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Categoria - Outras histórias Perda de memória - Parte II - com (in)satisfações (derradeira) Autor(a): Modesto Laruccia - Conheça esse autor
História publicada em 21/05/2014
Dia 30 de abril, quarta-feira, 16h, véspera de 1º de maio, fim de semana prolongado, foi agendado o exame... Vocês podem imaginar o trânsito nesse dia. Trocamos ideias, eu e a Myrte.
 
- Carro? Nem que o Corinthians perca na inauguração do Itaquerão (“pô”, to vendo a cara do João Felix, depois da bronca que ele deu, em um outro texto).
- De ônibus? Talvez.
- De táxi? Isso, de táxi, ele vai pela faixa do ônibus... Aprovado.
- Não dá também de táxi. Com a nova disposição do prefeito, mesmo com passageiro, o táxi não pode transitar pela faixa do ônibus, dentro de determinado horário, que era o meu.
 
Então restou... Restou... Restou, o metrô!
 
Antes, preciso dar uma ideia do trajeto que faço para chegar ao hospital: saio de casa, Av. Antonio de Souza Noschese, 719, Pq. Continental, pego a Corifeu de Azevedo Marques, no início (final) vou até o final dela (início), entro na Vital Brasil até a Eusébio Matoso e em seguida Rebouças, até a Paulista. Antes dela, entro na Al. Santos, até o hospital “Total Cor”. Acho que deu para entender, não é? Se não, Google...
 
Tenho certa experiência com o metrô, senti seus efeitos quando iniciaram as obras, na década de 60 (morava ainda na Rua do Gasômetro), acabando com o Pq. Dom Pedro II que virou canteiro de obras, pondo fim a minha área de lazer. Já era hora de deixar meu Braz, em 1969, me “pirulitei” para onde estou hoje.
 
Nos últimos anos, sempre cuidando de minha neta, Paola, 22 anos, estudante de Direito, arrumou um emprego em um escritório de advocacia, na Rua XV de Novembro (“old center”), centrão velho de São Paulo e, para ela ir de carro, tem os mesmos problemas que citei, ela vai de metrô, tomando o trem na estação Presidente Altino, que se localiza no fim da avenida onde eu moro. E quem a leva até a estação...?
 
Quando deixo a Paola na estação, ela sobe dois lances de escadas respeitáveis que, em uma ocasião, tentei e cheguei em cima com a língua de fora; essa parte é que não me atraia muito a opção pelo metrô.
 
Mesmo assim, decidimos pelo metrô. Via pela TV os “modernos” vagões importados da Espanha, queria conhecê-los de perto. Minha filha Maria nos levou até a estação. Pensei bem na Myrte, ela está fraca e calculei que ela não aguentaria. Ela me encorajou:
- “Vamos Mo, eu vou aguentar, vou devagar”. 
 
Desejando ter ao meu lado um balão de oxigênio, chegamos lá em cima. Acabou nosso cansaço, fiquei pensando que o Capasso tinha um pouco de razão, porque só as estações dos “bairros nobres” têm escadas rolantes ou elevadores... Quando o casal de segurança nos recebeu perto das borboletas, permitindo nossa passagem, nos indagou: “Porque os dois vieram pelas escadas?” Quase caí de costas...
 
No momento em que a simpática senhora perguntou sobre as escadas, respondi: 
“- O que existe além das escadas para subir até aqui”?
- “O elevador, aí atrás das escadas - disse sorrindo a segurança...” 
 
Se a Myrtes não estivesse comigo, daria um beijo no rosto daquela senhora. Retive meus ímpetos, porém, em seguida, lembrei-me da minha idade... “- onde vai, leão” - me cobrou o imodesto Modesto nº 2 - “otanta due anni, farabuto” (oitenta e dois anos, malandro), será que você não se enxerga?
 
Bem, não vou pegar mais uma vertente, discutindo com o M-2. Tenho meus deveres com os leitores.
 
Não acreditei, fui ver se tinha o elevador... Sempre vi minha neta subir as escadas, nunca a vi ir atrás da escadaria para pegar o ascensor. Perguntei o porquê, ela disse que gosta de se exercitar de manhã, não usa nem escada rolante, por isso.
 
“- Ma, “porca miséria”, você podia me prevenir, não é?” 
– “Ah”, vô, não me lembrei, pensei que o senhor sabia... Me perdoa.
 
