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Categoria - Outras histórias Uma infeliz modalidade de acupuntura Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 14/05/2014
Foram as tremendas dores nas costas que me abriram as portas para o primeiro contato com a acupuntura. Passei meses tricotando a máquina quando dos primeiros tempos de magistério na escola pública. Seis meses de salários atrasados me fizeram usar da criatividade e buscar alternativas urgentes. Confesso que lutei pelos direitos em tempos em que isso era por demais perigoso, mas lutei. E a urgência pelo dinheiro me fez ir à velha máquina Lanofix da minha mãe.
 
No início dos anos 80 e a acupuntura era ainda novidade no Brasil. Por essas plagas a notícia de que havia essa medicina tradicional foi possível graças à visita do presidente norte-americano Richard Nixon à China, em 1972. O mesmo ficou maravilhado ao conhecer essa prática milenar e algumas informações sobre o assunto começaram a chegar ao mundo ocidental. O meu primeiro contato com a arte chinesa de curar foi através da leitura de um livro que carecia de fundamentação científica. Era apenas o retrato do deslumbramento e das interrogações de um americano que havia acompanhado a comitiva presidencial.
 
E como foi tortuoso o caminho para que eu me tornasse uma profissional da área! Na época, o monopólio cultural da prática era sagrado pelos orientais. Tive que começar a estudar massoterapia chinesa para, depois de quase duas décadas, me especializar na área.
 
Mas hoje, pelo menos em São Paulo, o grande problema é a nova e infeliz modalidade dessa arte que ganhou espaço. Lendo a Folha – que comecei a ler ainda na maternidade – me deparei com o seguinte texto:
 
Devido aos recentes casos de abuso sexual registrados no transporte público de São Paulo, um grupo feminista resolveu protestar de maneira diferente. Alfinetes estão sendo distribuídos para mulheres em uma estação de metrô para coibir a ação dos chamados “encoxadores”.
 
- A campanha é do Movimento Mulheres em Luta, que distribuiu os kits - acompanhados da frase “Não me encoxa que eu não te furo” - desde 7h desta sexta-feira, na estação Capão Redondo do metrô.
 
Segundo nota divulgada no site do grupo, a medida busca denunciar a violência e o assédio às mulheres no transporte público e “exigir do Metrô e do governo do estado que façam uma campanha de conscientização e combate aos assédios”.
 
Fiquei a pensar na complexidade do assunto. Porque, através da atitude de alguns indivíduos, tudo vem à tona: desrespeito, falta de ética, atentado ao pudor, falta de berço, falta de alteridade, egoísmo, petulância... Enfim, faltam adjetivos pontuais para essa mortal. Além de faltar condições básicas de mobilidade urbana.
 
O que o movimento Mulheres em Luta fez, ao reinventar a “acupuntura”, foi dar um grito doloroso e carregado de vergonha em defesa da integridade do gênero. Um grito com lágrimas expostas ao vento. Longe de mim criticá-las. O movimento foi buscar uma resposta imediata à condição de humilhação imposta por sujeitos desclassificados. Confesso que senti admiração por elas... E ainda mais: elas estão avisando o que vão fazer caso sejam molestadas, então, não há como dizer que foram elas as agressoras.
 
E como seria interessante a sociedade repensar o seu papel quando da criação dos filhos! É. Filhos. Quantos de nós fingimos não prestar atenção quando o menino é violento com as meninas? Quando debocha, faz piadas, menospreza, humilha em supostas “brincadeiras”! Como não fazemos quase nada para questionar a situação, o garoto aprende que isso é natural e sem consequência alguma. Naturalíssimo... E continua a agir assim. Quantos são os homens que acham lindo o filho se exibir sexualmente enquanto a filha foi historicamente criada para a submissão? E quantas meninas ainda são criadas para isso?
 
A sociedade brasileira foi construída nesses moldes. É inegável. Portanto, essa condição foi vista como aceitável e, mais uma vez, “natural”. Só que essa construção já passou do insuportável há muito tempo. E mais uma vez se pede que “o governo do Estado faça uma campanha de conscientização...” tem mesmo que fazer, sempre conscientizar, educar... Mas a tarefa cabe – ou deveria caber – preferencialmente aos pais e, quem sabe, avós, que vivem dizendo que “homem é assim mesmo”.
 
Ouso dizer que ser homem é muito mais. Ser homem, homem mesmo, de verdade, não precisa se exibir, contar vantagens sexuais, até porque essa atitude, além de medíocre e idiota, vira sempre objeto de deboche por parte das mulheres, com toda a certeza.
 
Ser homem de verdade significa ter paixão pela vida, respeito pelos demais, ter palavra de honra, ter brio. Ser homem passa pela vontade e esforço de construir um mundo mais justo, uma sociedade mais equilibrada através do trabalho não apenas físico e intelectual, mas moral. Quem sabe, com mais poesia e amor à mulher. Mas um amor verdadeiro, com dedicação, sendo atento.
 
Um amor de homem para mulher me faz lembrar uma parte da história de um paciente meu. Era um senhor já idoso, que adorava tocar flauta. A esposa era a sua principal admiradora. Os seus olhos brilhavam com intensidade quando ele tocava músicas do Pixinguinha. Bastou ela sofrer um AVC, ficar sequelada e profundamente amargurada com a situação, o homem guardou a sua flauta e nunca mais tocou. E me confidenciou: foi em respeito à mulher, que chorava muito quando ele tocava.
 
