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Categoria - Outras histórias Sopro do tempo Autor(a): Vera Moratta - Conheça esse autor
História publicada em 29/04/2014
E, de repente, me vejo perdida em pensamentos vãos. Quanto tempo faz? Diante das breves contas realizadas mentalmente, percebo as décadas que se foram.
 
Das janelas do nosso apartamento no Cambuci, eu olhava, na minha infância, as luzes do Centro da cidade e ficava imaginando: como seria estar lá? Caminhar à noite, passear defronte à catedral, andar, simplesmente. O centro, à noite, deveria ser mágico, perfeito, único! As luzes do meu Cambuci eram de uma ternura inatingível, melodiosa até. À noite, às vezes, a minha mãe passava roupas. Eu sentia o cheiro peculiar daquele ferro quente crispando ao contato com a água borrifada pelo molhador e eu olhava com ternura para o luar de uma São Paulo que me convidava, silenciosamente, a caminhar por ela a passos mansos e cúmplices.
 
Sem sofrimento agora, o pensamento e as reflexões se expandem. Com alegria pela superação de inúmeras perdas, de projetos que teimaram em se realizar tardiamente e eu os desejava de imediato. Eles vieram depois, bem depois, com a maturidade e o entendimento das razões da demora.
 
E relembro situações que me comoveram. Outras constrangeram. Tantas me deixaram de olhos marejados. A festa que não fui. A brincadeira que não brinquei. O bolo de casamento que vi e não me foi servido nenhum pedaço. O sono brutal e tragicamente interrompido pelos gritos desesperados de dor do meu pai e a pena, a incerteza, o profundo medo dos segundos seguintes. Ele voltaria para casa depois do hospital? Ah! Beneficência Portuguesa de triste memória...
 
O sorriso que não se alargou no meu rosto. O baile que não houve. A música que pouco tocou na vitrola Telesparker do canto da sala, sob a janela e ao lado do pufe da minha avó. As poucas amizades e a minha timidez não permitindo que as pessoas felizes se aproximassem.
 
E me alegro ao perceber que sobrevivi. E concluo: faz tempo. Foi no século passado. E me contento mais ainda ao dizer: não. Foi no milênio passado que as dores e dissabores se acotovelavam vorazes na minha alma inquieta, disputando ferozmente pedaços de um ser ainda franzino, de óculos pesados e de lentes espessas e com um anacrônico toque de laquê no cabelo para ir à escola primária.
 
E penso nos colegas de colégio. Por que eu não disse a eles que eu queria me libertar, correr, rir, falar, aprender a contar alguma piada? Eles não entenderiam naquele tempo. Mas eu pouco me recordo dos rostos deles, sequer dos nomes. Apenas alguns. Procuro pela Internet, tento buscar nas imagens e fico feliz ao perceber que alguns voaram e foram longe. Como eu amava essas pessoas, no meu silêncio e solidão!
 
E tento recobrar espaços no hoje, porque isso agora me é possível. Deixei a solidão para o milênio passado. Na passagem do ano 2000 para 2001 comprei a Folha, fiz a leitura e guardei o jornal. Foi muito mais que guardar amorosamente um documento histórico. Foi uma tentativa material de ter um marco, um ritual impresso e poder visualizar uma tentativa de deixar o passado no seu devido lugar: o choro, a solidão, a sofreguidão para conseguir um emprego e contribuir para o andamento da casa, o medo de andar à noite na rua, na volta para casa depois de algumas aulas ministradas, o driblar a vontade do meu pai, de me ver submissa e sem vontade de viver. E eu queria viver! Como queria! Jamais usaria roupas cinzas. Jamais usaria um taier. Jamais jantaria um prato de sopa.
 
O passado no seu lugar. Resolvi deixá-lo lá, quieto, pois posso dizer que construí, lenta e metodicamente, um sentimento de extrema importância: a compaixão. Consegui! E esse grito de “consegui” tem o mesmo sabor daquele dia de janeiro de 1977, quando vi o meu nome na lista dos aprovados da Fuvest, quando do meu vestibular para História na USP.
 
E só depois de exercitar a compaixão é que consegui caminhar e sentir o sabor adocicado de aprender a pintar em telas tendo a minha mãe como professora, entrar como aluna na escola de oleiros e produzir artefatos cerâmicos. Consegui entrar na escola de música, comprar um pandeiro, fazer o meu próprio ganzá e dar graças à existência!
 