Primeiro encanto. Entramos no trem, que maravilha, a primeira reação foi da Myrte: 
- Você lembra quando entramos naquele lixo do metrô de Nova Iorque? 
- Você falou: que maravilha, estamos em baixo da terra, e o de Paris? Te assaltaram em 400 dólares e fizeram nós pagarmos multa por ter viajado em vagão de “Mutilet de guerre” (mutilados de guerra), e o...
- Chega! Esse é o melhor vagão que já entrei... Que limpeza, que odor, que gente simples e educada (naquela hora, 14hs). 
 
Não estava lotado, conforme fomos entrando os lugares reservados aos idosos já estavam livres. De acordo com a orientação da segurança, para irmos a Al. Santos (paralela a Paulista) devemos descer em Pinheiros e depois tomar o trem que vai para Paulista e em seguida da Paulista tomar o que vai até esquina da Brigadeiro Luís Antônio.
 
Chegando à estação Pinheiros, só ouvia Myrte encantada exclamar: coisa linda as estações, Mo, olha, aqui tem também esteira rolante, que só vimos em... 
– Fale baixo, senão vão pensar que a gente quer se mostrar... – a interrompi. 
 
Nas poucas estações que paramos, Presidente Altino, Pinheiros, Paulista, só surpresas e das boas. Trens seguros, confortáveis, silenciosos... Mas o que mais me chamou a atenção foram, além da segurança, as pessoas dentro dos vagões. Quando fizemos o pequeno percurso da Paulista\ Rebouças foi uma luta para fugir das ofertas de poltronas reservadas. Desde o primeiro momento, falamos com um rapaz, negro, bem alto (uns dois metros) aonde iríamos e ele não deixou por menos, deu todas as explicações cabíveis, acompanhou-nos nas estações e só se despediu na penúltima parada. Como se fosse uma disputa de corrida com bastão, ele, o Diego (já sabia seu nome), deixou o trem e logo uma moça simpática nos acompanhou até a saída que dava para a Brigadeiro. Como bom paulistano nascido no Braz, já estava meio desconfiado. Mas não, eram realmente pessoas desinteressadas, apenas preocupadas em ajudar o próximo, principalmente quando o próximo está com idade de “bebê”.
 
Na Paulista, entramos na Brigadeiro e o hospital fica logo virando a esquina com a Al. Santos. Por incrível que possa parecer, uma senhora emparelhou-se conosco e disse ter ouvido pela minha mulher que iríamos ao Hospital Total Cor. Confirmei e ela disse que trabalhava lá e que iria nos ajudar chegar. Vocês acreditam? Eu não...
 
Fiz o exame, chato para “chuchu”, deitado, peito nu, médica de um lado, enfermeira do outro, me enchendo de “chupetinhas” por todo o tórax, a médica pedindo para eu ficar um pouco de lado, olhando para ela, apertando o estetoscópio para ouvir melhor as batidas e olhando o computador, lendo em voz alta para um outro médico que estava ao lado dela, passando os dados e fazendo pequenos comentários a “sota vocci” (baixinho), a meu respeito. 
 
Olhei o médico e notei que ele estava quase dormindo e como se tratava de mim resolvi avisar a médica. 
– Olha, ele está dormindo... – ela sorriu 
– Ele é assim mesmo, não liga... 
- Não liga? É, sou eu o examinado, se ele escrever alguma coisa errada “babau”. 
 
O médico falou alguma coisa e percebi que era estrangeiro. Porto-riquenho? Cubano? Sei lá... Cardiologista, podia ser técnico do Palmeiras...
 
A volta para casa foi menos divertida, menos emocionante, bem mais cara, tudo para satisfazer a vontade de minha querida esposa Myrte. Disse estar cansada, queria voltar sentada em uma poltrona de táxi. Ela tem razão, foi muito estafante a jornada.
 
- Myrte, implorei, são 6h da tarde, vamos pegar a Paulista, Rebouças, Marginal, na hora do “rush”... 
 
Conversando, saindo do hospital, para um táxi na porta do hospital para deixar passageiro e a Myrte disse: 
– Vamos aproveitar esse... Não preciso me alongar, levamos quase três horas para chegar em casa, gastei R$ 70.
 

