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Categoria - Outras histórias Uma Monark com freio no pedal Autor(a): Arthur Miranda (Tutu) - Conheça esse autor
História publicada em 20/05/2014
Meu velho amigo de infância, Marcos “Pé de Pato” (apelido conquistado por possuir um pé que além de enorme tinha a aparência de uma nadadeira dessas usadas por mergulhadores), era como eu também sou, nativo da querida e sempre lembrada, Freguesia do Ó. 
 
Marcos depois de ter tentado fazer de tudo na vida, resolveu montar um bar ao lado do extinto e saudoso Cine Clipper; que ficava no largo do mesmo nome, esquina da Rua Bonifácio Cubas, que é nome de um bandeirante que viveu por muito tempo no inicio desse antigo bairro de São Paulo juntamente com dos fundadores do bairro o conhecido bandeirante Manoel Preto.
 
Depois da inauguração, o mesmo virou recreio dos amigos, praticamente todos os jovens que haviam estudado no antigo Grupo Escolar Padre Manoel da Nóbrega, no Gitema, e jogado futebol, nos campos da várzea da Freguesia, com certeza passaram a lotar o Boteco do Pé de Pato.
 
No feriadão a turma ia para o Pé de Pato.                                                                                                  No Natal, Pé de Pato.                                                                                                                                       No Carnaval, Pé de Pato                                                                                                                                      Até na Semana Santa, muitos no lugar de ir para igreja com a família, davam uma de “migué” e com jeitinho saíam de fininho, fingiam que ia para a igreja, mas baixava mesmo no boteco do Pé de Pato. 
 
Também no boteco tinha de tudo, piadas o dia inteiro, música de todo os gêneros: samba, seresta, bolero, às vezes rolava até jazz e tango e com o passar do tempo até o rock do grande Elvis já circulava por lá.  
 
Às vezes, havia até muita “mina” sobrando naquele pedaço, que com o passar do tempo virou um lugar de má fama, onde as famílias mais tradicionais, conservadoras e moralistas, proibiam que seus filhos chegassem até mesmo perto do local.
 
Marcos, que era um “boa praça” de nascença, acolhia e servia todo mundo, não negava o velho fiado a ninguém, mesmo sabendo que alguns jamais pagariam as contas. Resultado: apesar do grande movimento, seu boteco ia de mal a pior. 
 
Bem! Só agora eu vou entrar no assunto que me fez recordar desse meu amigo e também escrever essa história.
 
Em um final do dia perto das 18h30min chegou no boteco, um senhor montado em uma bicicleta Monark, famosa na época por possuir freios no pedal quando pedalada para trás. Ele estacionou a citada Monark em frente ao boteco, encostou seu suado umbigo no balcão e pediu uma pinga, que depois de servida pelo Pé de Pato, esse senhor antes de tomar a mesma perguntou:
-O senhor tem aí dois pepininhos em conserva? 
Depois do sim do meu amigo, ele colocou os dois pepininhos enfiados nos buraquinhos do ouvido, bebeu a pinga, pagou e saiu comendo os pepininhos.
 
Esse ato ou gesto muito curioso do estranho cidadão deixou no Pé de Pato, em mim e em todo o pessoal presente no Boteco uma secreta vontade de saber o porquê daquela cena que acabávamos de assistir ali ao vivo. Foi o cidadão deixar o local para por um longo tempo, o assunto não sair da pauta do papo de todos os presentes no estabelecimento.
 
Todo mundo comentou o porquê cargas d’águas aquele filho de Deus, fez aquilo.
 
Falou-se de tudo a respeito do assunto, até que sem uma boa resposta para o acontecido, chegou-se a conclusão no meio de muita gargalhada, que o homem seria um maluco, maníaco ou coisa que o valha. 
 
Porém, no dia seguinte as mesmas horas, o fato voltou a acontecer.  
 
O homem chegou na sua Monark, entrou no boteco pediu a pinga, exigiu os pepininhos enfiou os dois um em cada buraco do ouvido, tomou a pinga comeu os pepininhos, pagou e foi embora na sua bicicleta. 
 
E foi assim no terceiro dia, no quarto, no quinto sempre perto das 18h30min. E já estávamos na segunda semana que o homem repetia diariamente esse estranho e inexplicável ritual, antes de beber aquela pinga. Fato que acabou criando praticamente uma obsessão geral em todos os frequentadores do boteco, todos estavam desesperados para saber o porquê daquele ritual praticado pelo homem antes de beber uma simples pinga (nem é preciso dizer que os “bebuns” eram os mais interessados e curiosos no assunto).  
Uns diziam: deve ser alguma simpatia! Outros, que ele provavelmente achava mais gostoso!  Outros afirmavam: Vai ver que é para a mulher dele não sentir o cheiro. Diziam muitas outras coisas, algumas até impublicáveis, mas que sempre em seu final levava todos nós a gostosas gargalhadas.
 
Até que o meu amigo Marcos decidiu acabar com todo aquele mistério e garantiu que, da próxima vez, ele iria dizer para o estranho, na hora que o mesmo aparecesse e pedisse os pepininhos, que não tinha e que a fábrica daquela conserva não entregou o pedido, feito por telefone. Disse isso já escondendo o vidro do produto que estava exposto no balcão levando-o para dentro na cozinha do estabelecimento.
 
