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Categoria - Personagens Momentos únicos Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 22/05/2014
Naquele apartamento de fundo da Rua Dom Duarte Leopoldo eu esperava ansiosamente que chegasse o domingo à tarde. Depois do almoço, aquele marcante macarrão com frango, era a hora de eu me acomodar defronte à televisão e, vivaz, eu esperava que os meus ídolos se apresentassem. Sempre as palmas esfuziantes me convidavam a vibrar pelas canções novas, que seduziam o público. Pela primeira vez, cheguei a escolher um presente de aniversário: um compacto simples do Roberto Carlos – “quero que você me aqueça nesse inverno e que tudo mais vá pro inferno”.
 
Um grande alento na minha difícil juventude foi acompanhar a trajetória da Jovem Guarda. Eu ficava fascinada pelas músicas do Roberto, do Erasmo Carlos e da Wanderleia.
 
Não havia maldade entre eles. Nada de arrogância, de sarcasmo ou de empáfia. Pelos menos, eu os via assim. Eu entendia aqueles cantores tão autênticos como pessoas a se aproximar da juventude que buscava novidades, outros sons, melodias distantes daquelas tão formais e bem elaboradas pelos notáveis compositores do final da década de 50.
 
Era a inovação. Novas cores. Um vocabulário bastante atraente para aqueles jovens que teimavam construir novos espaços, novas atmosferas, sair das estruturas autoritárias das famílias e de instituições como a igreja e a escola.
 
O Erasmo era o Tremendão, com sua calça xadrez e sapatos de fivela. A Wanderleia era a ternurinha, carregada de meiguice e de talento.
 
E hoje, quando leio a notícia do enterro do filho do Tremendão, sinto um calafrio amargo, tenso. Fico inquieta. Um homem que esbanjou a doce energia da juventude, que sorriu e cantou para um público que precisava de novas referências, precisava cantar, pois era o único meio de se falar algumas coisas... Esse homem, hoje, passa pela mais terrificante experiência humana: o amargor da perda do filho. Não há como não se comover e sentir um pouco – apenas um pouco – daquela angústia.
 
É como se o corpo estivesse esfrangalhado para sempre, sonhos perdidos, interrogações delirantes e a negação do fato. Certamente, é como se o mundo se tornasse um espaço em branco e preto.                          
                                                                                         
Força, Tremendão! Coragem. O que eu posso te dizer é que acredito mesmo em outras existências. Novos encontros, novos abraços e sorrisos. Diga ao seu filho um “até breve”, pois esta vida é curta... E isso pode ser bom. Outros tempos virão. Deixe o coração chorar até se esgotar. E depois pergunte: “será que o meu filho gostaria de me ver assim, acabado?” Obviamente a resposta seria: “não”.
 
Então chore, Erasmo, com tudo o que tem. Mas depois... Depois volte a cantar, a sorrir para o seu público, sempre se lembrando: o reencontro é uma fina arte. Como uma música elaborada com desejo de amor, de presença, de exuberância de vida. Viva, Tremendão. Viva e pode continuar sonhando. O mundo, apenas temporariamente, será em banco e preto.
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 23/05/2014

Vera querida. Eu não sou religioso como você, mas acho que Deus deveria por uma lei que proibisse um filho de morrer antes dos pais. Esta é a maior dor que uma pessoa pode sentir. Jovem guarda bons tempos estes....

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 23/05/2014

Vera muito triste e tragico o que aconteceu ao Erasmo e sua familia.

A sua homenagem a ele foi de muita sinceridade .Os pais sempre esperam ser enterrados pelos filhos e nao ao contrario . Mas so Deus e que tem o destino das pessoas e por alguma razao que so ele sabe os motivos. E nos aqui na terra so podemos aceitar a sua vontade com resignacao . Assim seja .Que ele descance em paz e que de muito conforto ao Erasmo e familia nestes momentos tao tristes . Parabens pela homenagem postuma . Abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 23/05/2014

Meu querido modesto, muito obrigada pelo seu comentário e dos demais estimados colegas. Modesto, às vezes a gente tem poucas opções na vida: ou vive ou morre. Eu preferi viver. Por isso insisti em aprender o encantamento, a exercitar a fé e a desenvolver a auto-estima - muito tardiamente, aliás. E la nave và. Um abraço, meu querido.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
Publicado em 23/05/2014

Acabei de ler sobre show que o Tremendão vai dar e a sua reação, depois da morte do filho no dia 7 de maio, em acidente de moto, no Rio. Sua narrativa, envolvendo, além dele, o Roberto e a Wanderleia na época da Jovem Guarda, é uma homenagem meritória e apoio a carreira do Erasmo, mesmo diante de uma tragedia desse porte. Uma vontade maravilhosa que mantem seu otimismo acezo e vivo, enviando mensagens otimistas aos quantos delas necessitam.

Notei, querida Vera, que em várias crônicas suas, vc deixa um pequeno toque sobre sua juventude ("...minha difícil juventude..."), não precisa se preocupar de eu querer saber a razão de tais recordações, a única razão de minha curiosidade é saber onde vc vai buscar tanta energia, tanto entusiasmo, tanto encanto externando tanto otimismo criticando, ao mesmo tempo, as formas de sistemas educacionais e religiosa da época. Ler uma narrativa sua, Moratta, equivale assistir a uma aula de educação cívica pra adultos. Parabéns, Vera, muita paz.

Laruccia

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 22/05/2014

Vera, como você eu também cheguei a curtir alguma coisa da jovem guarda, o Erasmo passou por duas situações de tristeza, a morte da esposa e agora o passamento do filho, mas como você diz a vida é uma passagem e todos nós iremos pelo mesmo caminho, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 22/05/2014

Vera, que sentimento!

Também me lembrei que a Wandeléia perdeu seu filhinho ainda criança, que tristeza, agora o Erasmo, que DEUS possa carregá-lo no colo neste momento e conforte seu coração é o que desejamos.

Enviado por Julia Poggetti Fernandes Gil - gibajuba@yahoo.com.br
Publicado em 22/05/2014

Sei bem o que é isso Vera em 1995 perdi um filho muito especial aos 20 anos, em um acidente de carro na estrada que liga Campos do Jordão onde morávamos a Taubaté. mas como acredito na vida eterna aceitei e apesar de sentir muitas saudades, tenho tocado a vida, mas é muito triste perder um filho, pois acho que com o tempo vamos nos preparando para ser enterrados por eles, mas jamais imaginamos ter que enterra-los um dia. espero que a aceitação possa também morar no coração do Tremendão como habita o meu a pelo menos uns dezenove anos. Abração.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 22/05/2014

Eu e milhões de saudosistas da jovem guarda,nos sentimos com o coração apertado e uma grande tristeza.Lembrei da Wanderléia quando perdeu seu filho Leonardo com apenas 3 anos de idade e do Roberto Carlos que tambem perdeu sua filha mais velha(do coração)tambem recentemente...são dores que a vida não nos deixa ninguém passar sem ela,a morte da mãe do pai de irmãos do companheiro de sobrinhos é crucial, mas a de um filho e inexplicável e inenarrável...é uma dôr eterna...

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 22/05/2014

A vida nos mostra que tudo são futilidades que não valem a pena disputá-las por apenas demonstrar que podemos conseguir algo, as turbulências de "Nossas Águas" tem um limite. Nada vale mais do que a paz interior, embora seja difícil superar perdas de pessoas amadas.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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