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Categoria - Paisagens e lugares O porto geral da Rua Vinte e Cinco de Março de muitos amores Autor(a): Carlos Fatorelli - Conheça esse autor
História publicada em 23/05/2014
A Rua Vinte e Cinco de Março está localizada no centro da cidade de São Paulo, próximo ao Mercado Municipal de São Paulo com acesso pela estação de metrô São Bento atingindo-a pela Rua Florêncio de Abreu. Pode ser referência também indo pelo Pátio do Colégio seguindo a Rua Boa Vista, a parte alta da cidade, descendo a Rua Porto Geral, atingindo o local de compras mais famoso de São Paulo, visitada diariamente como um dos maiores centros comerciais, além de ponto turístico da capital paulista.
 
Como a Rua Vinte e Cinco de Março ganhou sua fama ao longo do tempo em São Paulo?
 
A Rua Vinte e Cinco de Março é uma homenagem da Câmara Municipal de São Paulo e pelo Poder Executivo, lembrando a data do juramento da primeira Constituição do Brasil independente, promulgada por Dom Pedro I, em 25 de março de 1824.
 
A origem da Rua Vinte e Cinco de Março remonta ao século 18, quando era conhecida como “Beco das Sete Voltas”, em referência às várias curvas sinuosas do rio Tamanduateí. A Rua Vinte e Cinco de Março já foi conhecida pelo nome de “Rua Várzea do Glicério”, além de “Rua das Sete Voltas”, ou também como Rua de Baixo, ou de Baixa de São Bento, em referência à igreja na parte alta da cidade e pela localização abaixo do Mosteiro de São Bento, dividindo a cidade em duas partes; Alta e Baixa.
 
A Rua Vinte e Cinco de Março, antes de se tornar rua, era a várzea do leito do Rio Tamanduateí, de extrema importância no final do século 19 e início do século 20, que corria no local traçado pelas suas águas navegáveis, recebendo como afluente o Rio Anhangabaú e que depois seguia em direção ao Rio Tietê, rio este que corre para o interior do Brasil ao encontro do Rio Paraná.
 
Em 1865, a Rua de Baixo passou a chamar-se Rua Vinte e Cinco de Março e isso desde a atual Rua Carlos de Souza Nazaré, limítrofe de um dos lados onde estava o primeiro mercado de gêneros denominado de Praça do Mercado; esquina da atual Praça Fernando Costa, e desse ponto em diante até a ladeira do Carmo, hoje, Avenida Rangel Pestana.
 
Neste mercado (que não tem referência alguma com o atual Mercado Municipal de São Paulo da Rua Cantareira, inclusive de localidade) eram vendidos frutas, verduras, legumes e outros produtos agrícolas produzidos por agricultores que atracavam suas embarcações, que vinham de outros vilarejos e chegavam através do porto que ficava no rio Tamanduateí, em uma de suas curvas, bem perto da “Ladeira do Beco das Barbas”, que depois passou a chamar-se “Ladeira Porto Geral”, por estar perto de onde ficava o antigo porto do Rio Tamanduateí. 
 
A Ladeira Porto Geral foi anteriormente conhecida por “Ladeira do Tamanduateí”. O “Porto” que batizou a atual Ladeira Porto Geral se localizava na sétima e última volta do Rio Tamanduateí, aonde também chegavam mercadorias importadas à cidade de São Paulo de navio através do porto de Santos; subindo depois a Serra do Mar através de carroças e mais tarde por ferrovia, pela construção, em 1867, da Estrada de Ferro Santos-Jundiaí e que alcançavam a região do Ipiranga. De lá, eram levadas pelo Rio Tamanduateí até o porto para barcas, o chamado Porto Geral, nome desta conhecida ladeira íngreme, travessa da Rua Vinte e Cinco de Março. Estas profundas transformações econômicas e sociais foram decorrentes da expansão da lavoura cafeeira em várias regiões paulistas e do afluxo de imigrantes europeus e ampliação da circulação de mercadorias provindas da Europa.
 
A grande enchente que marcou a região foi registrada no dia 1º de janeiro de 1850, através de um temporal que alagou as margens dos rios Tamanduateí e Anhangabaú. Das 27 casas destruídas, 14 casas eram de taipas de pilão, construção de barro socado, típica da cidade e que não possuíam resistência suficiente para suportar muita água em suas paredes de barro.
 
Por causa destas inundações, umas maiores outra menores, o local foi remodelado no tempo do governo de João Teodoro, entre 1873 a 1875. A área da Várzea do Carmo foi drenada e surgiram as primeiras chácaras na região e uma ilha urbanizada como uma praça; foi então criada em 1874 com o nome de Ilha dos Amores, localizava-se nas margens do Rio Tamanduateí, que estava nas imediações da Rua Vinte e Cinco de Março, na Várzea do Carmo, que depois de aterrada tornou-se parte do Parque Dom Pedro II. 
 
Era uma várzea constantemente inundável, principalmente em épocas de cheias por causa das chuvas de verão. Depois desta grande enchente houve mudança no fluxo do rio e mais tarde optou-se pela canalização e retificação do mesmo, sendo a área toda drenada, sumindo, deste modo, as curvas do Rio Tamanduateí e a Ilha dos Amores, sendo, no início do século 20, construída outras condições de engenharia nas edificações para o local, com transformações urbanísticas que modificaram a região da várzea do Rio Tamanduateí.
 