 

E-mail: modesto.laruccia@hotmail.com
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Publicado em 23/05/2014

Modesto, até tu Brutus... Zombando do meu Curintia...Mas a sua Odisseia pela pauliceia desvairada até que foi boa e tranquila.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 22/05/2014

Sim, Modesto, ainda existem pessoas boas em São Paulo, e o nosso metrô melhorou muito.

Espero que seu exame tenha sido só para contatar sua ótima saúde. Parabéns pela sua narrativa.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 22/05/2014

Modesto my brother , ate voce tirando sarro do meu corinthians ? rs rs

Mas eu vi o jogo e toda aquela ansiedade para fazer o primeiro gool da Arena levou todos a querer marcar e o Figueirense acabou marcando e ainda em cima de tudo acabamos perdendo mas deixa pra la realmente nao merecemos nem empatar.Mas comentando o teu texto fiquei admirado em voce ter problemas em andar pelo metro de Sao Paulo? como e que voce fez em New York ? Na Times Square tem linhas se cruzando em 6, 7 ,8 andares se fosse la ate entenderia. E em Paris que e tambem muito mais dificil que ai ? . Eu em Sao Paulo so ando de metro deixo sempre meu carro no Ipiranga e so volto a pega-lo a noite quando retorno. Agora essa linha do Butanta e a mais nova de todas e o trem nao tem nem condutor , pois e conduzido automaticamente por uma central la no bairro do paraizo. Agora acho mesmo que voce teve sorte que esse exame foi no passado 30 de Abril ,pois voce ja imaginou se ele tivesse sido marcado num dia como o de ontem ou anteontem com essa paralizacao que houve nessa nossa cidade tao problematica como esta ficando ultimamente ? Eu ia para a Copa mas acabei cancelando. Era um sonho ir pois acompanhei a de 1950 e sonhava com essa , mas so espero que tudo saia bem , e sem muitos protestos . Espero que tudo tenha saido bem no seu exame que pela descricao parece que foi um Echocardiograma . Parabens pelo texto a gente fica sempre encantado com a maneira que voce trama o conteudo do mesmo. Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 21/05/2014

Como sempre, meu querido Modesto, o sr. é imbatível. Realmente, um bom filme de aventuras. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 21/05/2014

Modesto, esse seu exame cardiológico me pareceu mais uma história digna de fazer parte da Divina Comédia de Dante Alighieri, com os R$ 70,00 vocês poderiam ter saboreado uma pizza de muzzarella na Marguerita e depois seguiriam para casa a pé para fazer a digestão, rs.rs.rs. parabéns pelo sinuoso texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 21/05/2014

Realmente São Paulo, mesmo possuindo ainda aproximados 80 quilometro de linha de metrô, a locomoção se torna uma alternativa para se chegar ao centro. Nós da região de Santo Amaro, contamos com a linha da CPTM que faz o percurso Grajaú até Osasco, podendo fazer baldeação com a linha em Pinheiros e ir até a Estação da Luz no Centro de São Paulo em pouco espaço de tempo. Sua viagem foi um "aventura" que pela explanação foi divertida, com ajuda dos que cruzaram o caminho pelo metrô. Parabéns!

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 21/05/2014

Nsssa que maratona

Ainda bem que deu tudo certo

Enviado por alexandre ronan da silva - alexandreronan@gmail.com
Publicado em 21/05/2014

Suas crônicas são sempre interessantes e divertidas, Sr Modesto. Aqui no trabalho os dois corintianos que foram na inauguração do Itaquerão perderam a esportiva quando perguntamos como tinha sido o jogo.

Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@bol.com.br
Publicado em 21/05/2014

Adorei esse seu texto modesto, e pedi a Deus com toda a minha fé, que prolongasse seus dias entre nós por muito e muito tempo, pois quero desfrutar do prazer de ler suas historias e conviver de sua amizade por muitos e muitos anos ainda, porque você mora no meu coração, Obrigado por você existir querido.

ET - Não sou gay não hem? digo isso sem preconceitos, (risos).

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 21/05/2014

caro modesto, lendo o seu texto fiquei cansado, parei um pouco para tomar uma cervejinha.

a sua ida ao hospital lembrou-me o filme do indiana Jones,

os caminhos do indiana ele corria perigo~

agora o seu foi uma maravilha,podia fazer um filme; MODESTO NO CAMINHO NO TOTAL COR,(RISOS)desculpa a brincadeiras,

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
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