Essa sua atitude despertou o interesse de todos os que como eu, estavam curiosos para saber o motivo pelo qual alguém coloca dois pepininhos no buraco do ouvido antes de tomar uma pinga.
 
No dia seguinte perto das 18h30min no boteco do Pé, parecia que estava havendo algum final de campeonato de futebol profissional, briga ou coisa parecida, o local estava lotado a ponto de não estar acontecendo nem a costumeira partida de bilhar desse horário, por falta de espaço para os jogadores darem uma tacada.
 
Foi então que aquele estranho homem chegou pedalando sua Monark, estacionou a mesma na guia ao lado de um poste de ferro da antiga Light. O ambiente estava congestionado de curiosos! O homem teve que pedir licença para chegar perto do Balcão lotado, onde a maioria inclusive eu, fingiam que bebericavam, mas que na realidade apenas estavam ali, para matar aquela curiosidade reprimida com os juros e a correção monetária de praticamente duas semanas de ansiedade.
 
O homem então diante do meu amigo no balcão pediu a pinga e acrescentou, veja também os dois pepininhos. Marcos cumprindo o combinado e esperado por todos os presentes, disse:
-Lamento companheiro, mas acabaram todos os pepininhos. A fábrica não entregou ainda o pedido que eu fiz ontem cedo.
 
Sem se abalar o estranho falou! 
 –Não faz mal. O senhor tem azeitonas verdes?
E diante da resposta afirmativa do meu amigo ele pediu duas azeitonas verdes, enfiou uma em cada buraco do ouvido e para surpresa e frustração dos de todos os presentes, tomou a pinga. 
 
Nessa altura o calmo e tranquilo amigo Pé de Pato, alterado e nervoso pela ansiosa curiosidade, fez a pergunta que estava naquele exato momento se debatendo na boca de todos os presentes e até na minha própria.
 
- “Pera aí” meu amigo, diga uma coisa, pois estou curioso. Por que razão o senhor colocou duas azeitonas no seu ouvido para tomar essa pinga?
E o estranho homem foi rápido.  
–Ora! Porque o senhor me disse que não tem pepininhos. 
 
Disse isso, abriu caminho entre os curiosos presentes que eram muitos, e saiu tranquilamente pedalando sua moderna Monark com freio no pedal. 
 
E-mail: 27.miranda@gmail.com
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Publicado em 22/05/2014

Oi Arthur eu li atentamente e curiosamente para saber o porque dos pepinos nos ouvidos e agora estou ate sonhando e tentando achar nos meus sonhos o motivo que o homem da Monark com freio no pedal enfiava os pepinos na orelha , e agora tambem com as azeitonas verdes no ouvido ???

Sera que e porque ele era Palmeirense ??? o pepino e verde a azeitona tambem , entao vai ver que e isso rs rs rs Abracos meu amigo alvi negro Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 21/05/2014

Muito curioso e sensacional relato desses famosos personagens de botecos de vila que marcam o local por algum motivo engraçado. Nestas "bandas" da zona sul temos um boteco que tem quase 50 anos e já passou por três gerações e continua firme por fornecer cachaça de todo tipo de qualidade, de grandes fabricantes "cachaceiros".Vide: O empório de secos e molhados e o jogo de bocha no Jardim São Luiz

http://www.saopaulominhacidade.com.br/historia/ver/9121/O%2Bemporio%2Bde%2Bsecos%2Be%2Bmolhados%2Be%2Bo%2Bjogo%2Bde%2Bbocha%2Bno%2BJardim%2BSao%2BLuiz

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 21/05/2014

Arthur, fiquei tão curioso que resolvi pesquisar no GOOGLE sobre o assunto e descobri que esse é um distúrbio de algumas pessoas que necessitam de silencio absoluto para conseguir ingerir bebida alcoólica. Há inclusive relatos de cachaceiros que acabaram até se ferindo porque no momento de desespero acabam tapando os ouvidos com sapatos, panelas, pneu de fusca...

Enviado por Abilio Macêdo - abilio.macedo@bol.com.br
Publicado em 21/05/2014

Não entendi nada...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 20/05/2014

Tutu, eu acho que o Pé de Pato deveria perguntar também o porque de colocar o pepino, não sei não, esta história está me parecendo mais uma daquelas criadas por você, sensacional! parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 20/05/2014

E até hoje nem você e agora nem eu sabemos porque cargas d'água este bendito fazia isso.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 20/05/2014

Arthur, eu preciso agradecer essa saborosa crônica. Sabe por que? Porque eu sempre quis saber o que rola em boteco.Acho que deve ser o máximo poder frequentar um. E confesso: se eu fosse homem, lá estaria eu, com uma certa regularidade. A propósito, fiz recentemente uma aula com duas horas de duração... de comida de boteco. Tenho feito algumas receitas aqui em casa, só imaginando quão bom deva ser frequentar um. Parabéns pelo texto. Ótimo, Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 20/05/2014

que historia estranha, desse cachaceiro,

sera que ele so enfiava os pepinihos no ouvido//

/*/

Enviado por João Cláudio Capasso - jccapasso2@hotmail.com
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