Muitos libaneses, sírios e outros povos árabes decidiram sonhar com uma vida melhor, buscando fixar-se na América. A principal fonte de descontentamento era o domínio turco-otomano que se expandia em constante conflito belicoso. A imigração libanesa ocorreu por gerações que vieram ao Brasil em busca de um lugar para trabalharem livremente. Com as grandes enchentes do Rio Tamanduateí, muitos comerciantes vendiam suas mercadorias muito abaixo do preço para não arcarem com grandes prejuízos. Essa prática foi o marco para que a região da Rua Vinte e Cinco de Março fosse conhecida como um polo comercial de alta rotatividade e polo diferenciado de baixo custo e de boa qualidade.
 
Registros históricos indicam que a primeira loja aberta no local foi a Nami Jafet & Irmãos, em 1893, que nesta época contava apenas com seis lojas: cinco armarinhos e uma mercearia. Oito anos depois, em 1901, já eram mais de 500 pequenas lojas. Nasciam, assim, duas tradições: a de imigrantes libaneses se estabelecerem na Rua Vinte e Cinco de Março e a de fornecerem mercadorias para seus compatriotas recém-chegados a São Paulo mascatearem em bairros distantes da capital paulista. Deste modo o comércio na Rua Vinte e Cinco de Março prosperou rapidamente.
 
Os primeiros produtos importados na Rua Vinte e Cinco de Março eram porcelanas japonesas e chinesas, cutelaria alemã, rendas suíças e francesas, casimira inglesa e outras variedades. Os sírio-libaneses eram na época, a maioria dos comerciantes da região.
 
Embora São Paulo fosse local de trânsito de pessoas, sofreu crescimento vertiginoso na virada do século 19, sendo que em 1895, São Paulo tinha uma população presumível de 130 mil habitantes, dos quais 71 mil eram estrangeiros, chegando a 239.820 em 1900, quase o dobro em cinco anos apenas.
 
Depois da Revolução de 1930, a indústria nacional consolidou-se como produtora de consumo e os produtos nacionais passaram a dominar as prateleiras das lojas da Rua Vinte e Cinco de Março. Vestuário e armarinho eram os principais produtos, vendidos no atacado e varejo.
 
Hoje, o Rio Tamanduateí está canalizado e todo retilíneo, preso a uma armadura de concreto e suas curvas sumiram; o rio que era bem próximo ao local da Rua Vinte e Cinco de Março está hoje mais distante e as atividades portuárias que havia foram substituídas por um mercado muito ativo e constante da região, mas feito pela relação de oferta e procura entre os comerciantes e os “fregueses” na rua de maior afluência de comércio do Brasil. Os povos de etnia árabe dominaram boa parte do comércio nessa região até os anos de 1980, quando ganharam a companhia de outras etnias, com a chegada dos asiáticos, mais precisamente coreanos e chineses.
 
Endereço visitado por paulistanos e turistas de todo o Brasil, a Rua Vinte e Cinco de Março atualmente concentra uma variedade de comércio que atinge todos os públicos e idades desde produtos gerais de tecidos, bijuterias, acrescido de vários produtos eletrônicos. Os produtos importados, que representavam praticamente todas as mercadorias no final do século 19, ao início do século 20, ainda são marcas registradas no comércio da Rua Vinte e Cinco de Março.
 
E-mail: cafatorelli@gmail.com
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Publicado em 28/05/2014

Carlos, tomei a liberdade pegar uma "carona" em seu didático texto, em meu tempo de ofice-boy gastei muita sola de sapato entregando correspondência aos comerciantes da 25 de março, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 26/05/2014

Carlos, simplesmente brilhante o seu relato. Aula de história das boas. Obrigada por elaborar um texto tão bem articulado e partilhá-lo conosco um grande abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 25/05/2014

Sr. Fatorelli,

Magnifico!

Uma verdadeira aula de geografia e história, com ricos detalhes, quem não aprendi durante meu período de ginásio e colegial em São Paulo. Me deliciei com toda sua explanação sobre esta outrora bela região da 25 de março e mercado. A cada semana fico torcendo para poder saborear suas aulas e uma nova história, de nossa querida São Paulo. Obrigado

Flávio Cândido

Enviado por Flavio Candido - solacrepe@gmail.com
Publicado em 23/05/2014

Voce deu uma aula do passado e do presente da Rua Vinte e Cinco de Março, e eu confesso que sou uma feliz compradora desta famosa rua e que adoro levar minhas netas para fazermos um turismo por lá.Sem contar que todas as crianças que presenteio no Natal das ruas (que sao dezenas) mais as que eu apadrinho são agraciadas com bons e lindos presentes deste shopping popular a céu aberto que esta rua nos oferece...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 23/05/2014

Bela aula de história como disse o Sr. Modesto. Temos aqui um historiador completo. Parabéns.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 23/05/2014

É com muita satisfação que leio mais um trabalho primoroso do Fatorelli. E este com mais entusiasmo pois, refere-se a um local bem próximo de onde nasci. Locais, todos eles citados pelo Carlos, são bem íntimos de meu desenvolvimento. Apesar de ter nascido e vivido tão perto da 25, desconhecia boa parte do exposto pelo Carlos; com relação ao antigo mercado, Carlos, meu tio Dionisio Monaco, tinha um "Box" nesse mercado e como antigo proprietário, na mudança pro atual Mercadão da Cantareira, ganhou um "box" que manteve até morrer. Não me preocupo mais com histórias de nossa cidade, é só esperar, o Fatorelli vai nos brindar com mais uma aula sobre o assunto. Parabéns, Fatorelli.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
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