Leia as Histórias

Categoria - Personagens Bolão de Copa do Mundo Autor(a): Abilio Macêdo - Conheça esse autor
História publicada em 06/05/2014
Tomava um cafezinho no balcão do Café Floresta na galeria do Edifício Copan, quando um rapaz ao meu lado, falando no telefone celular, se identificou com o mesmo nome e sobrenome de uma pessoa que havia sido meu gerente há muitos anos.
 
Como aquele sobrenome não era nada comum (e o nome menos ainda), achei que não podia ser só coincidência, e lhe perguntado depois que terminou a ligação, descobri que ele era neto do meu antigo gerente, que havia falecido há pouco tempo, com mais de noventa anos de idade.
 
Ficamos ali conversando sobre seu avô, um sujeito realmente fora de série, a quem ele era muito ligado e com quem eu havia convivido por mais de dez anos, antes mesmo de ele ter nascido. Não faltou assunto, e ele gostou tanto da história do bolão da Copa do Mundo que ligou para sua mãe, filha do meu antigo gerente, e me obrigou a contá-la novamente, por telefone. Fiquei sem graça, mas pelo menos ela riu muito.
 
Como está chegando mais uma Copa, vou contar aqui essa história, que talvez vocês achem interessante:
 
Na manhã do dia do jogo entre Brasil e Holanda pela copa do mundo de 1974, fui chamado à sala do nosso gerente, que estava reunido com os supervisores do departamento e, assim que entrei, ele me entregou um maço de dinheiro e uma lista onde todos os que estavam ali presentes haviam anotado seus palpites para o jogo de logo mais, à tarde:
 
- Abilio, você vai ficar responsável pelo nosso bolão. Ok?
- OK.
- Circule pelo nosso pessoal e veja quem mais quer entrar. Ok?
- Ok.
- Você já sabe como funciona. Quem acertar o placar do jogo fica com o dinheiro. Ok?
- Ok.
- Se for mais que um acertador, é só dividir o valor entre eles. Ok?
- Ok.
- Este é o valor da aposta (algo em torno de uns R$ 10, hoje) e cada um pode fazer quantas apostas quiser. Ok?
- Alguma dúvida?
- Não. Nenhuma.
- Então tá esperando o quê?
- Nada. Só ia conferir o dinheiro.
- Se eu te entreguei é porque já está conferido. Agora cai fora que já está atrapalhando.
 
Seu jeito durão e de poucas palavras metia medo em muita gente da fábrica, mas nós sabíamos que no fundo ele era um sujeito bonachão e gozador.
 
Nem precisei divulgar, a notícia do bolão correu rápido e em pouco tempo a lista tinha mais de cinquenta palpites, muitos repetidos, mas a grande maioria apostando na vitória o Brasil, alguns empates e apenas um com a Holanda como vencedor, pelo placar de 1 a 0.
 
Faltando menos de meia hora para o início do jogo, tentávamos ajustar a imagem de um pequeno aparelho de TV branco e preto quando alguém bateu no meu ombro:
- Quero fazer a aposta.
 
Era o Seu Jurgis, que mesmo sem pertencer ao nosso departamento nem perguntar se podia participar do bolão já foi anotando o placar de 2 a 0 para a Holanda e despejando um monte de moedas e alguns trocados sobre a mesa.
 
Seu Jurgis era um senhor estrangeiro, com sotaque carregado, que apesar de excelente profissional era mais conhecido pelo mau humor e as frequentes reclamações sobre as coisas do nosso país, tipo:
- Na Europa não tem estas porcarias que fabricam aqui no Brasil.
- No Brasil ninguém respeita horário.
- Brasileiro sabe trabalhar, mas se não ficar em cima o serviço não sai.
 
Nada que ele não tivesse um pouco de razão, mas esses comentários só serviam para nutrir ainda mais antipatia que tinham por ele.
 
Nem gosto de me lembrar daquele jogo. O Brasil perdeu por 2 a 0, todo mundo ficou desolado e tão logo o juiz apitou seu final meu gerente me ligou:
- Quem ganhou o nosso bolão?
- Seu Jurgis. Ele acertou sozinho.
- Aquele “bicho d’água”? E ainda apostou contra o Brasil? Quem o convidou?
- Não sei. Eu não fui.
 
Do jeito que ele desligou o telefone deu para sentir que ele não gostou. Nem dez minutos depois chegou Seu Jurgis, com um enorme sorriso no rosto (aliás, nunca o tínhamos visto sorrindo antes), que durou muito pouco, porque logo atrás dele entrou nosso gerente, que depois de um tapa na mesa (que quase nos matou de susto), deu um show de interpretação que tento reproduzir abaixo:
- Isso aqui não é cassino!
 
