas frio, silêncio, recolhimento e solidão.
 
Não aguentei, fui até lá.
 
7 de maio de 1974, oito horas da noite.
 
Fazia mais de um ano que não falávamos. Algo que nunca devia ter acontecido, aconteceu, nos separou em um momento de raiva, impotência, dúvida, insegurança, medo, medo de uns belos olhos...
 
O sofrimento trouxe uma coragem indefinida, um tipo de fatalismo de quem já perdeu tudo, que mais faltava?
 
Noite fria de maio em Sampa.
 
Parei o carro na porta da casa simples em que morava. Fiquei um instante petrificado pensando no que fazer. Desço? Toco a campainha? Chamo seu nome? De todas as possibilidades escolhi a pior: toquei a buzina do carro.
 
Uma, duas vezes. Silêncio!
 
De repente uma luz se alonga na pequena varanda, luz que me faz sair do carro resoluto e vê-la surgir, linda, com aqueles olhos de abismo em cujo vórtice me perdi...
 
Um pouco surpreendida, ela diz meu nome. Eu, tolo, digo que vim porque disseram que ela havia ligado. Não, ela diz, não liguei, mas que legal você aqui, diz me desarmando e fazendo com que uma calma me envolvesse.
 
Notei que a realidade é muito mais simples que nosso pensamento (fiquei parado, extático, na noite fria de maio).
 
Ficamos alguns momentos lado a lado, senti um ar de tristeza a nos envolver. Como a dizer por que tudo foi assim, algo que começou tão lindo e intenso?
 
40 anos hoje! Naquela noite eu tinha 19 ela 16, mas nosso amor parecia antigo de séculos.
 
Até achei que iríamos recomeçar onde paramos.
 
Mas não, o tempo seguiu seu curso sem nós. “Ah” como é indiferente o tempo que passa...
 
Já não existia a conjunção que moveu nosso encontro, que nos fez mais felizes.
 
Mesmo assim acreditei.
 
Noite de maio em Sampa.
 
E-mail: apdelatti@ig.com.br
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Publicado em 04/06/2014

Quarenta anos, a data, a buzina, uma, duas três vezes. Tão forte o sentimento que os detalhes lhes ficaram gravados. Ótima crônica.

Enviado por Ygor Coelho - ygor.coelho@hotmail.com
Publicado em 28/05/2014

Alfred, o destino às vezes nos conduz por caminhos diferentes daquele que nos havíamos traçado, mudamos de rumo mesmo contra a nossa vontade, parabéns pelo saudoso texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 27/05/2014

Tem episódios que marcam a vida da gente para sempre.. alguns momentos se tatuam dentro do coração tão nítidos que mesmo depois de tantas décadas a gente sente um filminho passando em nossas mentes tão reais e visíveis que nos aparenta ter sido ontem.Eu também tenho este filminho guardado em mim e as vezes me pego pensando como eu gostaria de voltar ao tempo e mudar algumas coisas que na época deixei de viver e hoje viveria intensamente.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 27/05/2014

Tristeza numa linda e fria noite, traz de imediato, recordações e emoções de um 7 de maio, há quarenta anos atrás. Parabéns, Delatti.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 26/05/2014

Bem vindo de volta Delatti.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 26/05/2014

Pois é, Alfred!O coração se enche de poesia, mas o tempo dá suas rasteiras. Como compreender? Lindo texto. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 26/05/2014

Os poemas da vida são repletos de questões aparentemente sem soluções em exato momento, ainda mais em tenra idade, onde as incógnitas ficam pairando como dúvidas. E o tempo passa...e leva nossas ilusões por outros caminhos trilhados em longas distâncias, por vezes, sem volta, restando apenas recordações!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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