Hoje, choro para mim, é só o do Pixinguinha, Waldir Azevedo, Zequinha de Abreu, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Benedito Lacerda... Graças a Deus!
 
E-mail: vmoratta@terra.com.br
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Publicado em 05/05/2014

Vera, nossas vidas são como uma montanha russa, cheia de altos e baixos e nós vamos seguindo vetiginosamente alternando tristezas e alegrias, você venceu, é o que importa, parabéns pelo texto.

Enviado por Nelinho - lt.ltesser@hotmail.com
Publicado em 03/05/2014

Como é delicioso seu texto, o passado é e sempre será um passado, mas vamos viver o presente feliz sonhando com o futuro sempre incerto. Parabéns Vera.

Enviado por Arthur Miranda (Tutu) - 27.miranda@gmail.com
Publicado em 30/04/2014

Parabéns Vera.

Em 1977 você entrou na USP e eu no meu primeiro emprego, office boy do Banco Noroeste na Rua Sete de Abril

Enviado por Almir . - almir1960@hotmail.com
Publicado em 30/04/2014

Sadia reviravolta em sua vida, querida Vera. Presa no passado, envolvida em teias aracnídias da sua própria existência, libertou-se como uma alegre e saltitante borboleta, exibindo e festejando sua colorida acolhida as novas atrações que a passagem dos anos ofereciam. Parabéns, Moratta querida.

Modesto

Enviado por Modesto Laruccia - modesto.laruccia@hotmail.com
Publicado em 30/04/2014

Somos parte de um tempo no espaço determinado por nossas emoções, fazemos parte desta passagem que insistimos em manter nossos laços. Vamos mudando alguma coisa, outras não, e é assim que tem que ser, pois fazemos parte da estrutura daquilo que nos rodeia. “História é uma sequência de continuidades e mutações”. (Jacques le Goff). Parabéns pela carga de sentimento impressa no texto.

Enviado por Carlos Fatorelli - cafatorelli@gmail.com
Publicado em 30/04/2014

Vera, li e vi nessa crônica, muita profundidade de sentimento e saudade de coisas realizadas e não realizadas, vistas e não vistas, eu já senti isso também, como Domingo agora dia 20 de Abril na Igreja nossa Senhora Auxiliadora do Bom Retiro na Capelania Polonesa,(missa da canonização do Papa João Paulo II) em local em que frequentei com meus pais há 60 anos e nesse dia naquele espaço carismático, senti a falta de todos que ja se foram e quantas coisas que fiz e não fiz também,("Nie lekajcie !! otworzcie drzwi Chrystusowi")= "Não tenhas medo!! Abra a porta para Cristo", parabéns,Estan.

Enviado por Estanislau Rybczynski - estan_tec@hotmail.com
Publicado em 29/04/2014

Sabe Vera, você me toca muito. A nossa afinidade é incrível. Me parece que andamos junto, dançamos juntos, rimos juntos e passeamos juntos. E você enxerga as coisas como eu. Tem saudade do que se foi, mas sorve o presente sem depressão. Eu também grito sempre: Consegui. Eu consegui. O meu choro é igual ao seu, e como eles são bons, não????

Enviado por Marcos Aurelio Loureiro - marcoslur_ti@yahoo.com.br
Publicado em 29/04/2014

Vera, linda sua historia de vida e quanta saudades ela traz! Você me fez lembrar que eu havia combinado com meu marido que na virada de 2000 para 2001, iríamos festejar andando pelas ruas de São Paulo.Uma pena, isso não aconteceu, acabei passando a virada na varanda do meu apartamento e chorando pela ausência do meu marido.Parabéns Vera, pela tua sensibilidade que me comoveu. Um beijo.

Enviado por Margarida Pedroso Peramezza - margaridaperamezza@gmail.com
Publicado em 29/04/2014

Que lindo!!!Quanta vida em apenas uma história!!!Imagino quantas vezes voce precisou parar de escrever para conter as lágrimas tomar um fôlego e recomeçar...A gente tem muita saudades dos tempos de infância e juventude,mas temos também amargas recordações do que nos foi negado e do que não tivemos a chance de vivenciar...Sentimos o cheiro,o gosto e as sombras do passado, mas elas se tornam pequenas frente a grandiosidade do que conseguimos ser e ter.

Enviado por Walquiria - walquiriarocha@yahoo.com.br
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