Que deixou todo mundo surpreso e sem entender nada. Com cara de bravo e tom de voz elevado, ele continuou:
- Quando eu assumi a gerência, a primeira coisa que eu fiz foi arrancar daquele quadro um aviso com o que é proibido se fazer na empresa! Vocês se lembram disso? Ninguém nunca viu esse aviso, mas todo mundo respondeu que sim. Depois de uma pausa que só fez aumentar o suspense:
- Eu fiz isso porque meu pessoal não precisa de um papel para saber que no trabalho não se pode consumir bebida alcoólica, nem realizar práticas religiosas nem jogar ou fazer apostas a dinheiro.
 
 
Aí ele deu outra pancada que quase desmonta a mesa:
- Estou muito aborrecido porque fiquei sabendo que uma dessas regras foi desrespeitada.
 
Ninguém dava um pio e Seu Jurgis com olhos arregalados.
- Mas fiquem sabendo que não vou permitir que amanhã falem pela fábrica que no meu departamento, sob a minha gerência, alguém ganhou dinheiro de jogo fazendo aposta no horário de trabalho.
 
E continuou:
- Não quero saber o nome dos envolvidos, porque se eu souber vocês sabem muito bem qual vai ser a punição.
 
Nova pausa.
 
- Eu exijo que amanhã, naquele mesmo quadro de aviso, esteja afixado o recibo de algum orfanato ou instituição de caridade para o qual será doado todo o dinheiro de jogo que foi arrecadado no meu departamento!
 
E antes de sair, fechando a porta com uma batida que estremeceu todo o prédio:
- Se alguém tem alguma dúvida ou se sentiu prejudicado, pode vir falar comigo.
 
Para encerrar:
Aquele bolão se tornou um assunto proibido, porque nuca mais alguém teve coragem de tocar nele.
 
O dinheiro do bolão foi doado a uma instituição de caridade, e Seu Jurgis um dia me confidenciou que era muito grato por seu nome não ter sido envolvido naquela “jogatina”.
 
E-mail: abilio.macedo@bol.com.br
Localização da história
Login

Você precisa estar logado para comentar esta história.

Antes de Escrever seu comentário, lembre-se:
A São Paulo Turismo não publica comentários ofensivos, obscenos, que vão contra a lei, que não tenham o remetente identificado ou que não tenham relação com o conteúdo comentado. Dê sua opinião com responsabilidade!
Publicado em 07/05/2014

A Holanda era um time muito bom e o Brasil vinha com o mérito de ter sido o último campeão não soube conter a força do “carrossel” comandado por Cruyff que mesmo perdendo na final para a Alemanha “dona da casa” surpreendeu com a tática aplicada. Acredita-se que houve neste momento uma revolução tática no modelo de compactação dos times de futebol. Quanto ao prêmio do vencedor do resultado do placar, a prática da aposta sempre ocorreu nas empresas, e mesmo sendo de outro departamento, foi uma decisão um tanto injusta! Parabéns pelo texto.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 06/05/2014

Sacanagem hem? Assim não vale. Eu acho que esse seu antigo gerente tinha tudo para ser um politico famoso e errou de profissão. Acho até que ele no período eleitoral até reclamava dos políticos, dizendo que eram todos uns ladrões, como faz hoje em dia um monte de brasileiros "honestos". Mas eu adorei essa sua fabulosa e gostosa historia, Parabéns Abílio.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 06/05/2014

Abilio, eu acho que a atitude do gerente não foi correta, se o resultado fosse inverso e fosse ele o ganhador com certeza a coisa seria bem diferente, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 06/05/2014

Abilio, nesse caso o gerente ou patrão sempre tem razão, mesmo não tendo, mas que ele foi incoerente, foi vingativo, parabéns pela crônica, Estan

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 06/05/2014

O gerente não "topava" o sr. Jurgis, mesmo. Mesmo sendo ranzinza, não acho que ele merecia ser tapiado dessa forma. Se houvesse a tal de instrução interna, não deveria nem ter começado o bolão. A não ser que algo de muito sério tenha ocorrido entre os dois.

Gostei da sua história, Abilio, muito bem contada, com início que lembra contos de antigos mestres no gênero. Parabéns, Macedo.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 06/05/2014

Ótimo, Abílio. Quando p Brasil perde, a coisa ferve. Adorei. Um abraço.

Enviado por Vera Moratta - vmoratta@terra.com.br
« Anterior 1 Próxima »