Isso é amor. Isso é ser homem de verdade!
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 15/05/2014

Vera, você tocou num assunto muito sério, hoje em dia está se dando muito pouco valor à moral, aos bons costumes e principalmente à educação dos filhos, cabe a nós passarmos bons exemplos aos nossos descendentes para que amanhâ sejam homens de bem, parabéns pelo seu texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 15/05/2014

Querida Vera, esse maravilhoso trabalho se predispõe pra vários comentários, essencialmente poderiamos simplifica-los pra uma importante conclusão, a feminilidade em funções de recorrência física. Vc dá a definição do que é ser homem, além dos atributos mencionados, levam, nos ombros deveres que se impõe a sua condição, sem estabelecer o aspecto feminino ou masculino.

Fiz, por necessidade, acupuntura, por uma infecção no músculo da perna. Com 10 secções, me curei e nunca mais precisei do tratamento. Isso há 15 anos e guardo, até hoje as agulhas. Parabéns pela narrativa, Moratta.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 15/05/2014

Você também ralou muito hein amiga!

Mas venceu né?

Quanto á acupuntura, essa foi boa.

Abraço.

Enviado por Benedita Alves dos Anjos - dosanjos81@gmail.com
Publicado em 14/05/2014

É triste, muito triste ver uma atitude tão idiota como esta de alguns imbecis que se aproveitam de uma situação para molestarem as mulheres.Mas estes caras não são homens não. Homem sou eu e outros como eu que nem se quer pensam em tal atitude.

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 14/05/2014

É pelo que vejo e leio, dada a muita impunidade e regressão de penas para o condenado, vamos aos poucos regredindo para a barbárie vividas da idade média, linchamento? vejam o que aconteceu com aquela pobre mulher confundida que foi com alguém que sequestrava crianças para usa-los e mata-los em Magias Negras. Pelo jeito ainda teremos muita caça as Bruxas de volta nesse mundo infelizmente. Se Deus pensasse de nossas falhas o mesmo que muitos de nós pensamos do semelhante que erra. Acho que a maioria do ser humano amanheceria morto amanhã bem cedinho, ou hoje a noite mesmo. Ótimo tema esse Vera, da para refletir muito a respeito do mesmo.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 14/05/2014

Oi Vera ! voce me fez voltar ao passado bem distante ,quando ainda existiam os dois circulares "Estacoes" o 5 que dando o Braz como referencia ia em sentido da Praca da Se e o 6 que ia em sentido contrario que era o Largo da Concordia esses coletivos assim como o Penha Lapa eram os preferidos por esses tipos de salafrarios. Lembro de uma passagem e nem lembro a razao de estar dentro desse coletivo , pois eu era Taxista mas talvez o carro estava na oficina , mas lembro que eu estava sentado no banco do corredor e via essa moca passando por um momento desses e ela ja nao sabia o que fazer pois por mais que se afasta-se ela cai por cima de mim . Foi ai que eu levantei mandei ela sentar e com o dedo em riste disse ao sugeito : "agora voce vai tentar fazer isso comigo , vamos la eu sou todo teu seu cafajeste" .O homem saiu correndo aos empurroes para a porta de saida , mas aqueles onibos so abriam a porta no ponto e ele teve que ouvir a gozacao e os risos de todos que precenciaram o ocorrido .Isso aconteceu nos anos 50 quando a populacao era de pouco mais de 2 milhoes e meio de habitantes . Hoje infelizmente a coisa so tem a piorar pois a grande Sao Paulo ja atinge mais de 30 milhoes ,portanto vamos alfinetar cada vez mais esses cafajestes pobres de espirito . Parabens pelo texto querida abracos Felix

Enviado por João Felix - jfvilanova@gmail.com
Publicado em 14/05/2014

Quanto ao assédio, ealmente as mulheres tem como se defender, apenas sentem vergonha da reação, basta um grito, uma cotovelada, uma agulhada , um pisão, mas parece que muitas se sentem paralisadas a esse ato, elas precisam se informar mais e ficar atentas, parabéns pelo tema, Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 14/05/2014

Desculpem eu expressar meu pensamento a voces,eu endosso as feministas que distribuem agulhas para as moças mais simples se defenderem,porque as mais esclarecidas não precisam além de quase nunca usarem transportes públicos elas sabem botar a boca no trombone e armarem um escândalo nesta hora.O ideal era poder usar aquelas armas de choque ou gás de pimenta e baforar na cara do sujeito.Eu também sou a favor do povo começar a linchar estes marginais para que outros pensem duas vezes antes de assaltar.Sou totalmente a favor da pena de morte para assaltantes que matam,só quem tem seu filho ou ente querido morto por marginal que rouba e mata é que sabe o tamanho da dor eterna...sou a favor da prisão perpétua para quem estupra,e queria que o Brasil aclamasse prisão de verdade (não sala de descanso)para todos os políticos que roubam o dinheiro suado do povo trabalhador!!

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
Publicado em 14/05/2014

Acredito que há um modelo que apresenta os gêneros como algo diferenciado que ao másculo pode-se agir de modo a ofender princípios básicos de virtudes educacionais e enquanto isso a mulher fica submissa primeiramente ao paterno poder e depois ao poder marital. A sociedade é implacável com a "mulher pública" e enaltece ao ápice da glória o "homem público", sem levar em consideração a humanidade de ambos, onde ninguém e dono do outro. Parabéns, pois o tema do texto leva-nos a muitas reflexões.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
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